Brooklyn Museum
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Livro de Tim Mackintosh-Smith resgata três mil anos de história árabe

Tribais e desunidos, os árabes passaram a maior parte de sua história tentando manter a independência, espremidos entre impérios

André Caramuru Aubert*, Especial para o Estado

07 de novembro de 2020 | 16h00

Quando Tim Mackintosh-Smith escuta, da janela de sua casa em Sanaa, no Iêmen, o barulho de bombas explodindo e dos disparos de metralhadoras, ele sabe que não se trata de apenas mais um dia de uma interminável e sangrenta guerra civil. O que está acontecendo nas ruas da cidade que ele ama e escolheu para viver é mais um capítulo que ecoa a longa história dos árabes, uma saga de uniões e desuniões, de lealdades e traições, de famílias, tribos e impérios. Uma história que o estudioso inglês conhece a fundo e sobre a qual escreveu um livro excepcional.

Arabs - A 3.000-Year History of Peoples, Tribes and Empires (Árabes – Uma História de 3.000 anos de Povos, Tribos e Impérios, em tradução livre, 630 páginas, Yale University Press, 2019), é uma erudita história dos povos árabes, e não (ou, pelo menos, não tanto) do islamismo ou de povos arabizados. Isso não é um detalhe tão trivial quanto pode parecer, porque a maioria das histórias sobre os árabes começa com Maomé, o fundador do islamismo, e ainda, ora mais, ora menos explicitamente, dá a entender que “árabes” e “muçulmanos” são a mesma coisa. É o caso, por exemplo, de um clássico sobre o tema, o livro de Albert Hourani, editado no Brasil com o título de Uma História dos Povos Árabes (Cia das Letras, 2006, trad. de Marcos Santarrita). Mackintosh-Smith começa sua história mil anos antes, se concentra nos árabes propriamente ditos e é bastante convincente ao explicar os motivos que, se por um lado permitiram o surgimento e o sucesso de Maomé, por outro, comprometeriam decisivamente a tentativa dos árabes de construir um império duradouro.

Tribais e desunidos, os árabes passaram a maior parte de sua história tentando manter a independência, espremidos entre impérios. Egípcios, babilônios, gregos, etíopes, sassânidas e romanos antes de Maomé; bizantinos, turcos, mamelucos, mongóis, franceses, ingleses e norte-americanos, depois. Quando conseguiram se unir, sob Maomé e seus herdeiros imediatos, a energia e a velocidade da expansão árabe foi impressionante. Em poucas décadas, eles seriam a maior potência do mundo mediterrâneo, dominando desde a Pérsia até a Península Ibérica, com todo o norte africano no caminho. Mas, depois de apenas dois séculos, nos quais reinaram sucessivamente as dinastias Omíada e Abássida, ligadas familiarmente ao Profeta, a energia chegava ao fim e, a partir daí, todas as grandes potências erguidas em nome do Islã seriam cada vez menos “árabes”.

Uma das causas para o fracasso, a longo prazo, de um “império árabe” foi, pura e simplesmente, demográfica. Como não havia uma massa populacional suficiente para deixar a terra natal e ocupar todas as regiões conquistadas, recorreu-se, desde o início, a mercenários. Foi assim que guerreiros turcos, originalmente assalariados dos califas, acabaram ganhando força e se tornando, eles próprios, os senhores de um grande império islâmico (o mesmo se deu com os Berberes no Marrocos e na Espanha). Se você viu Lawrence da Arábia, vai se lembrar dos árabes lutando, com o apoio dos ingleses, para se libertar do império turco-otomano; apenas para, logo em seguida, cair na órbita de influência daqueles mesmos ingleses e de outras potências ocidentais.

Mackintosh-Smith não deixa de discorrer, como outros autores, sobre o fato de o árabe ter sido a principal língua franca do planeta, tomando o lugar do latim e só recentemente superada pelo inglês. Foi, por séculos, a língua por excelência do comércio, da literatura e da ciência. É impressionante, ele lembra, a quantidade de palavras atuais de origem árabe em todas as grandes línguas ocidentais. Há muitos exemplos em inglês, mas, em português, não ficamos atrás. Pense em “algoritmo” por exemplo. Ou em café, álcool, limão, açougue, algodão, papagaio, pátio... E aí chegamos a um dos pilares de Arabs: muitos estudiosos apontaram o caráter duplo da expansão árabe, com a espada, de um lado, e a palavra, de outro. Mas Mackintosh-Smith vai mais longe, valorizando enfaticamente este segundo aspecto. Foram a poesia e a musicalidade quase hipnóticas do árabe, segundo ele uma das mais difíceis e belas línguas humanas, que teriam dado ao Corão seu incomparável poder persuasivo. Um exemplo está nas primeiras linhas do livro sagrado: em tradução, as palavras são: “Não há outro deus a não ser Alá.” A ideia é transmitida, mas perde-se toda a melodia que há em “La illaha illa ‘llah.” Muito antes de McLuhan, no Corão original o meio era a mensagem. Ou, pelo menos, boa parte dela.

Mackintosh-Smith não deixa de destacar a importância dos árabes para a preservação do conhecimento clássico greco-romano, persa e hindu; de como, sob eles, avançou-se consideravelmente em áreas como matemática e astronomia; e de como os governantes árabes eram tolerantes com outras religiões, desde que os impostos fossem pagos em dia (ao contrário do que se pensa, não houve, por muito tempo, qualquer sanha conversora por parte dos árabes em relação aos povos conquistados: o que interessava mesmo, aos califas, era a pontualidade tributária daqueles).

A história contada em Arabs atravessa os séculos, passa pelo ataque às torres gêmeas, pela Guerra do Golfo e pela Primavera Árabe, até desembocar em nossos dias. E o que prevalece, no fim, é um tom melancólico e pessimista. Desunidos no começo, desunidos hoje, os árabes teimam em não superar suas fissuras atávicas, o que os impede de construir algo digno do que fizeram seus antepassados. Não são as antigas maravilhas literárias, científicas ou arquitetônicas que ecoam quando crepitam as metralhadoras sob a janela de Mackintosh-Smith no Iêmen, e sim os ferimentos jamais cicatrizados de brigas tribais mais velhas que o Profeta.

É ESCRITOR, AUTOR DE ‘POESIA CHINESA’ (EDITORA SESI-SP)

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