Livro de estreia de Nathalie Sarraute mostra visão perturbadora da infância

Livro de estreia de Nathalie Sarraute mostra visão perturbadora da infância

Autora francesa ganha nova edição de 'Tropismos' no Brasil pela Luna Parque

Sérgio Medeiros*, Colaboração para o Estado

29 Abril 2017 | 16h00

Na sua autobiografia Infância (1983), a escritora francesa nascida na Rússia Nathalie Sarraute (1900-1999) conta que, durante uma estada na Suíça, começou a aprender alemão. Com uma tesoura não mão, a menininha Nathalie avançou sobre o espaldar de um sofá, dizendo na nova língua a frase ameaçadora: “Vou rasgá-lo”.

Essa visão pouco idílica da infância já aparece, embora mais atenuada, no seu livro Tropismos, com o qual estreou na literatura em 1939. É uma delicada experiência de escrita, como se verifica na nova tradução da obra (uma versão anterior, sob o título Tropismes, foi lançada em 2009). Ao longo de 24 textos breves, a autora descreve situações prosaicas, como o passeio de um jovem casal pelo bosque, acompanhado da filha que, em vez de brincar com as crianças da sua idade, prefere “absorver” o que os pais dizem entre si. A menina ensimesmada é afetada pelas conversas dos adultos, pelos cheiros da primavera e pelas sombras das árvores, mas não pelo que fazem as outras crianças ao seu redor; essa experiência íntima encerra um dos sentidos do termo “tropismo”, que, grosso modo, refere-se ao modo como um organismo reage à fonte de um estímulo.

Num outro texto, que fala também de “um pedacinho da infância”, o personagem, que não tem nome, como, aliás, todos os outros do livro (exceto a cozinheira Ada, que mora em Londres), sente-se observado em casa, o que confere à sua infância e adolescência um clima ligeiramente paranoico: “É que eles o vigiavam de mais perto desde que tinha sido surpreendido em seu quarto lendo a Bíblia”. Curiosamente, também os objetos da casa começam a tratá-lo com reserva, aumentando ainda mais a sua sensação de desconforto: “Os objetos também desconfiavam dele, e isso havia muito tempo, desde quando, pequenininho, ele tinha pedido, tentando se agarrar a eles, colar-se neles, esquentar-se neles, mas eles tinham se recusado a ‘passear’, a se tornar o que ele queria fazer com eles”. Talvez porque temessem ser despedidos pelos adultos, ele conclui, os objetos passaram estrategicamente a ignorar a sua presença. Desse modo, um frêmito de apreensão perpassa pelo personagem e pelas coisas que o rodeiam.

Até mesmo um passeio corriqueiro do avô com o neto parece insinuar (ou profetizar) uma tragédia futura: “Quando acontecia de sair com um deles, de levar um deles para ‘passear’, segurava com força a mãozinha em sua mão quente ao atravessar a rua, para assegurar que seu pequeno tesouro, sua criancinha querida, aquela coisinha viva, frágil e confiante pela qual era responsável, não fosse atropelada”. Depois que ambos conseguiam atravessar incólumes a rua, o avô declarava ao netinho que “logo vai chegar a hora de morrer”, referindo-se ao seu próprio desaparecimento, que ele supunha iminente. 

Entre os adultos, há mocinhas de cabelos lindos e pés pequenos, como a que recebe em casa um velho amigo dos pais, diante de quem começa a debater-se desastrada, “agitando no ar os pezinhos, de modo inocente e sempre sorrindo, amável”. Tudo é mais ou menos vago e inexplicável no texto, como se estivéssemos às voltas com situações absurdas, talvez próximas das do nonsense inglês, que usa, como se sabe, de modo similar, os pronomes “eles” e “elas”. Nos limeriques de Edward Lear (e Nathalie era grande conhecedora da literatura de língua inglesa), os personagens vivem situações intoleráveis, sobretudo quando “eles” entram em atrito com “ele” ou “ela” (o indivíduo que se separa do seu grupo). Como apontam os estudiosos, o indivíduo, nesse tipo de literatura, está quase sempre em desacordo com a sociedade ou a família, a qual o trata, então, com hostilidade. Nos textos de Sarraute, até os objetos podem se opor ao indivíduo, como acontece, aliás, também na obra do poeta Francis Ponge, seu contemporâneo.

Associada ao movimento literário denominado “nouveau roman”, que buscou, a partir dos anos 1950, abolir a intriga e os personagens definidos, Natalie Sarraute nunca foi, desde seu primeiro livro, uma escritora convencional, mas dialogou com os autores revolucionários do seu século, como Proust e Joyce, tirando disso grandes lições, que são visíveis na sua obra.

*Sérgio Medeiros é poeta, tradutor e professor de literatura na UFSC. É autor de 'A Formiga-Leão e Outros Animais na Guerra do Paraguai' e 'A Idolatria Poética ou a Febre de Imagens' (Iluminuras)

Tropismos

Autora: Nathalie Sarraute

Tradução: Marcela Vieira

Editora: Luna Parque

122 páginas

R$ 35

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Literatura

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