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Livro detalha consequências do aquecimento global

O jornalista americano David Wallace-Wells prevê 200 milhões de refugiados e 150 milhões de mortos até 2050 em decorrência das mudanças climáticas

Rodrigo Petronio*, Especial para o Estado

20 de julho de 2019 | 16h00

É muito pior do que você imagina. Com essa frase retumbante, David Wallace-Wells, jornalista de ciência da revista New York e do jornal The Guardian, especializado em aquecimento global, abre A Terra Inabitável: Uma História do Futuro, sua obra mais recente que a Companhia das Letras acaba de colocar no mercado brasileiro, em uma excelente tradução de Cássio de Arantes Leite. 

Em primeiro lugar, vale frisar que o autor não se considera um ambientalista. Descendente de judeus emigrados, passou a vida inteira em ambiente urbano, longe da natureza. A pesquisa sobre o aquecimento global começou a lhe revelar cenários bem mais desastrosos do que as versões correntes. Anos de investigação sobre o assunto revelaram algumas verdades inconvenientes. A obra é fruto de entrevistas com dezenas de especialistas e do cotejo de centenas de artigos científicos.

O termo efeito estufa surgiu em 1850, quando John Tyndall e Eunice Foote analisaram o primeiro pico industrial da América. O físico estadunidense Roger Revelle (1909-1991) foi o primeiro a anunciar o aquecimento global. James Hansen foi o primeiro a testemunhar o aquecimento global diante do Congresso dos EUA (1988). E Wallace Smith Broecker, ainda hoje em atividade, herdou-o e foi um dos divulgaores deste debate cuja importância cresceu de modo avassalador nas últimas duas décadas. 

O que é o aquecimento global? É um fenômeno de alteração do clima global comprovado cientificamente. Decorre do aumento da emissão de gases estufas, tais como o carbono e o metano, de origem humana ou não humana, que deterioram a camada de ozônio da atmosfera, responsável por filtrar os raios ultravioleta do sol e regular os ciclos de calor e frio nas diversas partes do planeta. 

Cascatas

O autor adverte: essa obra não é sobre a ciência do aquecimento global. É sobre as alterações radicais dos modos de vida no planeta que o ele deve produzir, a curto e médio prazos. O grande problema de disfunções sistêmicas da Terra é que elas são agentes multiplicadores. Não se trata apenas de uma elevação de temperatura, com problemas maiores ou menores. Trata-se de uma gama de fenômenos correlatos, alguns catastróficos. Para descrevê-las, Wallace-Wells usa a imagem da cascata.

Quais os principais efeitos-cascata? A obra prevê a migração de até 1 bilhão de pessoas até 2050, dentre os quais 200 milhões seriam refugiados. Nesse mesmo intervalo de tempo, cerca de 150 milhões de pessoas devem morrer, o equivalente a 25 Holocaustos. Um aquecimento de 11°C ou 12°C produziria a morte de metade da população do planeta. Um aumento de apenas 5°C, partes inteiras do globo ficariam incompatíveis com a vida humana. É pouco provável um aumento de 5°C a 6°C até 2100. Os relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, em inglês) preveem cerca de 4°C de elevação global.

Mais de dez mil pessoas morrem por dia em decorrência da poluição. Esta também pode estar na origem de doenças mentais em crianças. O dobro da taxa atual de carbono na atmosfera geraria uma queda da capacidade cognitiva geral da ordem de 21%. Atualmente 98% das cidades estão acima do limiar de segurança da OMS. Metade das espécies animais estará extinta até 2100, segundo o eminente zoólogo E. O. Wilson, criador da sociobiologia, que prevê a hipótese da Meia-Terra habitável. Outros autores lidam com a hipótese da Terra-Nenhuma. 

O aumento da emissão dos gases estufa é cem vezes maior do que em qualquer outro momento da história do sapiens. Os mamíferos são máquinas térmicas. Resfriar-se e se aquecer são os modos de ser dos organismos. Essas alterações não impactam apenas a vida em termos orgânicos. Produzem efeitos-cascata políticos, sociais, culturais, tais como crises hídricas e alimentares, violência, genocídios, distúrbios psíquicos, entre outros. Combates e guerras voltam a surgir no horizonte em decorrência do clima. 

Há problemas demográficos decorrentes do aquecimento, pois o limite de produtividade econômica e agrícola obedece a uma capacidade de carga populacional (Paul Ehrlich). Alguns autores propõem surtos de afogamentos: culturas inteiras transformadas em relíquias submersas (Jeff Goodell). Prevê-se também uma mudança do cinturão global do trigo, escassez e deslocamento da produtividade de produtos primários.

A elevação do nível dos oceanos deve extinguir boa parte das praias. Milhões de anos serão precisos para o quartzo e o feldspato formarem novas praias. Há também o efeito albedo (Peter Wadhams): quanto mais o gelo derrete nos polos, mais luz solar é absorvida, gerando mais efeito estufa. Também estamos na iminência da morte dos oceanos e do branqueamento dos corais. 

A corrida pela desextinção de espécies (Torill Kornfeld) não será feita apenas em laboratórios e nem gerará novos Jurassic Parks. Ela decorrerá do aquecimento. O capitalismo fóssil, um dos geradores do aquecimento, pode reativar camadas profundas de um passado pré-humano e meta-humano. Viveremos a ressurreição de pestes consideradas extintas. Vestígios da gripe de 1918 foram descobertos congelados e podem ressurgir. A Terra abriga cerca de 1 milhão de tipos de vírus ainda não catalogados. Uma diferença de 1°C a 2°C pode produzir alteração das bactérias e desses vírus, ativando-os e produzindo megamortes. 

Cognição

Se há tantas evidências, por que não ocorre uma mudança de atitude em relação a esses fenômenos? A resposta é simples: o Homo sapiens possui diversos vieses cognitivos de justificação. São mecanismos de adaptação e sobrevivência que se cristalizaram ao longo da evolução. A imagem definidora seria a seguinte: o sapiens atual observa os predadores como se estivesse em uma redoma de vidro. Acredita que esteja protegido, porque atingiu o topo da cadeia alimentar. Crê que esteja imune à natureza, porque a domesticou. E essa é a pior de todas as ilusões. 

O grande problema é que o oposto de cada um desses vieses cognitivos não é a superação da ilusão e a compreensão dos fatos. É a adesão a um viés cognitivo diferente. Estamos sempre vendo a realidade pelos prismas de um caleidoscópio. Isso impossibilita a interrupção da cascata dos autoenganos. O ponto de vista define a metáfora ou a narrativa que cada um tende a ressaltar. Isso dificulta o trabalho da ciência em expor as evidências como evidências. Os fatos rapidamente se convertem em metáforas. As metáforas passam a trabalhar a serviço do amálgama de sensações de cada indivíduo, não da sobrevivência coletiva. E assim se perde a dimensão real do desastre para o qual estamos caminhando. 

A era da solidão

Talvez estejamos adentrando não o Antropoceno, mas o Eremoceno: a Era da Solidão (Wilson). Humano e solidão talvez venham a se tornar sinônimos daqui pra frente. Há uma cosmológica teoria baseada no Princípio Antrópico: haveria uma necessidade e um plano do universo na geração da vida humana. Sempre se esquivou ou desprezou o Princípio Antrópico. Ora, aqui mesmo deveríamos buscar a origem do problema e talvez alguma solução. A excepcionalidade humana e a extinção progressiva de todas as formas de vida da Terra, cuja culminação talvez seja a extinção do sapiens, talvez não sejam um enigma ou uma charada a serem decifrados. 

Talvez sejam a consequência de uma concepção narcisista do universo. Essa concepção se baseia na narrativa antrópica segundo a qual a existência humana é uma fatalidade e uma necessidade no cosmos. Esse egocentrismo seria empoderador e, ao mesmo tempo, destrutivo. Como em uma fita de Möbius, a crença na inevitabilidade dos humanos talvez seja a grande produtora da crença na inextinguibilidade dos humanos. 

A crença de que os humanos são irreversivelmente essenciais ao universo produziu as condições de possibilidade da extinção desses mesmos humanos. Para falar com o filósofo italiano Giorgio Agamben, o problema da potência não é a potência. É a ignorância da fragilidade. Nos prismas desse caleidoscópio, entre a centralidade do humano excepcional e o humano que pode vir a desaparecer, podemos escolher qual narrativa nos compete. Mas não podemos escolher outro planeta. Por estranho que pareça, mais do que racional, esta escolha parece ser mesmo autoevidente.

*RODRIGO PETRONIO É ESCRITOR, FILÓSOFO, PROFESSOR TITULAR DA FAAP E DESENVOLVE PÓS-DOUTORADO NA PUC-SP

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