20th Century Fox
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Livro narra história dos horrores cometidos em nome da ciência

Busca pelo conhecimento nem sempre foi aliada ao respeito pela éticoa, como mostra livro de Sam Kean

Lucinda Robb*, Especial para The Washington Post

22 de julho de 2021 | 10h00

Confie na ciência. É um mantra que estamos ouvindo há um ano e meio e, para muitos, pode parecer natural confiar nas pessoas que vestem os aventais brancos de laboratório. Afinal, elas não dedicaram a própria vida à procura da verdade para o benefício da humanidade?

Quem sabe vocês pensarão de maneira diferente depois de ler o mais recente livro de Sam Kean, The Icepick Surgeon: Murder, Fraud, Sabotage, Piracy, and Other Dastardly Deeds Perpetrated in the Name of Science (O Cirurgião do Picador de Gelo: Assassinato, Frauge, Sabotagem, Pirataria e Outros Horrores Perpetrados em Nome da Ciência, em tradução livre). A acusação divertida, aprazível de se ler, que ele faz aos cientistas malcomportados é um lembrete oportuno de que nenhum campo, nenhum tema, por mais aparentemente altruísta que seja, está imune à corrupção.

Kean leva os seus leitores por uma cativante - às vezes horripilante - viagem histórica sobre as muitas maneiras pelas quais a busca pelo conhecimento pode dar errado. Organizado em uma ordem quase cronológica, cada capítulo foca em uma transgressão específica. Escritas com o sabor de um suspense típico dos livros para ler na praia, e com preocupação filosófica, as páginas explodem com uma riqueza de informações e detalhes suculentos, fundidos por uma arte de contar histórias digna de um virtuose.

Não há escassez de personagens sensacionais. O primeiro na galeria de patifes é William Dampier, um inglês que se tornou bucaneiro (a classe de piratas menos respeitável). Dampier escolheu esta carreira para atender ao seu insaciável interesse pela biologia, e as suas anotações de campo revelam um homem que se deixa facilmente distrair do saque de uma aldeia pelo simples prazer de encontrar papagaios coloridos. Naturalista e navegador famoso, a sua pesquisa preparou os alicerces das teorias de Charles Darwin e acrescentou mais de mil citações ao Dicionário de Inglês de Oxford. Ao longo de sua carreira, ele também roubou e matou muitas pessoas.

Talvez vocês tenham ouvido falar de Burke e Hare, os notórios profanadores de tumbas escoceses que assassinavam gente pobre e solitária a fim de fornecer cadáveres frescos ao anatomista Robert Knox. Mas você sabia que na corrida desenfreada para fornecer cadáveres frescos às universidades, gangues rivais lutariam pelos corpos nas execuções públicas de condenados à forca? Ou que uma recente revisão de casos descobriu que dez em 36 autópsias começaram em corpos cujos corações ainda batiam?

Basta lembrar do picador de gelo do cirurgião do título do livro. Walter Freeman fez para as lobotomias o que Henry Ford fazia para os automóveis - ele simplificou o processo e os tornou acessíveis às massas.  A sua “inovação” foi que, em vez de perfurar o topo da cabeça, ele simplesmente enfiava um picador de gelo no soquete do olho e o mexia para frente e para trás até cortar o sistema límbico que conecta o lobo frontal ao restante do cérebro. Era tão simples que a maioria das operações podia ser concluída em menos de 20 minutos, com o único resultado visível sendo dois olhos pretos. Infelizmente, a abordagem desorganizada de Freeman ao procedimento matou muitas pessoas.

Entretanto, como o “John Appleseed da psico-cirurgia”, ele viajou pelo país inteiro como um missionário evangélico, visitando asilos e apregoando as lobotomias como uma cura milagrosa. Em um dia qualquer, ele podia realizar meia dúzia de operações. Sendo, no íntimo, um apresentador de shows, frequentemente, ele divertia multidões fazendo duas lobotomias ao mesmo tempo, uma com a mão esquerda e a outra com a direita (era ambidestro).

Às vezes, as vitimas ocupavam o centro na história de Kean. Na tentativa de descobrir os melhores métodos para os interrogatórios, o professor de Harvard, Henry Murray, estabeleceu um experimento psicológico deliberadamente cruel infligindo abusos verbais brutais aos seus voluntários. Um estudante, um jovem gênio que aos 17 anos precisou da permissão dos pais para participar do estudo, suportou mais de 200 horas de um selvagem tratamento depreciativo desnecessário. O nome do jovem era Theodore Kaczynski e ele se tornou um terrorista conhecido como Unabomber.

Os médicos da Alemanha foram alguns dos primeiros profissionais a entrar no Partido Nazista, e o fizeram em grandes números. Durante a guerra, eles realizaram incontáveis experimentos extremamente antiéticos, o que resultou em conhecimentos médicos problemáticos, mas valiosos. Poderemos justificar a utilização do fruto desta árvore venenosa? Antes que vocês respondam, Kean os desafia a imaginar que uma pessoa amada ficou presa embaixo do gelo. Vocês iriam querer conhecer o melhor tratamento para a hipotermia - mesmo que tivesse sido descoberto por cientistas nazistas? Mesmo que aqueles que participaram da pesquisa a contragosto tenham implorado pela morte no final? É uma ideia profundamente desconfortável.

Dito isto, não há tantos nazistas neste livro quanto, talvez, você esperaria. Propositalmente, Kean não fala de monstros como Joseph Mengele, porque quando nos comparamos com os extremos, tendemos a nos isentar da responsabilidade. Ele quer evitar a armadilha do pensamento psicológico: “Nós não somos tão maus como os nazistas, portanto devemos ser legais”.

Ao contar a história de Why Good Scientists Do Bad Things (Por que bons cientistas fazem coisas ruins), Kean toma o cuidado de destacar as circunstâncias atenuantes e, quando aparecem, atos humanitários ao longo da história. Deixando de lado os nazistas, os seus cientistas não são demônios de histórias em quadrinhos; eles caem em desgraça buscando o conhecimento até onde os fins supostamente justificam os meios. Ele quer que nos imaginemos pensando como eles pensavam para, caso a gente chegue ao mesmo ponto perigoso, poder aprender com os erros do passado.

Às vezes, com uma resenha de um livro ou o trailer de um filme, a preocupação é entregar demais as partes mais interessantes, deixando pouco para o leitor ou espectador descobrir depois. Não há nenhum medo de que isto aconteça aqui - porque há muitas coisas fascinantes acontecendo. E, por favor, leiam as notas de rodapé de Kean! Elas são chocantes e repletas de fatos intrigantes, como as estratégias que se revelaram mais eficientes para fazer um criminoso confessar (atenção: sem tortura). Elas também contêm os links com o podcast de Kean, caso queiram mergulhar ainda mais fundo em algumas das histórias. Os aspirantes a roteiristas deveriam vasculhar o seu apêndice do livro sobre uma série de crimes científicos futuristas e imaginários - por enquanto.

Na conclusão, Kean afirma que a ciência antiética deve ser contestada não apenas porque é moralmente repugnante, mas também porque é uma ciência desleixada, barata, que não passa de pseudociência.

Como pausa refrescante, ele propõe medidas específicas e explica exatamente por que deveriam funcionar. As diretrizes do Código de Nuremberg para os experimentos humanos, ele nos lembra, foram criadas por uma razão, e ainda são eficientes desde que cuidemos em segui-las. O melhor antídoto é manter-se alerta.

Kean começa e acaba com uma citação de Albert Einstein: “As pessoas em geral, afirmam que é o intelecto que faz o grande cientista. Errado: é o caráter.” É uma observação que reverbera plenamente até a última página. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

*Lucinda Robb trabalhou 15 anos para a Teaching Company e é coautora com Rebecca Boggs Roberts do livro para jovens-adultos “The Suffragist Playbook: Your Guide to Changing the World”.

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