Livro de memórias conta como autor judeu escapou dos nazistas

Livro de memórias conta como autor judeu escapou dos nazistas

'A Cena Interior', de Marcel Cohen, traz história da família do escritor, morta em Auschwitz

Flávio Ricardo Vassoler*, Colaboração para o Estadao

24 Junho 2017 | 16h00

Entre os escombros de suas memórias, eis como o escritor judeu de origem turca Marcel Cohen, nascido em 1937, cuja família se mudara para Paris no início do século 20, abre a ferida de A Cena Interior (Editora 34, tradução de Samuel Titan Jr.): “As páginas seguintes contêm tudo o que recordo e tudo o que pude saber de meu pai, minha mãe, minha irmã, meus avós paternos [Mercado e Sultana], dois tios [Joseph e David] e uma tia-avó mortos em Auschwitz em 1943 e 1944. A única a voltar foi a esposa de um dos meus tios [Perla, esposa de David]. Eu tinha cinco anos e meio. Assim sendo, este livro é feito de recordações e, em maior medida, de silêncio, de lacunas e de esquecimento.” 

Ora, mas como é que o pequeno Marcel, de apenas cinco anos e meio, teria conseguido escapar das garras da Gestapo, a temível polícia política nazista, em meio à capital francesa ocupada pelos alemães? 

14 de agosto de 1943: enquanto a criada e babá Annette passeia com Marcel em um parque próximo, a polícia irrompe no apartamento da família. De volta do passeio, a zeladora impede que Annette e Marcel entrem no prédio – a boa samaritana ainda se preocupa em levá-los para longe do sequestro nazista. Marcel Cohen nos revela, então, que “foi da calçada oposta que vimos minha família subir num caminhão. Compreendemos muito bem o gesto discreto de Marie que, pelas costas dos policiais e à maneira da zeladora, incitava-nos a tomar distância.”

Com a infância mutilada pelo Holocausto, nós bem poderíamos imaginar que Marcel Cohen exprimiria, em A Cena Interior, os mais angustiantes sentimentos de culpa e remorso. (Em meio aos relatos dos sobreviventes dos campos de concentração, é recorrente a confissão de uma culpa profunda em face de todos aquele que pereceram – uma culpa por ter sobrevivido, quiçá uma sensação de cumplicidade insólita e paradoxal com os carrascos.) Ocorre que Marcel Cohen, como um ourives da memória, preocupa-se em nos trazer os mais singelos relatos de seus entes queridos. É como se, insuflados pelo lirismo, os escombros da memória quisessem erigir tanto uma barricada contra o esquecimento quanto um abrigo para aquele que se sente coagido a se lembrar. [Não à toa, um verso do poeta norte-americano George Oppen (1908-1984), citado em A Cena Interior, parece ecoar o espírito do memorial que Marcel erige para os Cohen: “Envelhecer, que estranha aventura para um menino”.] 

É assim que ficamos sabendo que Jacques, pai de Marcel, afaga a esposa Marie com o apelido de Poupika, que quer dizer “bonequinha”, em ladino, a língua dos judeus ibéricos. Eis a maneira mais carinhosa com a qual um homem poderia se referir à amada alado pela língua de seus ancestrais. Marcel Cohen nos informa, então, que o diminutivo em ika, de uso corrente no século 15, se perdera em prol do ita do espanhol contemporâneo. Assim, “hoje em dia, quando o ladino é estudado como língua morta, após o desaparecimento nos campos de concentração das comunidades sefarditas da Grécia e dos Bálcãs, a ternura desse diminutivo, contemporâneo de Isabel, a [rainha espanhola] Católica, soa como um dobrar de sinos cada vez mais tênue, cada vez mais distante, cada vez menos distinto”. 

É assim que ficamos sabendo que Sultana, avó de Marcel, é uma cozinheira de mão cheia. Mesmo com recursos módicos, ela se esmera na cozinha com paciência e ternura infinitas. Seu iman bayildi (berinjelas recheadas de carne), irresistível como ele só, de fato encarna o significado turco de seu nome: de tão boa a comida, “o imã desmaiou”. Mas, acima de tudo, os filhos e netos de Sultana adoram seu sütlaç, um creme de leite e maisena, perfumado com água de rosas e polvilhado de canela. Ora, se Marcel é o ourives da memória, Sultana é a rainha das iguarias. 

É assim que ficamos sabendo que David, tio de Marcel, fora separado de sua esposa Perla na rampa de desembarque do trem em Birkenau (Auschwitz II). Desesperado por não receber notícias de sua amada em meio ao maior cemitério da história, David tenta fugir (da própria vida?), mas a cerca eletrificada de arame farpado o impede. Os soldados da SS nazista penduram o cadáver de David no pátio central, como um espantalho, para que tanto recém-chegados quanto prisioneiros aprendam a lição. Os cativos passam a se referir ao tio de Marcel Cohen como o “pobrezinho do David”. (Consta que, em janeiro de 1945, pouco antes da liberação de Auschwitz pelo Exército Vermelho, os prisioneiros ainda se lembravam do “pobrezinho do David” balançando sobre suas cabeças, como um espectro.)

Única sobrevivente de Auschwitz entre os Cohen, Perla diz a Marcel – quiçá em uma mescla insólita de orgulho e culpa: “Que morte heroica teve o seu tio David, não?”

*Flávio Ricardo Vassoler é doutor em Letras pela USP, com estágio doutoral junto à Northwestern University (EUA)

A Cena Interior

Autor: Marcel Cohen

Tradução: Samuel Titan Jr.

Editora: 34

152 páginas

R$ 46

Mais conteúdo sobre:
LiteraturaHolocausto

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.