Yuri Kochetkov/EFE
Yuri Kochetkov/EFE

Livro narra 75 anos de guerra política entre os EUA e a Rússia

Tim Weiner guia o leitor por quase um século de desconfianças e maquinações entre Moscou e Washington

Timothy Naftali*, The Washington Post

31 de outubro de 2020 | 16h00

Em sua oportuna obra mais recente, The Folly and the Glory: America, Russia and Political Warfare 1945-2020, Tim Weiner nos guia em um ritmo intenso através de 75 anos de desconfianças e maquinações entre Moscou e Washington, preparando o contexto para a ofensiva de Vladimir Putin contra a nossa democracia. Veterano lavrador no campo da segurança nacional, Weiner nos oferece uma jornada bem elaborada e provocadora até a perigosa batalha da atual era.

Refletindo os atuais temores a respeito da mídia social e dos aliados externos de Moscou com o propósito de ampliar nossas divisões políticas, sociais e culturais internas, Weiner trata do papel central que a guerra política vem há muito desempenhando na disputa entre os Estados Unidos e a Rússia. Definida em 1948 como “a utilização de todos os meios ao comando de uma nação, muito próxima de uma guerra, para alcançar os seus fins nacionais”, a guerra  política foi a arma escolhida por ambos os lados que ajudou a manter a guerra fria e não mais quente. E Weiner é particularmente apto a trazer à luz e explicar o papel oculto de tudo isto.

Os Estados Unidos se engajaram na guerra política com tal finalidade desde os primórdios da república. Mas o de Truman tornou-se o primeiro governo americano a institucionalizar a prática, nos anos 40, entre as crescentes evidências das tentativas do líder soviético Joseph Stalin de dominar a Europa. Os soviéticos já estavam engajados à guerra política em todo o continente, ajudados pela presença do Exército Vermelho no Leste e pelos comunistas e os seus partidários, declarados e ocultos na Europa Ocidental. Em junho de 1948, o Conselho de Segurança Nacional emitiu uma diretriz que atribuía formalmente a responsabilidade por “operações secretas” em tempo de paz à Agência Central de Inteligência (CIA) recentemente criada, e autorizava a formação de uma unidade especial da CIA para dirigir estas operações.

Retomando um tema de sua história da CIA, vencedora do Prêmio Nacional do Livro, Legacy of Ashes, Weiner destaca a arrogância autodestrutiva que frequentemente acompanhou o uso desta arma. Contador de histórias particularmente dotado, ele traça retratos memoráveis dos personagens. George Kennan do Departamento de Estado, a primeira voz significativa em matéria de segurança nacional americana na Guerra Fria, provocou a adoção da guerra política pelo Conselho de Segurança Nacional. Em maio de 1948, “Kennan lançou um manifesto”, escreve Weiner, que intitulou A inauguração da guerra política. Era tão explosivo, que “parágrafos cruciais ... continuam top secret até hoje”.

Weiner, vencedor do Prêmio Pulitzer de reportagem nacional em 1988, apresenta um veredito contrastante sobre a implementação americana de artes obscuras na luta contra Moscou. Em seu relato, os esforços foram algumas vezes bem-sucedidos e em outras,desastrosos, resultando com frequência em uma série de consequências indesejadas. A narração crucial da cumplicidade americana na criação da cleptocracia de Joseph Mobutu no Congo é um lembrete de como as políticas podem ser bem-sucedidas em um plano e fracassar em outro. Respaldado pela CIA, Mobutu se tornou um anticomunista confiável, que em seguida explorou a sua posição para saquear o próprio país.

Outra ação oculta descrita em detalhes fantásticos é o papel americano e sua assistência ao papa João Paulo II e às forças da liberdade para minar o governo soviético na Polônia. Ronald Reagan se reuniu com o Papa em junho de 1982. “Ambos haviam sobrevivido a tentativas de assassinato no ano anterior, a seis semanas de distância um do outro”, escreve Weiner. “Reagan acreditava que havia algum vínculo místico entre eles, que haviam sido salvos da morte por um propósito divino”. Na ausência de um documento oficial sobre o encontro, Weiner cita Thomas P. Melady, que posteriormente se tornou embaixador americano junto à Santa Sé. “O presidente contou ao pontífice ter lido que o papa tinha afirmado que um dia a Europa Oriental seria libertada, e que a Europa Oriental se reuniria à Europa Ocidental. E o presidente Reagen perguntou: ‘Vossa Santidade, quando isto acontecerá?’ E o papa respondeu: ‘Enquanto nós vivermos’”. O presidente pulou da cadeira, e ... agarrou a mão do pontífice e exclamou: ‘Vamos trabalhar juntos’”. Cinco meses mais tarde, Reagan autorizou um programa secreto para a libertação da Polônia, a operação da CIA de US$ 20 milhões, denominada QR/HELPFUL, que previa a concessão ao movimento Solidariedade “capacidade de impressão e transmissão radiofônica”. No fim, foram os cidadãos da Polônia, liderados pelo Solidariedade, que derrotaram a repressão da União Soviética e os seus cúmplices, entretanto os Estados Unidos e o Vaticano colocaram o seu dedo pesado na balança.

Embora Weiner não deixe de levar em conta a realidade das ambições globais soviéticas ou a incompetência de Moscou na Guerra Fria, o tratamento que ele dá no livro à guerra política dos soviéticos carece da profundidade de percepção e análise que dá vida às seções americanas. Entretanto, isto muda quando Weiner entra na era Putin – a sua criatividade literária começa a fluir e o livro adquire uma potência inusitada. Nada do que Weiner afirma sobre o emprego da guerra política de Putin contra os Estados Unidos é novidade para os que acompanham o resultado das investigações desde 2016, ou para os leitores de outro recente e importante livro, “Rigged: America, Russia, and One Hundred Years of  Covert Electoral Interference”. Mas em geral, The Folly and the Glory é brilhante. Weiner nos coloca dentro do Kremlin revanchista, enfurecido pela perda do seu império e feliz por fazer os americanos pagarem por isto.

Weiner mostra Putin usando habilmente a guerra cibernética e da informação contra a Estônia, a Geórgia e a Ucrânia antes de se concentrar nos Estados Unidos. O candidato Trump foi um presente para Moscou. E também, as vulnerabilidades políticas da ex-secretária de Estado Hillary Clinton, que Putin desprezava há muito tempo por defender uma Ucrânia soberana. Com a vitória de Trump, afirma Weiner, “Putin excogitou a operação de guerra política mais audaciosa desde que os gregos colocaram um gigantesco cavalo de madeira nas portas de Troia”. E, uma vez na Casa Branca, negando persistentemente a própria existência de uma guerra política de Putin contra os Estados Unidos, “Trump se revelaria um ativo de valor inestimável para a guerra dos russos contra a democracia e o governo da lei”.

O livro nos deixa com uma interrogação preocupante: Por que os russos são mais bem-sucedidos na sua interferência nos nossos negócios agora do que em qualquer outro momento desde o alvorecer da Guerra Fria? Afinal, o Kremlin é uma sombra do que foi no passado. Nós não estamos enfrentando a ameaça existencial como aconteceu dos anos 50 até os anos 80. Em parte, a resposta está na maleabilidade sem precedentes da informação e na facilidade com que é possível criar uma falsa confiança na era das mídias sociais. Mas a resposta também nos envolve. A Guerra Fria ofereceu amplas provas de que o sucesso da guerra política explora as divisões sociais e os ressentimentos do seu alvo. Menos cegados pela ideologia, os novos russos certamente compreendem a nossa sociedade melhor do que os soviéticos. Mas não há como fugir do fato de que nós americanos somos tão vulneráveis à guerra psicológica quanto éramos então, e continuamos sendo desde 1948. O fenômeno Trump, que os russos promoveram, mas não criaram, surgiu de uma nação quebrada. Descobrir o que poderemos fazer a respeito desta vulnerabilidade é a questão mais importante em matéria de segurança nacional com que nos defrontamos hoje, quer Joe Biden vença ou não.

*Timothy Naftali, o diretor do programa de política pública dos cursos de formação da New York University, é um dos autores de Khrushchev’s Cold War? The Inside Story of an American Adversary e o autor de Blind Spot: The Secret History of American Counterterorrism.

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