St. Thomas University/Wikimedia Commons
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Livro narra a ambição do médico que queria transplantar corpos inteiros

Morto em 2010, Robert J. White chegou a conseguir um candidato para sua tentativa de transplantar a cabeça de um paciente para outro corpo, mas nunca teve a chance de realizar o feito

Gary Krist, Washington Post

12 de março de 2021 | 10h00

Em 23 de dezembro de 1954 uma equipe liderada por Joseph E. Murray, no Peter Bent Brigham Hospital, em Boston, realizou o primeiro transplante de órgão da história, procedimento que foi um sucesso. A cirurgia para a remoção de um rim do corpo de um paciente saudável e implantado no do seu irmão gêmeo doente, foi um marco nos anais da medicina moderna, uma façanha que na época pareceu ficção científica. Mas Robert J. White, um dos jovens médicos da equipe, passou a sonhar com uma conquista ainda mais ambiciosa, se perguntando porque deveria se contentar em substituir órgãos individuais quando, teoricamente, conseguiria substituir todos os órgãos de uma só vez, transplantando a cabeça de um paciente num corpo totalmente diferente. Esta ideia não era menos bizarra que a do transplante realizado em 1954, mas se tornou sua aspiração o resto da vida.

A busca de White foi tema de noticiários nacionais por diversas vezes durante sua longa carreira, mas no livro Mr. Humble and Dr. Butcher, Brandy Schillace dá à ideia de White o tratamento merecido. Acho que não será um spoiler revelar que White morreu em 2010 sem ter tido a chance de realizar o tão desejado transplante de cabeça - pelo menos em humanos. Mas chegou muito perto, chegando num determinado momento a encontrar um voluntário humano (um indivíduo quadriplégico com falência de órgãos) e um estabelecimento médico (da Rússia) flexível ou imprudente o suficiente para facilitar a cirurgia sem aprovação de um comitê de revisão. Na verdade, se não fosse pelo seu custo exorbitante, a Operação White (como o médico, sem nenhuma modéstia, chamava o procedimento) poderia realmente ter sido feito.

A ideia de transplantar órgãos humanos não era nova quando White apresentou sua versão nos anos 1950. Os cirurgiões na Europa já vinham realizando um trabalho sério no campo dos transplantes desde o século 19, aperfeiçoando técnicas para integrar nossos membros e órgãos nos corpos de vários animais em laboratório. Mas todos esses procedimentos acabaram fracassando, com o corpo dos receptores interpretando o objeto estranho como uma ameaça e criando um “agente destruidor” para eliminá-lo. Nos anos 1950, o problema de rejeição levou muitos a acharem que a cirurgia de transplante humano era algo impossível, que somente teria sucesso em circunstâncias muito especiais (como o procedimento feito por Murray em 1954 com o transplante de um rim, quando não se verificou uma rejeição porque os pacientes eram gêmeos geneticamente idênticos.

Apesar desse obstáculo contumaz, os cirurgiões continuaram suas experiências com transplantes, desencadeando uma espécie de competição similar à corrida espacial durante a Guerra Fria. Um fisiologista russo chamado Vladimir Demikhov que operava sem ter um MD ou um PhD, proporcionou aos soviéticos uma liderança inicial nessa corrida. Filmes que vazaram para o Ocidente em 1958 mostravam o fisiologista russo ostensivamente unindo um mastim e um cão muito menor para criar um animal composto com oito pernas e duas cabeças (Schillace sempre alerta para a esquisitice nauseabunda, mas fascinante, do seu material, observando jocosamente que este “quebra-cabeça canino” foi chamado de Cérbero, alusão ao monstruoso cão de três cabeças que guardava as portas de Hades, ou o mundo inferior).

Para não ser ultrapassado, White, que era médico do Cleveland Metropolitan General Hospital, começou a realizar experimentos igualmente macabros em primatas. Depois de aperfeiçoar os meios pelos quais o cérebro de um macaco podia ser congelado, reduzindo drasticamente sua necessidade de oxigênio, ele realizou cirurgias experimentais em que o cérebro de um animal era removido do seu corpo e ligado ao sistema circulatório de um segundo. Finalmente, em março de 1970, realizou uma real Operação White - um procedimento que durou 18 horas em que moveu uma cabeça inteira do macaco A para o corpo decapitado do macaco B. Os resultados foram promissores, embora grotescos: a criatura híbrida, paralisada do pescoço para baixo, viveu nove dias antes de ocorrer a rejeição.

Seria necessário o desenvolvimento de drogas imunodepressoras para resolver o problema da rejeição e tornar o transplante um procedimento quase rotineiro. Mas apesar de os obstáculos técnicos ao sonho de White terem sido transpostos, os impedimentos morais - no mínimo a crueldade de causar tanto sofrimento a um animal em nome da pesquisa médica - eram outro problema. White como católico praticante que acreditava que animais não humanos não possuíam alma, estava convencido de que seus fins justificavam os meios e que seus macacos de laboratório morriam pelo bem maior de salvar vidas humanas. Nem todos concordavam e durante as décadas de 1960, 70 e 80, ele se viu envolvido em debates de grande repercussão com pessoas como a jornalista italiana Oriana Fallaci e a ativista defensora dos direitos dos animais Ingrid Newkirk.

Ainda mais interessantes são os temas filosóficos levantados pelo trabalho de White, e o livro de Schillace fica mais fascinante quando aborda como ele resolveu, ou não, o problema. Mover um cérebro - e a consciência que faz parte dele - de um corpo para outro envolve questões fundamentais sobre nossa noção do self, a definição da morte e mesmo a ética da imortalidade. “Na verdade, é ‘aceitável’ extrair a cabeça de uma pessoa?” indaga Schillace.

White, que certa vez disse ser uma pessoa “totalmente despreocupada com as implicações do seu trabalho”, jamais teve dúvida de que elas existiam. Mas à medida que os avanços na tecnologia médica tornaram o transplante de cérebro cada vez mais possível, a questão se tornou mais premente. Como este livro espirituoso e prazenteiramente provocativo deixa claro, teremos de lidar com as implicações de uma Operação White em humanos muito mais cedo do que imaginamos. / Tradução de Terezinha Martino

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