Magnus Filmes
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Livro atualiza a história do cinema brasileiro dos primórdios à atualidade

Livro desmistifica a produção nacional e continua legado de obra de referência dos anos 1980

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

03 Novembro 2018 | 16h00

Em dois volumes, com mais de mil páginas no total, sai pela Edições Sesc a Nova História do Cinema Brasileiro, organizada por Fernão Pessoa Ramos e Sheila Schvarzman. Por que “nova”? Porque os dois volumes têm sua origem no incontornável História do Cinema Brasileiro, lançado ainda nos anos 1980, e que tinha apenas Fernão Ramos como organizador. Era e é volume imprescindível na estante do estudioso ou do mero apreciador do cinema que se faz por aqui. 

Mas achar que a Nova História se trata de mera “atualização” do livro anterior é dizer pouco. Em muitos sentidos, trata-se de nova obra. Acrescenta não apenas o errático desenvolvimento do cinema brasileiro ao longo dos mais de 30 anos que separam uma edição de outra (a primeira é de 1987), como incorpora autores, exclui outros, procede a um ‘aggiornamento’ de visões históricas e acrescenta personagens esquecidos da cena cinematográfica nacional. 

Como escrevem os organizadores, na Introdução: “...Procurou-se incluir protagonistas que ainda não tiveram o devido relevo na historiografia: a participação profissional das mulheres no cinema brasileiro, a presença da temática de gênero em sua diversidade e os cineastas e atores negros e indígenas.” Da mesma forma, deu-se relevo a produções em geral relegadas ao lado B da historiografia nacional: a pornochanchada, as comédias contemporâneas, o cinema experimental, além da “produção (comercial ou não) que vicejou ao largo do apoio estatal.”

Na verdade, há, nos dois livros, novidades espalhadas por todas as etapas historiadas da nossa aventura nas telas, das primeiras filmagens dos pioneiros aos novíssimos cineastas, já nascidos na era digital e que realizam seus filmes com pouquíssimos recursos. 

Impossível, nestas poucas linhas, resumir todo o trajeto. Basta lembrar que, mantido o recorte cronológico, os textos revisam e comentam os momentos marcantes da nossa historiografia, vindo dos primórdios do cinema silencioso, passando pela chanchada, pelo cinema industrial paulista, o Cinema Novo, o Cinema Marginal, a era da Embrafilme, a crise com o desmanche da era Collor, a Retomada e a fase atual, com sua explosão de formatos e expressões diversas. 

No capítulo Os Primórdios do Cinema no Brasil, José Inácio de Melo Souza desfaz alguns mitos, como a persistente versão de que as primeiras imagens nacionais teriam sido as da Baía da Guanabara, feitas pelo empresário Pascoal Segreto a bordo do paquete Brésil. Há menos preocupação em firmar um início mítico e absoluto e mais em traçar os passos iniciais para uma indústria cinematográfica no Brasil. E dar-lhe o devido tratamento geopolítico: “Passamos de mercado aberto a todas as nações para constituirmos uma província da produção norte-americana”. Como é até hoje, mas as raízes dessa dependência foram plantadas nas primeiras décadas do século passado. 

Em dois capítulos – A Ascensão do Novo Jovem Cinema e Cinema Novo/Cinema Marginal: Entre Curtição e Exasperação, Fernão Pessoa Ramos toca um período nevrálgico da nossa história cinematográfica. O possível ponto polêmico em suas considerações é a aproximação da figura tutelar do crítico Paulo Emilio Sales Gomes (1916-1977) com o Cinema Marginal. Paulo Emilio era tido como ‘compagnon de route’ do Cinema Novo, mas, como se sabe, não deixou nenhum grande texto sobre os filmes mais importantes desse movimento. Em seus últimos anos, por meio do conceito de “filme brasileiro ruim”, que diria mais sobre nós mesmos que as maiores obras-primas europeias, Paulo Emilio teria se aproximado do Cinema Marginal pela valorização do exagero e do escracho. São considerações que, bem lidas, podem dar lugar a discussões interessantes sobre as conotações ideológicas da crítica de cinema no Brasil. 

Fernão Ramos retoma a cena em outro momento de crise, estudada em dois capítulos, um sobre a decadência e o fim da Embrafilme, outro sobre a Retomada, período que se seguiu ao desmanche promovido pelo governo de Fernando Collor. A novidade, aqui, seria uma interpretação de conjunto da filmografia da Retomada através do valor catártico de um antigo conceito de Nelson Rodrigues, o complexo de vira-latas. Este formaria, com a desvalorização do País, uma espécie de narcisismo às avessas – o ato de cuspir na própria imagem que, por paradoxo, se transforma em alívio catártico diante da crise sem fim do país. 

Sheila Schvarzman lança seu olhar crítico sobre os filmes contemporâneos de grande bilheteria, de maneira geral esnobados e pouco estudados pela crítica. Devota a esses filmes amados pelo público sua atenção, mas não cai no extremo oposto, o de colocá-los em um problemático pedestal. Pelo contrário, Sheila anota a falta de inspiração, a grossura e o reforço de preconceitos dessas produções. Com honrosas exceções, é claro, deixando ver que nem sempre as comédias estão condenadas a seguir pelos mesmos caminhos para dialogar com o público. 

Por fim, Cléber Eduardo analisa o novo cinema autoral (2005-2016), de um ponto de vista privilegiado, ele que é curador da Mostra de Tiradentes, festival que se transformou na plataforma de lançamento desse cinema. Cléber anota a importância dos novos autores, em sua aposta independente de linguagens hegemônicas, mas também não recai no tom laudatório que tantas vezes desafina o instrumento crítico. Observa que “...Se a geração surgida após 2005 teve uma bandeira, ela não foi política e social pelas escolhas dos assuntos, mas bandeiras ou paradigmas acima de tudo estéticos ou narrativos.”

Como se percebe por esses breves exemplos, há, ao longo dos dois volumes da Nova História, farto material propício à discussão. Não se trata de obra acomodada ou repetitiva; traz ideias fortes e as expressa sem grandes rodeios. Cabe agora esperar por sua lenta assimilação acadêmica e observar os filhotes críticos que pode gerar. Na Universidade e fora dela. 

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