Leonhard Foeger/Reuters
Leonhard Foeger/Reuters

Livro narra vida de artista morta em Auschwitz

David Foenkinos usa de prosa leve para contar a trajetória dramática de Charlotte Salomon

Marcos Guterman, O Estado de S. Paulo

18 Fevereiro 2017 | 16h00

David Foenkinos é um jovem escritor francês que vem arrebatando importantes prêmios há alguns anos, teve boa parte de sua obra publicada em vários países, inclusive no Brasil, e se notabilizou por sua elegância bem-humorada para retratar conflitos românticos – como em sua obra mais conhecida, A Delicadeza, transformada em filme que ele mesmo codirigiu em 2012. Um autor com esse perfil poderia se recolher confortavelmente ao modelo que o colocou no rumo da consagração, mas eis que Foenkinos descobriu a obra de Charlotte Salomon e, desse encontro fortuito, ocorrido numa exposição em Berlim, surgiu a obsessão do escritor em retratar essa extraordinária pintora judia alemã que foi morta em Auschwitz em 1943, aos 26 anos e grávida de cinco meses. Um risco e tanto.

Decerto consciente de que adentrava um terreno de certa forma proibido para os que fazem literatura leve ou mesmo poesia, especialmente aqueles que não viveram o horror do Holocausto, Foenkinos decidiu ignorar as formas tradicionais de narrar aqueles terríveis fatos e recorreu ao lirismo de uma prosa construída por frases que soam como versos.

Assim, Charlotte, o delicado romance biográfico que Foenkinos dedicou a sua heroína e que está sendo lançado agora no Brasil, pode ser lido como um sonho, cujo final trágico, já conhecido do leitor antes mesmo da primeira página, não encerra a história que o autor tentou reviver. Pois Charlotte Salomon sobrevive em sua obra, isto é, nas mais de mil pinturas que ela criou febrilmente ao longo de meros dois anos, provavelmente já ciente de que os nazistas a pegariam. “É toda a minha vida”, disse Charlotte ao confiar suas pinturas a um amigo antes que fosse tarde demais.

A obra expressionista de Charlotte Salomon, que remete a Chagall e Modigliani e que só foi descoberta nos anos 1970, deveria servir ela mesma como uma autobiografia, cujo título, dado pela pintora, é Vida? Ou Teatro? Espécie de diário de Charlotte, o trabalho funciona como o libreto de uma opereta, em que a funesta história de sua família – o suicídio parecia perseguir as mulheres da casa – se mistura com sua imensa determinação para viver, nem que fosse como em um teatro.

Foenkinos tentou capturar esse espírito. Seu livro não se dedica a historiar o nazismo – e nas poucas vezes em que se arrisca nessa seara, o resultado é apenas superficial, para não dizer infantil; tampouco o autor se propõe a avaliar o valor cultural e estético da obra de Charlotte para além da mera observação de suas pinturas, que mal resiste aos clichês. Seu livro é, na verdade, sobre a compulsão – tanto a de Charlotte para preservar sua memória, por meio da pintura, como a do próprio Foenkinos, para tentar descrever sua tragédia.

Assim, mesmo que entre as intenções de Foenkinos estivesse reconstituir fielmente a vida de Charlotte, o melhor resultado do livro não está na reprodução da trajetória dramática da personagem – pois esta já se encontra na autobiografia da pintora, e dificilmente um jovem escritor francês de romances leves do século 21 poderia contá-la melhor do que a própria Charlotte, que viveu na carne a grande tragédia do século passado e que muitos consideram impossível de narrar. 

O que torna o livro de Foenkinos forte é o modo pelo qual, por meio de sentenças que se parecem com pensamentos inacabados, sempre a sugerir muito mais do que a dizer, o autor imprime a urgência da vida de Charlotte. Ela vai morrer a qualquer momento, pois esse é seu destino, mas a artista que Foenkinos apresenta anseia por ser lembrada. “Para sobreviver, deveria pintar sua história”, escreve o autor. 

Ao reconstituir seus passos e suas pinceladas, ao visitar os lugares por onde ela passou, ao imaginar como Charlotte se entregou a seu grande amor sem futuro e à sua arte, profundamente solitária, em meio à aflição da guerra que a tudo destrói, é como se Foenkinos também quisesse salvá-la, de alguma maneira, por meio de sua própria paixão.

Charlotte

Autor: David Foenkinos

Tradução: Maria Alice A. de Sampaio Doria

Editora: Bertrand Brasil

240 páginas

R$ 44,90

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