Alexandre Meneghini/Reuters
Alexandre Meneghini/Reuters

Livro inédito e reedições de Margaret Atwood chegam ao Brasil

Autora de 'O Conto da Aia' e 'Vulgo Grace' relança trilogia distópica e publica releitura de Shakespeare inédita no País

André Cáceres, O Estado de S.Paulo

27 Outubro 2018 | 16h00

Desde as estreias de The Handmaid’s Tale e Alias Grace, em 2017, a escritora canadense Margaret Atwood é um fenômeno. Legítima herdeira de veteranas como Ursula K. Le Guin (1929-2018), Octavia Butler (1947-2006) e Joanna Russ (1937-2011), ela se tornou uma referência para a ficção científica e especulativa feminista de autoras mais jovens, como Ann Leckie e Naomi Alderman. Impulsionada pelo sucesso, outros títulos de Atwood chegam agora às prateleiras, apresentando ao leitor brasileiro facetas inesperadas de sua obra para quem a conhece apenas por meio das adaptações audiovisuais.

Publicado originalmente em 2003, Oryx e Crake (ed. Rocco) dá início a uma trilogia ao lado de O Ano do Dilúvio (2009) e MadAddam (2013), que também serão lançados em breve no País. O romance acompanha um ermitão guiando um grupo de ingênuos seres humanos geneticamente modificados em um futuro pós-apocalíptico, alternando essa narrativa com flashbacks da vida do protagonista desde sua infância até os eventos que levaram o planeta à catástrofe. A autora atualiza o tema da manipulação de seres vivos e o debate ético em torno dele, algo explorado de forma mais primitiva em A Ilha do Doutor Moreau, clássico de H.G. Wells recentemente reeditado pela Via Leitura.

Assim como em O Conto da Aia, Atwood constrói uma trama distópica, mas em vez de direitos reprodutivos, feminismo e regimes autoritários, nessa obra ela medita a respeito dos perigos da engenharia genética, da internet e das mudanças climáticas. Temáticas mais atuais, impossível. Surpreende que o Oryx e Crake tenha sido escrito há mais de 15 anos, pois as questões levantadas por Atwood foram quase prescientes e ainda são de extrema relevância – desde o uso da “dark web” como ferramenta de tráfico de pessoas e pornografia infantil, passando pela crescente área da bioética sobre a manipulação de DNA e o fim da privacidade individual diante da vigilância corporativa.

Na época do lançamento original de Oryx e Crake, a internet engatinhava – o Silk Road, principal site do mercado negro da dark web, levaria oito anos para ser criado. A engenharia genética, que até hoje ainda não se desenvolveu plenamente, já havia sido tema de filmes como Gattaca (1997), mas estava longe de atrair atenção como hoje, com o potencial ressurgimento da eugenia. Já as mudanças climáticas estão nas pautas diplomáticas desde os anos 1970, mas ocupam espaço cada vez maior no noticiário, com urgência crescente. 

Tanto o ritmo narrativo quanto as temáticas abordadas na trilogia de Atwood lembram muito LoveStar, romance do escritor islandês Andri Snaer Magnason que foi publicado no Brasil pela primeira vez esse ano pela Morro Branco. Lançado originalmente um ano antes de Oryx e Crake, o livro ecoa as mesmas preocupações de Atwood em relação ao meio ambiente, às novas tecnologias, à vigilância imposta aos cidadãos pelos grandes conglomerados empresariais e à bioética.

Outro lançamento recente de Atwood é Semente de Bruxa (ed. Morro Branco), inédito em português, e diferente de qualquer obra da autora. Nesse romance, ela abre mão do elemento especulativo que caracteriza o grosso de sua bibliografia para fazer uma sóbria releitura da peça A Tempestade, de William Shakespeare, para os dias de hoje. O livro faz parte de um projeto da editora Penguin Random House, que pediu a diversos autores, como Howard Jacobson, Anne Tyler e Jo Nesbø, que recontassem livremente as obras do Bardo. 

Se os espectadores de The Handmaid’s Tale perceberão que Oryx e Crake ressoa a veia distópica de Atwood, os fãs da ficção histórica Alias Grace devem notar paralelos entre essa obra e Semente de Bruxa. Além de ficar em um registro realista, o livro se passa majoritariamente em uma penitenciária. O tema do encarceramento é caro à autora, tanto que sua tese sobre A Tempestade é que Shakespeare constrói uma teia de relações entre os personagens baseada na ideia de prisões físicas e emocionais. 

No livro, o excêntrico diretor teatral Felix Phillips perde sua esposa e filha – chamada Miranda, como a filha de Próspero na peça do Bardo –, e se refugia em seu trabalho preparando uma montagem vanguardista de A Tempestade. Contudo, motivações políticas fazem com que ele perca seu cargo no Festival de Teatro de Makeshiweg e acabe se exilando no interior do Canadá para conviver com o fantasma da filha – único elemento minimamente fantástico na obra, mas que quase nunca quebra a barreira da subjetividade do protagonista. 

Felix/Próspero, então, passa a trabalhar em um projeto educacional de uma cadeia e monta peças de Shakespeare com os presidiários. Anos depois, quando ele descobre que os figurões do governo – os responsáveis por sua decadência – pretendem assistir a uma apresentação dos detentos, o diretor prepara uma vingança contra seus algozes. Semente de Bruxa é sobre uma farsa encenada dentro de uma peça montada em uma situação que reflete A Tempestade num livro que é uma releitura da obra. As várias camadas metalinguísticas sobrepostas nessa ambiciosa estrutura narrativa são o ponto mais impressionante do livro.

Semente de Bruxa foi o último livro publicado pela autora antes da estreia das séries The Handmaid’s Tale e Alias Grace. Embora faça um evidente contraste em relação ao resto de sua obra, é uma boa porta de entrada para os leitores que a conhecem apenas pelas adaptações. Agora resta aos leitores aguardar o que Margaret Atwood pretende escrever depois de ter, enfim, virado um fenômeno.

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