Renato Parada/Editora Todavia
Renato Parada/Editora Todavia

Livro compara formação da vanguarda literária na Argentina e no Brasil

'Sonhos da Periferia', de Sergio Miceli, conta como se deu a literatura portenha dos anos 1920 e 1930

André Cáceres, O Estado de S.Paulo

17 Fevereiro 2018 | 16h00

Sonhos da Periferia, novo livro do professor e sociólogo carioca Sergio Miceli, publicado no início deste ano pela editora Todavia, é um alentado estudo da formação do modernismo literário na Argentina e de como os ‘hermanos’ intelectuais se distinguiram, especialmente nos anos 1920 e 1930, de seus pares brasileiros. 

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Graças à rica contextualização fornecida no início da obra, o cenário portenho analisado por Miceli se abre mesmo aos leigos, e, embora a linguagem acadêmica empregada possa afastar os leitores mais casuais, o autor demonstra erudição e conhecimento de como foi tocado o tango literário em Buenos Aires.

Logo de saída, Miceli explicita uma divergência básica no fomento à literatura argentina em relação à brasileira: o sustento dos autores. Enquanto a cooptação de intelectuais empreendida pelo governo Vargas exerceu relevante influência sobre a produção artística no Brasil, do lado de lá do Prata o mercado editorial se estruturou por meio do mecenato privado, com os autores germinando em torno de famílias aristocráticas. 

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Alguns desses realizadores que viabilizaram a cena cultural em Buenos Aires foram o casal Ricardo Guiraldes e Adelina Del Carril, que investiram na revista e editora Proa, o clã Ocampo, especialmente Victoria, que fundou a revista Sur, os editores Samuel Glusberg e Manuel Gleizer e o magnata uruguaio da imprensa Natalio Botana, criador do jornal La Critica. 

No entanto, essa aparente independência em relação ao Estado, de modo geral, não fez com que os escritores argentinos fossem atraídos pela política, como o fizeram suas contrapartes brasileiras. Capitaneada por Jorge Luis Borges, que considerava a política “uma das formas do tédio”, a vanguarda literária portenha pregou a “arte pela arte”, em detrimento da “arte pelo povo”, e, com raras exceções, tentou se manter alheia ao debate ideológico premente às vésperas da 2.ª Guerra Mundial, tanto no ambiente internacional como no doméstico.

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Outro aspecto importante que distanciou os modernistas daqui e de lá foi o contato com autores de outras nacionalidades. Miceli explica como a inteligência argentina se abriu para o diálogo com escritores e artistas latino-americanos como os chilenos Pablo Neruda e Gabriela Mistral e os mexicanos Alfonso Reyes e David Alfaro Siqueiros, além de nutrir o intercâmbio com autores espanhóis. “Os modernistas brasileiros jamais tiveram relações tão íntimas com a intelectualidade do modernismo português, e tampouco se mostraram receptivos a propostas, linguagens e experimentos de contemporâneos em outros países latino-americanos”, escreve Miceli.

A primeira parte de Sonhos da Periferia analisa o projeto estético e a linha editorial de Sur, que abrigou em suas páginas acólitos de Borges, como Adolfo Bioy Casares (cujo segundo dos três volumes das Obras Completas será lançado nas próximas semanas pela Biblioteca Azul no Brasil), Silvina Ocampo e José Bianco, além de escritores europeus proeminentes como os franceses André Gide e André Malraux e o inglês Aldous Huxley. A fundadora da revista, Victoria Ocampo, e sua irmã Silvina não foram as únicas vozes femininas a encorpar a literatura argentina do período. Norah Lange, Nydia Lamarque e Alfonsina Storni são citadas como expoentes da época, “enquanto no Brasil as poucas escritoras se viram relegadas a uma posição marginal na hierarquia interna do campo intelectual”, segundo o autor. 

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Alfonsina, aliás, protagoniza, junto de Horacio Quiroga, a segunda metade do livro, que examina a trajetória desses dois autores relegados ao segundo plano em sua época, especialmente por tratarem de temáticas distintas das que interessavam ao grupo da revista Sur. Parte dessa segregação ocorre, de acordo com o livro, por conta do contexto socioeconômico do qual esses escritores vieram.

Sobre seu estudo, Sergio Miceli respondeu às seguintes perguntas ao Aliás:

De que forma o sustento dos autores – mecenato privado na Argentina e a cooptação estatal no Brasil – criou vanguardas literárias tão distintas, e quais outros fatores influenciaram essa diferença?

A vanguarda argentina germinou em meio as empreitadas de mentores privados esclarecidos – Evar Mendez à frente da revista Martin Fierro, Ricardo Guiraldes que financiou outras publicações, os suplementos dos grandes diários – enquanto os círculos modernistas no Brasil se viabilizaram na órbita das oligarquias estaduais, no momento inicial, dos quais dependiam seus empregos como escribas e funcionários, os livros de estreia e o cabedal de relações sociais que puderam acionar ao longo de suas carreiras. Tal padrão sucedeu em Minas Gerais, no Rio Grande do Sul e mesmo em São Paulo, onde o mecenato privado teve papel protagonista pela mediação do grupo do Estado de S. Paulo e de socialites como Olívia Guedes Penteado, entre outros. A rigor, os fatores decisivos foram a divisão do trabalho intelectual a reboque de demandas políticas, a existência de um público leitor educado e a prática de gêneros voltados para uma clientela de entendidos, como a poesia e o ensaio.

Como se deu o intercâmbio entre as vanguardas literárias europeias e sul-americanas?

As vanguardas sul-americanas, no período modernista, sempre exerceram a galomania como fonte principal de inspiração, com a ressalva de que a geração espanhola de 1898 exerceu uma influência importante, enquanto o modernismo português nunca teve entrada no Brasil na mesma voltagem.

Por que a literatura espanhola exerceu uma influência maior nos escritores argentinos do que a portuguesa nos brasileiros?

Borges e outro escritores sul-americanos de fala espanhola viveram por períodos prolongados na Espanha, o mesmo não sucedeu com seus homólogos brasileiros da mesma geração.

Como se explica que, embora menos dependentes financeiramente do Estado, os autores argentinos foram menos combativos, politizados e críticos ao governo que os brasileiros?

Alguns escritores argentinos desse período, por exemplo Raul Tunon, vivenciaram episódios tumultuados e tomaram posições políticas arrojadas, mas foram exceções. O mainstream da classe letrada argentina, nas décadas de 1910, 1920, 1930 e 1940, se enxergava como um grupo de letrados profissionais, os quais faziam ginástica para não mesclar arte com política. Houve muitas vozes eloquentes sem alcançar repercussão.

O que justifica a afeição de autores argentinos como Borges, Bioy, Ocampo e Bianco pela literatura policial, fantástica, de ficção científica ou de outros gêneros, enquanto os brasileiros se conservaram mais próximos do realismo social?

Por meio dos experimentos de Borges mesclando ensaio e ficção, procuro mostrar no livro como ele lidou com tais desafios suscitados por gêneros então menores da indústria cultural. Já os romancistas brasileiros foram socializados pelas análises dos grandes intérpretes do País nos anos de 1930, eis uma das vertentes do plasma intelectual que desatou no romance social.

A crônica é vista como uma forma essencialmente brasileira. Como ela se manifestou na literatura argentina no período em que o senhor analisa?

No Brasil, a crônica é um subproduto que letrados, mais ou menos (em geral, menos) prestigiosos praticam na imprensa, com frequência alusiva apenas de modo tangencial às agruras cotidianas do povo (crimes, contenciosos, etc.); na Argentina, em paralelo à essa diluição literária, houve cronistas inventivos e instigantes voltados para os assuntos calientes do cotidiano das classes inferiores, o que jamais existiu no país. Roberto Arlt, os irmãos Tunon e outros são bons exemplos dessa pegada.

O senhor enfatiza ao longo do estudo a relevância obscurecida de Alfonsina Storni e Horácio Quiroga, citando até motivos socioeconômicos para a segregação desses autores pelos correligionários de Borges, por tratar de temas mais delicados da sociedade argentina. Nesse sentido, Alfonsina e Quiroga eram mais próximos dos autores brasileiros?

Alfonsina e Quiroga são casos exemplares de escritores que lograram sucesso no ‘star system’ da indústria cultural, mas os assuntos com que lidaram tinham pouco a ver com as prioridades temáticas dos romancistas brasileiros.

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