Carlos Barria/Reuters
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Livro investiga qual é o papel da música na democracia

'A música como meio de expressão e prática coletiva permite,em alguns contextos, inventar formas específicas de representar e viver a democracia', afirma Esteban Buch, editor do livro, ao Estadão

João Marcos Coelho*, Especial para o Estadão

09 de outubro de 2021 | 15h00

Esteban Buch tinha 20 anos, em 1983, quando a Argentina voltou a ser uma democracia. A adolescência vivida em plena ditadura em sua Buenos Aires natal o levou a dedicar a vida ao estudo da música do ponto de vista social e, sobretudo, político. Isso o transformou num autor tão decisivo quanto outros estudiosos da crise por que passa a democracia no planeta, às voltas com a ascensão do populismo autoritário e os flertes, alguns escandalosamente escancarados, com a ditadura.

“A democracia está ameaçada em nível global, não há dúvida”, afirma Buch em entrevista exclusiva ao Aliás. “Trump e Bolsonaro foram e são pesadelos para a democracia, assim como a ultradireita em muitos países democráticos como a França, onde vivo, sem falar do crescente poderio global do regime chinês, ou tantas outras situações inquietantes. A violência de gênero e as discriminações raciais também são ofensas ao princípio de igualdade, sem o qual não há democracia. Para mim, é um motivo de angústia. Meus 20 anos coincidiram com a volta da democracia na Argentina, por isso toda a minha vida e o meu trabalho são norteados pela ideia de que esta é a base ética e o horizonte necessário da ação política e da criação artística”. 

Musicólogo, hoje radicado em Paris, Buch é diretor de estudos do Centro de Pesquisas sobre as Artes e a Linguagem da prestigiada Escola de Altos Estudos em Ciências Ciências Sociais. 

Todos os seus livros – e eles são muitos, e essenciais – dedicam-se ao estudo e pesquisa da música em relação à política nos séculos 20/21. Como A Nona de Beethoven – Uma História Política (1999) e Música. Ditadura. Resistência - A Orquestra de Paris em Buenos Aires (2016). Além dos livros autorais, Buch editou, ao lado de Igor Contreras Zubillaga e Manuel Deniz Silva, o volume coletivo Composing for the State – Music in Twentieth-Century Dicatorships (Compondo para o Estado – Música em Ditaduras do século 20, Routledge, 2016). Dez estudos enfocam músicas escritas por compositores especialmente para dez ditadores. Mimos de Shostakovich para Stalin; e também de Villa-Lobos para Getúlio Vargas, no 7 de setembro de 1943.

Buch acaba de publicar um livro coletivo em que ele e Robert Adlington (outro especialista no tema música & política) são os editores de Finding Democracy in Music, uma rica coletânea de nove ensaios que, como indica o título, procura pela democracia na música (Routledge,2021). E foca sobretudo no último século. Indo além de fazer música militante, ou seja, contribuir para causas políticas específicas, houve músicos que utilizaram princípios democráticos em sua prática. Por exemplo, o compositor pode, de modo “democrático”, dispor os materiais de uma obra. E mesmo adotar a prática democrática no ato da execução musical. Aqui o exemplo mais notório é o do jazz, em que cada músico tem a liberdade de criar seu solo improvisado, mas observando regras comuns, no caso do jazz tradicional. O free jazz, de improviso coletivo sem temas ou regras previamente combinadas, corresponderia aos espasmos anarquistas das revoluções, um domínio necessariamente transitório. Mas também se pode estabelecer relações democráticas com o público; e modos de disseminação e distribuição mais democráticos. Uma observação lateral: a democratização digital da música via serviços de streaming é hoje cruel realidade; de um lado, é o nirvana para o público, só falta combinar com os músicos como sobreviver com as ridículas remunerações. 

Diversificados, os ensaios exploram vários gêneros, incluindo a música sinfônica, o jazz, a vanguarda do pós-guerra, as performances online e as músicas populares contemporâneas.

Ampliando o escopo de modo certeiro, seu maior mérito não é apenas oferecer uma ampla investigação sobre as maneiras pelas quais a democracia pode ser encontrada na música. Além da aplicação do conceito de democracia ao fazer musical, há uma questão mais fundamental, que é a da ideia mesmo de democracia, um debate atualíssimo. De qual democracia cada um de nós fala? 

“Cada um pode ter sua visão de democracia”, esclarece Buch, “mas a democracia como sistema político e princípio moral supõe um consenso mínimo em torno da legitimidade da própria existência das diferenças e de como tratá-las coletivamente: a renúncia à violência, o reconhecimento da igualdade de pessoas, a deliberação racional”. 

A cena política internacional mudou radicalmente nos últimos sete anos, período que nos separa da gestação do livro em dois encontros internacionais, um em Paris em 2015, outro em 2017 em Huddersfield, na Inglaterra. Para usar um grotesco verbo na moda, precarizaram-se cada vez mais os valores democráticos, principalmente nos últimos três anos, metade deles com o planeta convivendo com o flagelo da pandemia. A democracia transformou-se como nunca antes em tema de debates públicos. “Especialistas em teoria política começaram a lamentar o declínio na participação política”, escrevem Buch e Adlington. “Ao menos do ponto de vista de uma cidade europeia cosmopolita, pode-se refletir com segurança sobre autoritarismo e ditadura como fenômenos aberrantes, exóticos e anacrônicos – percepção bastante reforçada pelos promissores (ainda que breves) sinais emitidos pela Primavera Árabe, poucos anos antes”.

Eles são incisivos e claros ao apontarem a eleição de Trump e o Brexit britânico como sintomas da aceleração das forças antidemocráticas nos anos recentes, afetando Europa, Estados Unidos, América Latina e outras regiões do planeta. “Putin, Salvini, Orban, Erdogan, Maduro e Bolsonaro , entre outros, contribuíram para a sensação de assistirmos ao renascimento de políticas de homens-fortes nas quais o voto é encarado como delegação para colocar em prática políticas que ameaçam os valores-chaves de igualdade e liberdade”. E arrematam focando no Brasil: “O caso de Bolsonaro é o mais preocupante, devido ao risco físico direto que seu governo representa para vários grupos, como LGBTQI e as minorias indígenas, assim como para regiões ecologicamente cruciais como a Amazônia”.

De modo salutar, os ensaios procuram fugir de utopias e detectar as lacunas que com frequência surgem entre a aspiração utópica – em si sempre louváveis e elogiáveis – e a realidade. Preferem interrogar as maneiras pelas quais a música pode ajudar a articular e moldar nossas vidas sociais e políticas. Utopias até podem – e devem – nos embalar, mas precisamos ter os pés bem fincados em terreno prático para ultrapassarmos o nível do sonho e começarmos a alterar a realidade que nos cerca. 

Não sei qual o próximo projeto editorial de Esteban Buch e Robert Adlington, mas seria razoável esperarmos um livro coletivo resultante de um encontro de pesquisadores dos cinco continentes examinando como músicos, compositores e instituições como as orquestras sinfônicas, por exemplo, se comportaram durante a pandemia. Como se legitimaram junto às populações dos países em que estão inseridas. 

Aí têm lugar certo iniciativas como a do maestro Gil Jardim, da Orquestra de Câmara da ECA-USP: em parceria com o poeta Bráulio Bessa e Chico César, eles produziram o audiovisual Inumeráveis, de 2020, chamando a atenção para o fato de que, àquela altura, setembro, os cerca de 140 mil mortos – hoje são quase 600 mil -- pelo coronavírus não são números, são pessoas, gente de carne e osso, com família, amigos, nossos semelhantes. Um documento impactante que pratica princípios democráticos por excelência, como a solidariedade, a denúncia, ouvir o outro (comportamento praticamente inexistente hoje em dia não só no Brasil, mas no mundo). Outras iniciativas-chaves aqui concebidas e concretizadas no último ano e meio merecem ser lembradas. 

Neste quesito, a Orquestra de Santo André, dirigida pelo maestro Abel Rocha, foi tão certeira quanto o trio Bráulio Bessa-Chico César-Gil Jardim. Em maio de 2020, quando a pandemia parecia uma dor sem fim, estreou Microestreias da Quarentena: oito obras foram encomendadas a jovens compositores brasileiros, pensadas para as redes sociais. Três meses depois, lançou Trilogia Trancafiada: três curta-metragens pensados para as redes sociais, entre 6 e 8 minutos cada, assinados por Luísa Almeida e realizados com a participação dos músicos da orquestra de Santo André: Ansiedade, Adaptação e Acolhimento. Conceito: expressar os sentimentos vividos pelos músicos, iguais aos que vivia naquele momento a população brasileira inteira desde março, provocados pelo súbito isolamento social.

“Não acredito que a música tenha em si uma afinidade particular com a democracia, nem com seu oposto”, diz Buch ao Aliás. “Mas em nosso livro tentamos explorar como a música como meio de expressão e prática coletiva permite, sim, em alguns contextos, inventar formas específicas de representar e viver a democracia.” 

CRÍTICO MUSICAL E AUTOR DE ‘PENSANDO AS MÚSICAS NO SÉCULO XXI’ (EDITORA PERSPECTIVA)

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