REUTERS/Benoit Tessier
REUTERS/Benoit Tessier

Livro de Leonard Koren traz Arte reinventada por inconformistas

Em ‘O Que Fazem os Artistas’, o editor e arquiteto americano revela o processo de Duchamp, Christo e outros

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

08 de janeiro de 2022 | 16h00

O arquiteto nova-iorquino Leonard Koren, de 73 anos, foi artista e editor (da revista Wet) antes de se tornar crítico e escrever livros como Wabi-Sabi: Para Artistas, Designers, Poetas e Filósofos (Editora Cobogó, 2019), que introduziu ao Ocidente o conceito estético japonês do Wabi-Sabi. 

Em seu mais recente livro, O Que Fazem os Artistas (Editora Cobogó), Koren analisa a obra de criadores radicais como Marcel Duchamp, Richard Serra e a dupla Christo e Jeanne Claude, que empacotaram edifícios, monumentos e até o Arco do Triunfo, em Paris.

O que une todos esses artistas é a percepção de que não se faz boa arte sendo convencional. Certa vez, o artista Chuck Close deu um conselho ao escultor norte-americano Richard Serra: “Se você realmente quiser diferenciar o seu trabalho do de todo mundo, toda vez que chegar a uma bifurcação numa estrada, não pense sobre qual rumo tomar, automaticamente escolha o caminho mais difícil. Todo mundo está escolhendo o mais fácil”. O Que Fazem os Artistas tenta revelar que trilhas Duchamp e outros tomaram. A seguir, Leonard Koren fala sobre seu livro.

Entrevista 

Estadão – Quase todos os artistas selecionados em seu livro fazem arte conceitual, ou seja, trabalham mais com conceitos que estética. Qual foi o seu critério de seleção? Por que só conceituais, e não pintores contemporâneos como Sean Scully e Luc Tuymans, por exemplo?

Leonard Koren – Selecionei artistas cujo trabalho tem ressonância num contexto cultural mais amplo, não nomes confinados num estreito circuito de arte. Por exemplo, Marcel Duchamp, um dos artistas incluídos no livro, promoveu a ideia de que a arte pode se manifestar em infinitos meios não tradicionais – isto é, não apenas por meio da pintura ou escultura. Essa ideia é praticamente aceita por todos hoje em dia. Sean Scully, um pintor maravilhoso, não parece exercer tal influência.

O senhor escreveu um livro sobre Wabi-Sabi, que abraça a poética da imperfeição, assim como criou uma revista, a Wet, que desafiou padrões editoriais na época para incluir notáveis transgressores. Em que medida o livro e a revista estão relacionados com seu livro O Que Fazem os Artistas?

Não acredito que exista uma correlação direta entre eles. A metodologia essencial que uso para criar todas as minhas obras, no entanto, é a mesma: sigo minha curiosidade. Faço a mim mesmo perguntas sobre coisas que não compreendo. O Que Fazem os Artistas começa com a questão sobre como os artistas podem criar sem produzir objetos. Penso que Marcel Duchamp e John Cage fizeram isso, de alguma maneira. Por outro lado, artistas como Donald Judd, chamado de “minimalista”, fez um tipo arte que exigia um suporte intelectual massivo. Acho isso irônico. E curioso. Isso me leva a outras questões, o que provocou o advento desse livro sobre um tipo de arte distinta.

Duchamp é um personagem-chave em seu livro, um artista que ajudou a definir um movimento revolucionário na artes visuais do século 20. Qual foi para o senhor a maior das contribuições de Duchamp?

Considero que a ideia de Duchamp de que tudo possa ser, virtualmente, arte, foi sua grande contribuição, uma ideia simplesmente genial. Seu modo inteligente de pensar a arte e demonstrar seus conceitos inspirou todos os artistas que trabalham de uma forma não tradicional hoje.

Alguns criadores estudados em seu livro, como o músico e compositor John Cage, buscaram inspiração na pintura – Rauschenberg, neste caso particular. Como o senhor definiria o papel da pintura na arte contemporânea?

Embora rupturas e inovações raramente ocorram na pintura contemporânea, ela continua sendo importante porque nós, humanos, gostamos de ter algo de belo e interessante para pendurar nas parede. Então, ainda que a função da pintura seja apenas decorativa, ela tem um imenso valor.

Artistas como Christo and Jeanne-Claude produziram obras de arte monumentais ao cobrir monumentos, edifícios históricos e até ilhas, usando conceitos duchampianos. Como o senhor definiria o trabalho da dupla em relação ao conceito do ready-made de Duchamp?

Para mim, a relação mais óbvia entre o trabalho de Christo e Jeanne-Claude e o ready-made é uma espécie de parentesco conceitual. Em ambos os casos, o da dupla e Duchamp, eles convidam o espectador a perceber o comum, os objetos cotidianos, sejam grandes ou pequenos, anônimos ou assinados por grandes nomes, de maneira completamente nova.

A experiência radical de Donald Judd parece ao senhor uma boa estratégia para preservar o espaço da arte num mundo que parece ter esquecido o significado desta. O senhor acredita que os artistas têm de ser militantes para defender seu modo de viver?

Não, não acho que os artistas precisem contextualizar ou defender suas obras de arte com a mesma energia e precisão de Judd. Ele e seus contemporâneos tiverem de se esforçar muito para que seus trabalhos fossem vistos de forma apropriada, pois sua arte era radicalmente nova, na época. Hoje, o público parece mais receptivo a aceitar, a entender praticamente tudo. Hoje, as instituições de arte são mais sensíveis a experiências radicais, e também mais cooperativas com os projetos de artistas.

Um dos artistas mencionados em seu livro é o japonês conceitual On Kawara, que pintava obsessivamente números em suas telas. O que a arte de On Kawara representa para o senhor?

Vejo a arte de On Kawara de diferentes modos. Admiro o maneira como cria obras que desafiam a cabeça do espectador. Respeito a sanidade, a disciplina e tenacidade de sua prática artística. Acima de tudo, acho que suas obras de arte me proporcionam experiências estéticas gratificantes. As ideias têm qualidades estéticas, ou seja, vêm acompanhadas de cores, formas e texturas. E imagens. 

Richard Serra é incompreendido. Qual seria a causa dessa má percepção de uma obra reconhecida pelos críticos?

Discordo um pouco. Acho que as esculturas de Serra estão, hoje, entre as que mais agradam ao público. Está certo, durante sua fase mais arrogante, Serra desafiou o público ao instalar esculturas em espaços públicos nem sempre apropriados, mas acho que ele aprendeu a lição.

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