Ulf Andersen
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Livro 'Cem Encontros Ilustrados' imagina diálogos com titãs literários

Cada encontro encerra trechos da obra e do estilo do escritor parodiado, dando origem a um sutil nonsense estilístico

Aurora Bernardini, O Estado de S.Paulo

09 de janeiro de 2021 | 16h00

Quem começa a ler Cem Encontros Ilustrados sabendo que Dirce Waltrick do Amarante, a autora, é – entre outras – referência obrigatória como intérprete, tradutora e divulgadora da obra de James Joyce no Brasil, pode acreditar – por que não? – que seu tio-avô tenha sido amigo de Robert Musil, como diz o prefácio, ou que a Mary Shelley que assina as orelhas seja um feliz homônimo da autora de Frankenstein.

Entretanto, ao ler o primeiro “encontro” de Dirce com Lucia, a filha de James Joyce, num sanatório para doentes mentais perto de Londres, começa a duvidar da veracidade dos fatos. Não tanto pelo desazado das falas (I have never seen a star in the sky lembra mais uma música dos Beatles e Let’s dance, let’s fall in love parece remeter a Carol Schloss, a crítica que publicou o volume Lucia Joyce: To Dance in The Wake) quanto pela incongruência das datas: Se Lucia nasceu em 1907, Dirce, que se apresenta como mais ou menos sua coetânea, deveria ter hoje 113 anos! É aí que se descobre que, até a metade do livro, esses encontros com os maiores nomes da literatura mundial são encontros de ficção com a realidade, sim, mas com algumas peculiaridades que os une. Cada encontro encerra trechos da obra e do estilo do escritor parodiado, dando origem, ao mesmo tempo, a um sutil nonsense estilístico (à moda de Kharms – que ela usou nas pecinhas que encerram o livro – ou de Raymond, ou mesmo de Kafka, autores considerados) e a uma curiosidade crescente para conhecer a “moral” (“Nunca dance conforme a música!” de “A cigarra e a formiga: uma versão tropical”) ou o final hilariante da história (“Seus contos são influenciados pelos contos de Katherine Mansfield?” dirigido a Virgínia Woolf, que a odiava), suscitados pela trama habilidosa que, aos poucos, vai ganhando impulso ( gathering momentum, como quer a tradição anglo-saxã) e incorporando cenas da nossa realidade brasileira atual, como esta, por exemplo:

Numa segunda à tarde fui avisada anonimamente de que a polícia iria à minha casa. Não sabia exatamente o que ela queria comigo, mas suspeitei que uma das minhas alunas havia me denunciado. O caso foi o seguinte: numa apresentação de trabalho, ela afirmou que Marx havia sido o responsável pela Segunda Guerra Mundial, e fui obrigada a dizer que ele havia morrido anos antes de a guerra começar; aliás, morrera antes mesmo de ver a Primeira Guerra começar e acabar, porque, para nosso consolo, um dia tudo acaba. Mas ela insistiu que a culpa era só dele e citou um vídeo do YouTube.

Vão desfilando então, em episódios saborosos, entre outros, Samuel Beckett/ cada buraco tem seu nome; Edgar Allan Poe/ Annabel Lee Agatha Christie/ e não sobrou nenhum!; Lovecraft/ Quando uma cor cai do céu, Jesus na sequoia-gigante; Yves Klein/ antropometrias inusitadas; e Sylvia Plath/ my thumb instead of an onion. 

E assim vamos chegando à Ilha do xavante Jerônimo Tsawé, que, junto com Lembrancinhas, constitui a segunda parte do livro, em que os encontros (crônicas de visitas e/ou de viagens) passam a ser reais e realizados por Dirce, ora só, ora acompanhada do marido e do filho. Mas a sagacidade permanece. Vamos acompanhando o pintor Edward Hopper, cujos quadros apresentam a curiosa tendência de esvaziar-se, ou vamos visitar, a custo, o cemitério de Guildford (o motorista procurou o endereço no Google), onde ninguém sabia dizer onde Lewis Carroll estava enterrado. Já em Dublin, todos sabiam tudo de Joyce, inclusive que “a aventura do romance está na língua” e que cada ato, por mais trivial que seja, uma vez atingida a maestria verbal do escritor irlandês, sempre pode dar um grande romance. Novamente a narrativa vai tomando impulso e aqui estamos em Le bruit du champagne diante de uma cena hilariante (ma non troppo) de nossa realidade brasileira:

Liberado o uso de arma de fogo, as senhoras da sociedade de Alameda do Sul, que se reuniam havia mais de 20 anos todas as terças à tarde para celebrar a vida e exibir suas novas bolsas Chanel, Gucci, Prada etc., passaram a ter mais uma novidade para mostrar às amigas: os seus revólveres. Alguns apresentavam detalhes personalizados (eram dourados, ou pretos com pontos prateados, ou com estampa de onça). Foi numa dessas tardes festivas, enquanto tomavam champanhe, mexiam no celular de última geração, para procurar as fotos da última viagem a Abu Dhabi ou a outro lugar da moda, e ostentavam discretamente a boca do cano de seus revolveres que brotava de suas bolsas semiabertas, que o músico Zilu Mendes, contratado para animar o encontro, foi barbaramente assassinado, assim como todas as damas da sociedade, os garçons e demais serviçais que se encontravam no local. O caso foi o seguinte, pelo que li nos jornais: Zilu ligou dois microfones ao mesmo tempo, o que provocou uma microfonia alta e aguda, assustando as senhoras. Uma delas, instintivamente, sacou o revólver de sua bolsa de couro de cabra Prada e atirou em direção ao som. Atingiu uma das cristaleiras da casa. O novo barulho produziu um efeito em cadeia: as mulheres, uma a uma, puxaram os seus revólveres das bolsas e começaram a atirar em todas as direções. Segundo os policiais militares que atenderam ao caso, as trouxinhas de camarão ainda estavam quentinhas, e o champanhe, gelado.

Boa leitura!

*Aurora Bernardini é professora de literatura russa na USP

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