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Livro argumenta que a história humana foi moldada pelas guerras

Sem glorificar a violência, historiadora Margaret MacMillan mostra importância dos conflitos para a formação do mundo como o conhecemos

André Caramuru Aubert*, Especial para o Estado

06 de fevereiro de 2021 | 16h00

As guerras são parte das sociedades humanas e foram decisivas para fazer de nós quem nós somos. Esta é a tese central de War, How Conflict Shaped Us (Guerra - Como os Conflitos nos Formaram), de Margaret MacMillan. Talvez seja um pouco mais fácil aceitar essa ideia se você nasceu em algum país que, em anos recentes, tenha vivido de perto algum grande conflito; ainda que o Brasil tenha participado da 2º. Guerra na Europa, não dá para comparar nossa experiência com a de judeus, ingleses, alemães e outros. Ainda assim, há muitos brasileiros cujos antepassados passaram pela guerra na Europa e, por causa dela, vieram para cá (eu mesmo, que perdi avó e bisavô, sou um exemplo). 

Para MacMillan, professora da universidade de Oxford, a importância das guerras é uma constatação, não um juízo de valor. Ela não menospreza os milhões de mortos e os muitos milhões mais de feridos, desabrigados, exilados etc. Mas, depois de centenas de casos citados, dos gregos antigos ao Afeganistão moderno, passando pelas Cruzadas, por Napoleão e por muito mais, fica difícil discordar de seus argumentos. É nessa exuberância de histórias que está a maior atração do livro. Mas é também aí, por outro lado, que está seu principal ponto fraco: eventos que mereceriam mais cuidado são mencionados apenas de passagem. Por exemplo, ela usa não mais de três linhas para falar do massacre de Nanquim, o mais emblemático exemplo da crueldade japonesa na 2ª. Guerra, quando a cidade foi tomada e mais de 300 mil civis e prisioneiros de guerra chineses foram mortos, boa parte dos quais em exercícios para que os soldados aprimorassem o uso de baioneta, um evento que é contado em detalhes por Iris Chang num livro de tirar o fôlego, The Rape of Nanking – the Forgotten Holocaust of World War II (O Massacre de Nanquim – o Holocausto Esquecido da 2ª. Guerra).

Isso não quer dizer que MacMillan despreze fatos, mas sim que, enquanto leitor, eu adoraria que o livro fosse umas três vezes mais extenso. Ela afirma que o estudo das guerras (em todas as suas implicações) é usualmente desprezado fora dos meios militares, algo que, a depender de minha experiência de ex-aluno de história, é a mais pura verdade. Para MacMillan, aprender com as guerras é muito mais do que se debruçar sobre as batalhas do passado. É pensar, por exemplo, no impacto que elas tiveram sobre as democracias modernas, na medida em que, a partir do fim do século 19, por conta da complexidade crescente de armas e estratégias, os soldados precisavam ser cada vez mais alfabetizados e, em contrapartida, passaram a exigir participação política efetiva; nas mulheres, que atuavam como enfermeiras e operárias, fazendo o trabalho dos homens que estavam lutando, e cada vez mais se sentiram encorajadas a reivindicar direitos e salários iguais; no desenvolvimento de medicamentos, computadores, satélites etc., sendo gigantesca a lista de itens para fins militares que acabaram por beneficiar toda a sociedade; nos censos, criados em boa parte para que os governos soubessem com quais recursos – e com quantos soldados – poderiam contar; na arte, a favor ou contra a guerra, que produziu, desde a Odisseia até Apocalypse Now, passando por Guerra e Paz e Guernica, uma lista quase infinita de obras; no crescimento da importância dos jornais, que passaram a relatar histórias das frentes de batalha que, até então, eram desconhecidas do público; e, finalmente, na tensão vivida por nós ao pensar no tema, que ao mesmo tempo nos atrai (filmes, jogos, livros, monumentos) e repugna (violência e mortes), e assim por diante.

Como dito acima, boa parte do interesse despertado por guerras está na enxurrada de casos relatados, às vezes trágicos, como as histórias de estupros cometidos por soldados invasores contra mulheres: em 1945, estima-se que cerca de duas milhões de alemãs foram estupradas por soldados soviéticos no período de poucas semanas, enquanto nos Bálcãs da década de 1990, o número deve chegar a 50 mil mulheres bósnias estupradas por soldados sérvios. Outros exemplos são irônicos, como na notória incapacidade dos militares, que sempre pensam a partir das guerras passadas, em prever como serão as próximas: na 1º. Guerra, se prepararam para guerra de movimento e ela foi de trincheira; na seguinte, se prepararam para as trincheiras, e ela foi de movimento. Finalmente, há os casos tragicômicos: por meses ou anos, depois da batalha de Waterloo, as pessoas recolhiam dentes de cadáveres de soldados, no campo de batalha, para fazer dentaduras.

Na conclusão do livro, MacMillan, reflete sobre o futuro: o impacto da guerra à distância (drones, caças e mísseis guiados remotamente), contrastando com valores guerreiros antigos, como o dos gregos, que só admitiam armas que fossem usadas em lutas homem a homem, olhos nos olhos; a assimetria entre poderosos e caríssimos exércitos convencionais e terroristas capazes de grandes estragos usando apenas, por exemplo, um caminhão roubado; e as implicações das guerras cibernéticas, com o risco trazido por hackers e bugs para sistemas que controlam armas com vasto poder de destruição em massa. A guerra fez e faz parte de nós. De acordo com a bem fundamentada argumentação de MacMillan, ignorar esse fato em nada nos ajudará a conquistar a paz. Além disso, nunca é demais relembrar o ex-primeiro ministro francês Georges Clemenceau, que disse que guerras são importantes demais para serem deixadas nas mãos de generais.

*André Caramuru Aubert é escritor e historiador

 

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