Livro conta 'panelinhas' e desafetos da literatura brasileira

Livro conta 'panelinhas' e desafetos da literatura brasileira

'A Violência das Letras', de César Braga-Pinto, compreende o cenário entre 1888 e 1940

Ieda Lebensztayn*, Especial para o Estado

04 Agosto 2018 | 16h00

Que tal entrar numa panelinha? Se há fome de alimentos, de sustância literária, de consistência política, significativamente a mesma palavra que designa o utensílio de cozimento da comida serve, no diminutivo, para definir um grupo fechado de pessoas em torno de um objetivo. Uma panelinha original reuniria integrantes cujo contato e fervilhar frutificariam, abrindo-se exemplarmente para o sustento de muitos. Mas em geral se pauta na satisfação de poucos e na exclusão dos diferentes, consumindo-se em sensaboria e inutilizando-se frente ao ideal de justiça. Dignidade nem sempre cabe na panelinha, afeita a compadrio e prestígio econômico. 

Como foi a dinâmica das panelinhas, dos afetos e inimizades de escritores brasileiros de 1888 a 1940? Tal pergunta move o trabalho de fôlego de César Braga-Pinto, que nos oferece pesquisa, análise literária e interpretação de largo alcance social, cultural e político em A Violência das Letras: Amizade e Inimizade na Literatura Brasileira (1888-1940). Professor de na Northwestern University, César publicou o livro pela Eduerj em julho.

Junto com o imperativo de justiça, contra privações de ordem econômica, étnica, sexual, são marcas do trabalho de César a originalidade e a riqueza quanto ao tema, aos autores e às obras estudados: as amizades e seus impasses como objeto de discussão e de ficcionalização dos homens de letras, incluindo Raul Pompeia e Luiz Gama, Nestor Victor e Cruz e Sousa, Gilberto Freyre e José Lins do Rego, obras como o Bom-Crioulo, contos de Nestor Victor. 

Seu esforço é rastrear, no acervo da memória cultural, um “repertório de afetos”, com vistas a apreender a amizade para além de consanguinidade e proximidade territorial ou doméstica, mas sobretudo a fim de destacar as exclusões perpetradas em nome dos amigos e dos irmãos. Exemplar, esse viés democrático enforma o próprio estilo do autor, que constantemente se abre a pesquisar e articular outros fatos, obras, textos críticos e escritores, dialogando com diversas abordagens.

Vem desde os gregos o embasamento de César para pensar a amizade, sobressaindo a distinção aristotélica entre a amizade perfeita, entre homens igualmente virtuosos, e as motivadas pela utilidade. Uma epígrafe do livro evoca, de Horácio, a concordia discors, harmonia discordante das coisas. E Leo Spitzer sugere uma aproximação entre amizade e música, por meio de etimologia poética em que o radical cord- une coração e cordas musicais.

O livro traz original pesquisa sobre o duelo no Brasil: prestigiado entre escritores como Pardal Mallet, Coelho Neto, Luís Murat, o duelo propiciava o reconhecimento mútuo da honra dos adversários, reforçando laços de civilidade entre membros da emergente elite letrada, e se diferenciava da capoeiragem, considerada crime. Já Raul Pompeia se preocupava com o poder da imprensa de macular reputações, sobretudo dos menos favorecidos. Sua produção e dramática biografia são estudadas por César: alvo de tentativas de difamação quanto à saúde sexual e psicológica, isolado como nacionalista e defensor de Floriano Peixoto, Pompeia foi acusado de se esquivar do duelo com Bilac e cometeu suicídio. Acompanhada das ilustrações do escritor para O Ateneu, a análise de César pergunta, com o romance: como manter a retidão e resistir a humilhações e injúrias da opinião pública? E demanda atenção o estudo da amizade de Pompeia com Luiz Gama, inspirador do seu abolicionismo.

Saliente-se também que, recorrendo a teorias raciais do período e ao Otelo de Shakespeare, Braga-Pinto analisa a complexidade de elementos que compõem Bom-Crioulo, de Adolfo Caminha, como a alusão ao bom selvagem e a “degeneração” presente na “amizade escandalosa” do personagem – aí representadas suas inclinações homossexuais, raça e “tendência congênita ao crime”. Apreendendo as ambiguidades e o terror quanto à inclusão do negro na sociedade brasileira, tal análise aponta o caminho entre o discurso de marginalização dos outros e o de homogeneização, de fraternidade nacional.

O leitor tem muito a aprender também com os capítulos dedicados às amizades Nestor Victor/Cruz e Sousa e Gilberto Freyre/José Lins do Rego. Ao anunciar questões da amizade em Machado de Assis, Mário de Andrade e Sérgio Buarque, César os inclui em futuros estudos, seus e de outros pesquisadores.

À semelhança de panelinha, os termos trempe e lar têm na origem o sentido de encontro ao redor do fogo, da lareira, de nutrição e aconchego. Porém, rara a afinação dos afetos, predominam as fogueiras da vaidade e o acinzentamento dos diferentes. Sobressai, pois, a busca incansável de César Braga-Pinto por compreender a dinâmica das amizades entre escritores: ciente dos limites, dos preconceitos, e das possibilidades de combatê-los, tem no horizonte o sentido ético inerente à palavra amizade.

 

*Ieda Lebensztayn é crítica literária com pós-doutorado na USP e autora de 'Graciliano Ramos e a Novidade: O Atrônomo do Inferno e os Meninos Impossíveis'

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