Nick Lowndes/The Economist
Nick Lowndes/The Economist

Livro narra história das gírias e mapeia mudanças nos tabus sociais

'The Stores of Slang', do lexicógrafo Jonathon Green, avalia como as expressões idiomáticas refletem os pudores da sociedade

The Economist, O Estado de S.Paulo

28 Outubro 2017 | 16h00

No século 18, Samuel Johnson caracterizou seu ofício como o de um “inofensivo amanuense”. Apesar disso, não faltam lexicógrafos capazes de escrever textos interessantes, divertidos e apaixonados sobre o trabalho que realizam. Dois bons exemplos são Kory Stamper, editora dos dicionários Merriam-Webster e autora de Word by Word: The Secret Life of Dictionaries (“Palavra por Palavra: A Vida Secreta dos Dicionários”) e Jesse Sheidlower, que já foi editor do Oxford English Dictionary e em The F-Word apresenta vasta e deliciosa compilação dos mais variados usos do palavrão mais “foda” da língua inglesa: fuck.

Mas a lexicografia é, de fato, um trabalho paciente, demorado e, por vezes, maçante. Tentar encontrar aqui e acolá citações que exemplifiquem o que certo vocábulo raro significa ou, coisa que pode ser ainda mais árdua, revisar as definições intermináveis de certas palavras de mil e uma utilidades, que em dicionários parrudos chegam a se estender por páginas e páginas, não é para indivíduos de índole mais irrequieta.

Assim, são poucos os lexicógrafos que têm, a um só tempo, a felicidade de poder se dedicar a um trabalho prazeroso e o talento para escrever com inteligência e graça sobre seu ofício. Jonathon Green, mais respeitado cronista de gírias do mundo, é um deles. Sua obra-prima são os três volumes do Green’s Dictionary of Slang. Publicado pela primeira vez em 2010, o dicionário é continuamente atualizado em sua versão online — cuja consulta é, em grande medida, gratuita (os assinantes têm acesso a uma profusão de citações, bibliografia e opções avançadas de busca). Green também escreveu uma história das gírias, The Vulgar Tongue (“A Língua Vulgar”), e acaba de lançar The Stories of Slang (“As Histórias da Gíria”). Esse último volume tem um quê de "caderno de campo", como se diz no jargão antropológico. Mas é um caderno de campo esplendoroso.

Durante vários séculos, poucos lexicógrafos se deram o trabalho de registrar as gírias de seus vernáculos. Os primeiros dicionários se limitavam a oferecer definições de palavras difíceis. Depois, obras mais abrangentes passaram a apresentar definições para a maior parte das palavras de uso comum. O dicionário de Johnson incluía algumas gírias. Mas a grande maioria dos "inofensivos amanuenses" guardava distância do baixo calão. Conta-se uma história segundo a qual duas senhoras respeitáveis, as irmãs Digby e Brooke, certa feita parabenizaram Johnson por não incluir palavras “feias” em sua obra. Ao que Johnson respondeu: “Como assim? Quer dizer que as senhoras andam procurando palavras desse tipo?”. Registrada pela primeira vez em 1829, a história infelizmente não merece credulidade. Na época do dicionário de Johnson (1755), é pouco provável que os leitores esperassem encontrar palavras vulgares num volume erudito.

As pesquisas sobre gírias têm natureza especulativa e encontram uma série de dificuldades. Ignorado pelos primeiros dicionários, o calão era malvisto pelos léxicos elaborados posteriormente, em tempos mais puritanos. Mas algumas obras antigas sobre o jargão do submundo do crime oferecem a lexicógrafos como Green uma visão desse quinhão tão revelador, e em sua maior parte não escrito, da língua do passado. Um dicionário de 1676, por exemplo, apresenta rara lista de gírias criminosas, acompanhada do esclarecimento de que conhecer esse tipo de linguajar “pode garantir que a pessoa se livre de ter a garganta cortada ou (pelo menos) a carteira batida”. Outro volume chama a atenção do leitor para diferentes tipos de ladrão, entre os quais o blue pigeon flyer, que se fazia passar por encanador, vidraceiro e que tais para roubar o chumbo usado na vedação de telhados, o mace, que se fazia passar por homem rico para roubar relógios de trabalhadores, e até mesmo o queer rooster, agente infiltrado da polícia.

Os cronistas das gírias também estudam as mudanças por que passam os tabus ao longo do tempo. As peças de Shakespeare eram submetidas a censura por razões políticas, mas não, pelo menos num primeiro momento, pelo uso desbragado de gírias de conotação sexual. Green calcula que o dramaturgo tenha utilizado cerca de 500 gírias, das quais 277 jamais haviam sido registradas antes. Para se referir ao ato sexual, o velho bardo emprega os termos tick-tack (“tique-taque”), night work (“trabalho noturno”) e nibbling (“mordidinha”). No coito, seus personagens masculinos fazem uso do potato-finger (“dedo-batata”) ou kicky-wicky (algo como “sujeitinho animado”), e as femininas da Venus’s glove (“luva de Vênus”) ou buggle-bo (algo como “fantasminha”). As nádegas são fonte fértil de trocadilhos, de wind instrument (“instrumento de sopro”) a low countries (“países baixos”).

O sexo e os “miúdos humanos com os quais o fazemos” sempre foram fértil manancial de gírias, observa Green. Mas Stories of Slang explora também algumas fontes alternativas do linguajar informal, registrando gírias associadas à prática da medicina, à vida urbana, à alimentação e ao amor, entre outras. Do boxe saem termos como knowledge-box (“caixa de conhecimentos”) e top-loft (“sótão”) para designar a cabeça, e tripe-shop (“açougue de tripas”), em alusão à barriga. A atividade muitas vezes lúgubre de médicos e enfermeiras é outro rico filão, dando origem a frequent flyer (“passageiro frequente”), para designar uma pessoa que volta e meia aparece no pronto-socorro, justificadamente ou não, plumbers (“encanadores”), em referência aos urologistas, e watering the rose garden (“regar o roseiral”), usado em alusão à troca das bolsas de medicação intravenosa dos pacientes da ala geriátrica de um hospital.

As gírias do passado sempre parecem mais inteligentes e criativas do que as atuais. É que toda época olha com desprezo para os dois contingentes de indivíduos onde elas mais frequentemente brotam: o submundo e a juventude. A passagem do tempo e ampliação da perspectiva evidenciam como na realidade é fértil a imaginação desses grupos tão vilipendiados. Os amantes da língua deveriam agradecer aos que criam gírias e aos poucos que, como Green, têm como ofício abrir essa janela para a psique humana, em benefício de todos.

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