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Livro narra a história da humanidade por meio do trigo, um grão fundamental

O cultivo de trigo ocupa mais área, no planeta, do que qualquer outro alimento, mas sua monocultura também vem provocando estrago ambiental

André Caramuru Aubert*, Especial para o Estadão

25 de março de 2021 | 10h00

De uns anos para cá, especialmente no mundo anglo-saxão, tem estado cada vez mais em evidência uma historiografia chamada de “ambiental” ou “ecológica.” Numa definição ligeira, pode-se dizer que se trata da inclusão de aspectos naturais, ou da relação entre as sociedades humanas com eles, no campo do estudo da história. Ainda que a historiografia tradicional muitas vezes levasse em conta fatores ambientais (pois não foi o “General Inverno” quem derrotou Napoleão na Rússia?), eles passaram, agora, a estar no centro das atenções. O que não quer dizer, muito pelo contrário, que os livros falem sempre do mesmo assunto ou sob o mesmo ângulo.

Um dos pioneiros nesse campo foi Alfred W. Crosby, com Columbian Exchange, de 1972, um livro recebido friamente quando foi lançado, mas que se tornaria um clássico nas décadas seguintes. Nele, o autor detalhava o enorme impacto ecológico, para os dois lados do Atlântico (com ênfase para o lado de cá) causado pela chegada dos europeus às Américas.

Alguns anos mais tarde, Crosby incorporaria o debate daquele primeiro livro a um outro, mais abrangente, com o título de Imperialismo Ecológico – A expansão biológica da Europa – 900 a 1900, (Cia das Letras, 2011). Sem o aspecto apocalíptico de Crosby, em 1983 o historiador Keith Thomas publicou O Homem e o Mundo Natural – mudanças de atitude em relação às plantas e aos animais – 1500-1800 (Cia das Letras. A tradução, talvez para atrair mais público por aqui, suprimiu o “na Inglaterra” do título original). Aqui, relata-se a gradual mudança de atitude da sociedade inglesa com relação ao meio ambiente: de despreocupadamente predadora no início da era moderna para genuinamente preocupada com a natureza (até mesmo abrindo espaço a um nascente vegetarianismo) em fins do século 18.

Uma abordagem diferente foi adotada por Geoffrey Parker, em Global Crisis – War, climate change & catastrophe in the Seveenth Century (Crise Mundial – Guerra, mudança climática e catástrofes no século dezessete). Nesse livro, a questão climática é vista sob o ângulo dos efeitos causados pela chamada “pequena idade do gelo,” do século XVI, que teria sido um fator decisivo para a conturbada história do período, influenciando até mesmo os eventos que levaram à expulsão dos holandeses do Nordeste brasileiro. E, no Brasil, Warren Dean foi pioneiro com o excepcional A ferro e fogo, de 1997 (Cia das Letras), no qual a Mata Atlântica (ou a destruição dela) era o personagem principal. Aliás, esse livro é tão esclarecedor, para a compreensão da nossa trágica e atávica relação com o meio ambiente, que deveria fazer parte do currículo obrigatório de todas as escolas do ensino médio do Brasil.

Numa linha mais voltada para os desastres ecológicos provocados pela ação humana, Clive Ponting, com seu Uma História Verde do Mundo, de 1991 (Civilização Brasileira), seguido por Jared Diamond com Armas, Germes e Aço (1997 e 2005, Ed. Record), estudaram como a atitude desastrosa das civilizações com a natureza tem causado, ao longo da história, inúmeras catástrofes ambientais, algumas delas com o potencial de até mesmo extinguir as sociedades que as causaram, como no evento mais conhecido de todos (mas longe de ser o único), o da Ilha de Páscoa. Nessa mesma toada, James C. Scott publicou, em 2017, Against the Grain (o título em inglês que, se traduzido como “Contra o Cereal”, perderia o duplo sentido do original, que significa também “contra o senso-comum”), no qual ele conta como a transição para a agricultura, no neolítico, gerou, para as primeiras sociedades urbanas de nossos antepassados, muito mais casos de fracassos (e extinções) do que de sucessos. Essas análises reverberaram bastante nos últimos anos, tanto que muito do que aparece nesses três livros acabou incorporado ao best-seller Sapiens, de Yuval Noah Harari.

Uma biografia do trigo

E agora o gênero acaba de ganhar mais um livro de história – ou, mais exatamente, uma biografia: Amber Waves: the extraordinary biography of wheat, from wild grass to world megacrop (Ondas cor de âmbar: a extraordinária biografia do trigo, de capim selvagem a mega cultivo global), de Catherine Zabinski.

Aqui, o personagem central não são pessoas, sociedades ou eventos catastróficos, e sim uma planta, o trigo. E, se você pensar que, nas sociedades modernas, é praticamente impossível se alimentar, bem ou mal, sem consumir trigo (pense em pão, pizza, macarrão, salgadinhos, bolos, tortas...), e que o cultivo de trigo ocupa mais área, no planeta, do que qualquer outro alimento, então é inegável que esse seja um personagem importante.

Talvez porque a autora, professora na universidade estadual de Montana, não seja historiadora, mas bióloga e ecologista, a narrativa navega tanto pelos campos da história quanto da química, biologia e agronomia. De fato, ainda que não seja extenso, o livro cobre uma ampla gama de temas e de tempos. Ele começa contando a pré-história do trigo, um tipo ordinário de capim há milhões de anos, e pela posterior domesticação dele por nossos antepassados, no Levante, há cerca treze mil anos. Até aqui, não há muita novidade em relação ao que já lemos, por exemplo, em Sapiens ou em Armas, Germes e Aço.

A leitura começa a ficar realmente interessante quando o livro entra no terreno das descrições das diferentes variedades de trigo e dos cruzamentos e melhoramentos genéticos. Zabinski chama a atenção para o fato de que, apesar das pessoas torcerem o nariz para as técnicas de engenharia genética de hoje, as mudanças que nossos antepassados fizeram nos últimos dez mil anos foram infinitamente maiores.

Um outro momento marcante é quando ela conta a história das pesquisas de Norman Borlaug, o agrônomo que multiplicou a produtividade do trigo, naquele que foi o principal gatilho para a Revolução Verde dos anos 60. Eu gostei especialmente o fato de ela ter resolvido uma antiga dúvida minha, que é a questão de um dos grandes vilões das dietas “naturais”, o glúten. Eu finalmente entendi porque essa proteína pode fazer tão mal para algumas pessoas, mas que ela também é alvo de um bocado de preconceito.

Zabinski não foge de polêmicas. Ela explica detalhadamente quais são os danos causados pelo regime da monocultura e do uso extensivo de fertilizantes e dos pesticidas. O estrago ecológico causado pela monocultura do trigo (e também do milho), ela conta, nas pradarias norte-americanas, tomadas dos indígenas alguns anos antes, e onde búfalos pastaram livremente por milhares de anos, foi gigantesco. Erroneamente, os colonos consideravam a pradaria como uma terra pobre, quando, apesar de não contar com florestas exuberantes, era, como o cerrado brasileiro, ecologicamente riquíssima (incidentalmente, eu estava lendo o livro quando o Estadão publicou uma matéria sobre como os pesquisadores brasileiros da Embrapa estavam, em busca da autossuficiência nacional, desenvolvendo uma variedade de trigo adequada ao cerrado, esse tão maltratado bioma, um eterno candidato a abrigar monoculturas).

E nesse ponto entra em cena um outro personagem interessante, o cientista Wes Jackson, que, em seu Land Institute (Instituto da Terra) está tentando reinventar o plantio do trigo. Ele argumenta que não existe monocultura que não destrua o solo, não prejudique o entorno e que possa abrir mão de pesticidas e fertilizantes. A ideia é criar variedades que possam ser cultivadas em regime de policultura, misturadas a outras plantas (e animais), de modo que a produção ocorra em um ecossistema equilibrado. Há ainda uma série de questões por resolver, mas os avanços já conseguidos pela equipe de Jackson são bastante promissores.

No fim das contas, cabe perguntar: sendo um dos principais ingredientes da alimentação nociva das fast-foods, portador do odiado glúten e um tradicional causador de desastres ecológicos, o trigo é bom? é ruim? Nem uma coisa, nem outra, responde Zabinski: o trigo é apenas uma planta. Que, com a ajuda do ser humano, deixou de ser um capim selvagem e, saindo das colinas no Oriente Médio há treze mil anos, se espalhou por literalmente todos os países do globo. Se causou estragos pelo caminho, o trigo, por outro lado, alimentou e alimenta bilhões de pessoas. Com a população mundial crescendo sem parar, não temos como abrir mão dele. Mas podemos, e devemos, aprender a usá-lo de um jeito mais inteligente do que temos feito até hoje.

*André Caramuru Aubert é escritor e historiador

Amber Waves – The extraordinary biography of wheat, from wild grass to world megacrop

Autora: Catherine Zabinski

Editora: The University of Chicago Press

246 páginas

Capa dura: R$ 140,04

E-book: R$ 133,04

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