Bernardett Szabo/Reuters
Bernardett Szabo/Reuters

Livro de Richard J. Evans mostra que boatos não surgiram com a internet e sempre foram perigosos

Um dos maiores especialistas na extrema-direita na atualidade, historiador trata de conspirações antissemitas

André Caramuru Aubert*, Especial para o Estadão

28 de agosto de 2021 | 15h00

Teorias conspiratórias e verdades alternativas são tão antigas quanto a humanidade. Em anos recentes, porém, com a ajuda da internet e das redes sociais, muito bem utilizadas por líderes políticos inescrupulosos e/ou malucos, parece que atingimos patamares jamais vistos. Mas o que o nazismo tem a ver com isso?

Sir Richard J. Evans, historiador de Cambridge, é um dos maiores especialistas em nazismo em atividade. Sua Trilogia do Terceiro Reich, uma obra de 3.200 páginas publicada entre 2003 e 2008 já se tornou um clássico. Agora, em seu mais recente livro (nas minhas contas, o vigésimo oitavo), The Hitler Conspiracies (As conspirações de Hitler), ele mergulha no tema a partir de Hitler e de seus asseclas. Evans não se limita a analisar o uso pragmático das teorias conspiratórias pelos nazistas. O que ele pretende mesmo é entender como esse negócio funciona, e como, ainda hoje, as conspirações relacionadas a Hitler e ao nazismo têm força e, de um jeito ou de outro, nos afetam.

O livro é dividido em cinco capítulos, mas os que se destacam são o primeiro e o quinto. O inicial trata da trajetória do livreto Os Protocolos dos Sábios do Sião, a mais influente obra antissemita de todos os tempos, até hoje distribuída e lida, inclusive no Brasil; e o último fala da suposta fuga de Hitler de seu bunker em Berlim, nos últimos dias de guerra, para algum esconderijo secreto (na maior parte dos casos, em Bariloche, na Argentina). Os três capítulos intermediários discutem o mito de que a derrota alemã na 1ª Guerra teria sido causada por traidores internos (judeus, comunistas e social-democratas), a tal “facada pelas costas;” o incêndio do Reichstag em 1933, que serviu de pretexto para que se enterrasse a democracia de Weimar; e a fuga de avião, para a Escócia em 1941, de Rudolf Hess, um dos figurões nazistas, para uma tentativa de negociação de paz em separado com os britânicos. Como Evans conhece como poucos a história alemã, esses três capítulos são repletos de fatos, interpretações e contestações a respeito de teorias conspiratórias que os circundam. Mas vejamos com mais calma o primeiro e o quinto.

Poucas obras causaram tanto estrago, ao longo do século 20, quanto o panfleto Os Protocolos dos Sábios do Sião, tema do primeiro capítulo, que relata uma suposta reunião de 300 líderes judeus na Suíça em 1898, na qual teria sido detalhada a estratégia judaica para dominar o mundo, que aconteceria a partir do controle da imprensa, das editoras e dos bancos. Evans conta a trajetória do panfleto e destrincha com rigor toda a sua falsidade, desde os plágios e colagens de outros textos até a possível localização do autor, um extremista de direita russo-ucraniano. Publicado em muitos países (Henry Ford patrocinou a impressão de meio milhão de exemplares nos Estados Unidos), ainda há por aí quem os repute verdadeiros. Não era o caso de Hitler e Goebbels, que tinham perfeita noção da falsidade da obra, mas consideravam-na útil para a causa do antissemitismo.

No quinto capítulo, finalmente, nos deparamos com um dos maiores delírios travestidos de fatos das últimas décadas, que é a suposta fuga de Hitler para a Argentina nos dias finais da guerra. Evans é minucioso. Primeiro, ele descreve todas as investigações, iniciadas desde os primeiros dias após a queda de Berlim, que provaram que Hitler se suicidou junto com a companheira Eva Braun pouco antes da chegada dos soldados soviéticos. Depois, Evans lista as mais conhecidas versões conspiratórias que contam a “verdade” sobre a fuga do Führer (uma delas, inclusive, virou um bem-sucedido documentário no canal History Channel, que passou no Brasil como Caçando Hitler). E uma por uma, sistematicamente, as versões fantasiosas são demolidas pelo autor. 

Mas o melhor não está em demonstrar que não havia a menor possibilidade de Hitler, já bastante doente, ter escapado do centro de uma Berlim em ruínas, sob bombas e cercada por todos os lados, sem acesso a aviões ou navios, e viajado, sem percalços, para o sul argentino, onde teria vivido em paz por muitos anos. O que mais impressiona é o quanto as teorias da fuga de Hitler se relacionam com as atuais teorias conspiratórias da extrema direita, inclusive as que foram usadas nas últimas campanhas eleitorais nos EUA pelos aliados de Donald Trump. Alguns dos autores e grupos que contaram a “verdade” sobre a fuga de Hitler são os mesmos que “demonstraram” que Barack Obama era estrangeiro, muçulmano e/ou comunista. Um deles chegou a sustentar que o Obamacare era a reedição de um plano de saúde do “esquerdista” Adolf Hitler. O mesmo Hitler, aliás, que teria planejado instituições como a ONU e a Organização Geral do Comércio, tudo com o objetivo de fazer os comunistas conquistarem o planeta. No fim das contas, trata-se sempre de gente que tem predileção por negar a validade do método científico.

As conspirações de Hitler é um livro erudito e bem escrito, que, além de acrescentar um pouco mais ao muito que Richard Evans já escreveu sobre o nazismo e a 2ª Guerra Mundial, vale por muito mais do que isso. Mostra que teorias conspiratórias e verdades alternativas causaram mal no passado e continuam a fazê-lo, representando risco mesmo quando aparentam ser coisa de simples lunáticos falando coisas sem pé nem cabeça. Você pode começar acreditando que Hitler viajou para a Argentina num disco voador e terminar ajudando a eleger alguém como Donald Trump ou um de seus discípulos. 

*ANDRÉ CARAMURU AUBERT É AUTOR DE ‘POESIA CHINESA’ (SESI)

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