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Livro de memórias de um dos maiores autores quenianos chega ao Brasil

É a primeira vez que o premiado Binyavanga Wainaina tem uma obra publicada no País

Faustino da Rocha Rodrigues*, Especial para o Estado

16 de março de 2019 | 16h00

Binyavanga Wainaina é hoje um dos maiores escritores da África Oriental. A Editora Kapulana acabou de publicar o seu primeiro livro no Brasil, Um Dia Vou Escrever Sobre Esse Lugar, com tradução de Carolina Kuhn Facchin. 

Através de memórias, o autor queniano traz alguns dos aspectos responsáveis pela construção de sua personalidade de escritor. E o faz sem fórmulas mágicas, sem tomar a si mesmo como aquele ponto fora da curva. Desde o princípio, em sua vida, não há excepcionalidade. A literatura não é dom. 

Ponto interessante, pois Wainaina inevitavelmente lida com problemas e contrastes evidentes em um país repleto de dificuldades. Facilmente poderia sugerir a criação do indulgente discurso de superação. Admite, claro, tais problemas como efeito, consequências, do brutal processo de colonização no continente. Porém, sua avaliação o transcende. Isso adquire ainda mais força ao se observar a narrativa no tempo presente. Por mais que manipule relatos, traz as ações para o presente, conferindo um efeito de processo permanente de construção. Logo, nada soa como dado, estabelecido em um passado.

Ao optar pelo presente, Wainaina aproxima os fatos do leitor, fazendo com que não sejam assimilados como elementos vivos apenas na memória de quem narra. Não, ele está ali – por mais que tenha ocorrido em tempo pretérito. O artifício aproxima o autor do leitor. Toca-o de maneira a mostrar a relevância de se escrever, ficcionar, sobre esse lugar. Eis o comum. 

Não é novidade que em livros de memórias os fatos sejam relatados e interpretados como acontecimentos cruciais na formação da personalidade do autor. O leitor, mergulhado na narrativa, concentrado no elemento memorialístico, tende a ler buscando traços, aspectos específicos, detalhes, capazes de ser circunstanciais na composição da obra completa do escritor em causa. Em Wainaina isso é marcante. 

Nesse caso, o lugar, alvo do desejo de escrita, adquire proeminência. Circunstâncias preponderam. Despontam como relevantes na construção de uma personalidade a apontar para um horizonte outro, para além do excepcional. Ao tratar de um território desconhecido de grande parte do público, atenta para o singular, sublinhando o que seria responsável pela criação da personalidade de um grande escritor. 

Assim sendo, a relação do autor com a África, e seu país, é fundamental. Todavia, em Wainaina, o Quênia não é enfocado pelo prisma do exótico. Esboça com crueza o tribalismo exacerbado durante o longo período autoritário. Assinala para suas consequências no processo político. Critica-o ao demonstrar a mudança de seu olhar sobre ele ao longo da vida – o livro se inicia com a infância do autor, finalizando na capacidade de julgamento patente na idade adulta. Nisso, não prepondera o orgulho, tendo em vista o seu pertencimento a uma dessas tribos, os gikuyus. Não a esboça como especial, nem mesmo frente às demais tribos. 

Lendo o livro, vê-se que uma das menores preocupações de Wainaina é a de despertar a admiração do leitor pelo seu país e pelo continente. Passa longe da mitologização sobre a África. Em suas memórias, cabem os contrastes. Contrastes estes a avivarem a complexidade do humano. Traço ainda mais visível ao se deparar com o horizonte ocidental, da Europa e dos EUA, onde se estabelece profissionalmente.

Como a preocupação de Wainaina é com o comum, sua escrita entoa a impressão da frase não acabada, mesmo após sua finalização. Logo, o leitor não pode esperar uma conclusão enfática, derradeira, a conduzir a interpretação final. Não. Como o autor de Um Dia Vou Escrever Sobre Esse Lugar mobiliza elementos comuns, presentes tanto em quem escreve quanto em quem lê, prefere deixar a conclusão em aberto. 

Tal fato se torna evidente quando trata da cultura urbana de modo geral – patente em diversas incursões pelo universo pop constantemente mencionado. A peculiaridade do urbano africano não desponta frente a qualquer outro lugar. Sua África ambiciona o moderno. 

O título do livro surge como promessa, em dois sentidos. O primeiro, de que o lugar anunciado será tema da escrita de Wainaina. O livro diante de si não é algo definitivo. O que está ali não é o que se escreveu, mas, sim, o que será escrito – e, em seu julgamento, merece ser escrito. Vale a pena ficcionar a crueza da realidade queniana, que é a de um escritor em formação.

Novamente, não é o exótico, a mitologização do desconhecido (não mais tão desconhecido assim), a despontar na vontade da escrita. É o real.  Há muito o que se dizer sobre tudo o que foi registrado nas 306 páginas de Um Dia Vou Escrever Sobre Esse Lugar. Certamente, isso converge com a premissa das frases em aberto utilizadas pelo autor. Ele não pode ser conclusivo. 

O segundo sentido da promessa é o de que Wainaina deixa a entender que nunca escreveram sobre esse lugar – o lugar, tão comum, tão efêmero, inevitavelmente responsável pela formação de um escritor. Talvez realmente seja assim. Talvez tenham sido apresentados apenas ficções exageradamente disformes com a realidade ou preocupadas em resgatar uma cultura ameaçada de ser perdida. Como relatos, há um inevitável compromisso com a realidade, como uma maneira de informar, de munir o leitor com dados. É como se, em grande medida, tais descrições compusessem um panorama de necessidade. 

Ao dizer que escreverá sobre esse lugar, Wainaina anuncia a ficção. Para ele, aqui, esse é o sentido de escrever. A sua formação como escritor, sua relação com a família, a incapacidade de conclusão de um curso superior, os embates tribais no Quênia, a morte de sua mãe, o diabetes, a homossexualidade, as andanças pela África, enfim, nada disso é ficção. É tudo realidade. Porém, não basta em si mesma. Como disse Umberto Eco uma vez, “somo impelidos a trocar a ficção pela vida – a ler a vida como se fosse ficção, a ler ficção como se fosse a vida”. Enfim, apresentar o real não anula a ficção futura. E a ficção futura tampouco anula a realidade. 

Um Dia Vou Escrever Sobre Esse Lugar surge como introito. Compõe um universo de possibilidades. Wainaina, ali, diz que há muito a ser falado sobre o Quênia, sobre o mundo do qual faz parte. Nem tão distinto assim, o faz por meio de sua experiência, de sua vida, de suas memórias. 

A partir de então, nada soa estranho. Ao universo de possibilidades de Wainaina, tem-se a proximidade. É real a escassez da escrita sobre o Quênia pelo mundo. E é real o relato de Um Dia Vou Escrever Sobre Esse Lugar. E é real a ficção que virá.

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