MARKUS C. HUREK/DP
MARKUS C. HUREK/DP

Livro narra vidas de Walter Benjamin, Wittgenstein, Heidegger e Cassirer

'Tempo de Mágicos', de Wolfram Eilenberger, tem o mérito de condensar teorias complexas para leigos em filosofia

Paulo Nogueira*, Especial para o Estado

10 de agosto de 2019 | 16h00

O grande Henry Adams resmungou um belo dia: “A filosofia consiste em respostas ininteligíveis para problemas insolúveis.” Imaginem quando são quatro pensadores filosofando ao mesmo tempo – e em alemão. Ainda por cima, um deles é Martin Heidegger, de quem alguém disse: “Ele é tão denso e obscuro que é intraduzível – mesmo em alemão.” 

Pois um dos maiores méritos de Tempo de Mágicos, de Wolfram Eilenberger, é deslindar a vida e as teorias de Heidegger, Ernst Cassirer, Ludwig Wittgenstein e Walter Benjamin exigindo esforço do leitor – mas sem que este feche o livro com cãibras no cérebro. 

A obra vai de 1919 a 1929, com uma cronologia não retilínea. O primeiro no palco desta micro-história da filosofia (palavra cunhada por Pitágoras) contemporânea é Wittgenstein (W). W virou mito urbano ainda em vida. Tanto que, em janeiro de 1929, John Maynard Keynes – um dos mais proeminentes economistas do século 20 – comentou: “Deus chegou a Cambridge – encontrei-o no trem das cinco e quinze.”

W queria lecionar em Cambridge, mas precisava do grau de doutor. Mesmo naquele rarefeito Olimpo a deferência por ele era tanto que brotou um ardil: W apresentaria seu Tractatus Logico-Philosophicus como tese de doutoramento – mera formalidade. Ele terminara o clássico livro quando prisioneiro dos italianos, na 1.ª Guerra Mundial. Com sua proverbial modéstia, pigarreou: “Bem, resolvi todos os problemas filosóficos.” Meses depois, herdeiro de uma das famílias mais ricas da Europa, ele doou toda a sua fortuna. 

Apesar dos rapapés, a defesa do doutoramento implicava um ritual. Na banca pontificavam G. E. Moore, um dos mais badalados filósofos da época, e Bertrand Russell (o próprio). W grunhiu: “Não se preocupem, sei que vocês nunca vão entender bulhufas mesmo.” Finda a encenação, Moore relatou: “A tese do sr. Wittgenstein é obra de gênio, digna de um doutor em filosofia”. E W rosnou: “Moore é um maravilhoso exemplo de quão longe pode chegar uma pessoa sem inteligência nenhuma.” 

E o que postula o icônico Tractatus? W tenta fixar as condições lógicas que o pensamento e a linguagem devem atender a fim de representar o mundo. É uma ascese retórica, uma super-navalha de Occam: “Minhas proposições elucidam desta maneira: quem me entende acaba por reconhecê-las como contrassensos, após ter escalado através delas – por elas – para além delas. (Deve, por assim dizer, jogar fora a escada após ter subido por ela.)”

W passou a vida jururu. Gay enrustido, só teve um caso, com o inglês David Pinsent. Quando o rapaz morreu num acidente aéreo em 1918, W. quase cometeu suicídio (como fizeram nada menos que três dos seus irmãos). Nunca deixou de ser irascível: em 1946 (isto Eilenberger não conta, mas conto eu), durante uma divergência teórica em Cambridge, W empunhou um atiçador de lareira (de ferro) e por um triz não rachou a cabeça do ilustre filósofo Karl Popper (há uma obra específica sobre o arranca-rabo).

Enquanto isso, na cidade suíça de Davos (hoje sede da reunião anual do Fórum Econômico Mundial e cenário de A Montanha Mágica, de Thomas Mann), Heidegger (H) e Cassirer (C) esgrimiam seus axiomas. Em 1927, H publicou sua opus magnum, O Ser e o Tempo, lacrando o conceito de “Dasein” – o ser desafiado pelo mundo. H diz que a maior parte dos entes vive em piloto automático, empurrando a vida com a barriga, escamoteando a “autenticidade” (escolhas conscientes). 

Daí a formulação célebre sobre o grande pecado da filosofia: “O esquecimento do ser”. Um enunciado de W também se aplica a H: “Qual o objetivo da filosofia? Mostrar à mosca a saída da redoma.” Depois de encarar O Ser e o Tempo, somos obrigados a admitir que o existencialismo de Sartre, apesar dos aforismos fofos (“Estamos condenados a ser livres”) não passa de um epigonismo.

Não obstante seu estilo abstruso, a vida mundana de H foi mais picante que a de W. Permaneceu casado com Elfriede Petri quase sessenta anos – mas ambos pularam o muro. Ela teve um filho extraconjugal, que o marido adotou. Das infidelidades de H a principal foi com uma aluna de 18 anos (ele tinha 37): Hannah Arendt. A primeira vez que transaram foi em plena sala do professor na Universidade de Marburg. Depois, H escreveu-lhe: “Nunca serei capaz de chamá-la de ‘minha’, mas você será parte da minha vida.” Fala sério, seu Martin!

O mais fosco dos quatro pensadores é Ernst Cassirer, talvez por ser o mais acadêmico, no sentido institucional – e pela vida privada recatada. Mas foi o único dos quatro a apoiar a República de Weimar (um baita mérito, como se viu depois), e as suas teorias sobre as formas simbólicas continuam bombando. 

Já Walter Benjamin foi o contrário da placidez acadêmica – embora tenha salivado por uma docência universitária, que nunca obteve, devido a heterodoxia das suas obras. Passou a vida na sofrência e na pindaíba: por algum tempo, sua única fonte concreta de renda eram as análises grafológicas (como diz Eilenberger: “sua versão atual seria consultor de feng shui”). As teorias de Benjamin (B), que abrangiam a linguagem e a estética, partiam sempre da literatura. Traduziu partes de Em Busca de O Tempo Perdido, de Marcel Proust. Foi amigo de Bertold Brecht (há uma foto famosa dos dois jogando xadrez), apresentados por Asja Lascis, uma revolucionária letã por quem B arrastou um bonde (tanto que a seguiu até a União Soviética). 

Tempo de Mágicos é por tabela uma obra sobre cidades emblemáticas do início do século 20. A Viena de Mahler, Musil, Karl Kraus, Klimt, Freud. A Paris da Geração Perdida. A existência de Benjamin foi itinerante: considerou emigrar para a Palestina (como seu parça Gerhard Scholem) e para os EUA (mas não sabia um ai de inglês). 

E morrerá em trânsito, fugindo para a Espanha da França ocupada pelos nazistas. Quando os guardas espanhóis lhe recusam a passagem, Benjamin se suicida, aos 48 anos. A última manifestação do seu indefectível pé-frio: no dia seguinte, a fronteira é reaberta e a galera que estava com ele dá no pé alegremente. Com seu método transdisciplinar, B foi um pioneiro – acabou entronizado santo padroeiro da influente Escola de Frankfurt (de Adorno, Horkheimer, Habermas, etc). 

Moral da história: embora esses labirintos conceituais sejam mais densos que um buraco negro, Eilenberger é um eficaz GPS humano. Única perplexidade: nem um pio sobre a adesão de Heidegger ao nazismo. Sim, ela fica de fora do âmbito cronológico da obra, mas é impactante demais para ser ignorada. Sim, H não foi um ideólogo nazista como Alfred Rosenberg, mas ingressou no partido em 1933 e continuou membro até o fim da 2.ª Guerra Mundial. Sim, pensadores judeus como Hanna Arendt ou Jacques Derrida “perdoaram” o filósofo, mas a publicação dos Cadernos Negros (um diário que H reteve até morrer), em 2014, atestou que o nazismo dele era mais que um acidente de percurso. No caso de Arendt, talvez seja o que disse Elzebieta Ettinger, autora de Hanna/Martin: “Ninguém que saiba sobre amor e paixão irá considerar incomum o perdão dela. O amor é irracional. Não há nada que possamos fazer em relação a isso.”

Enfim: mais do que o epigrama de Henry Adams, Tempo dos Mágicos comprova a sacada de Hamlet para Horácio: “Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia” – e, atualizemos o Bardo, as redes sociais donas da verdade. 

*PAULO NOGUEIRA É AUTOR DE ‘O AMOR É UM LUGAR COMUM’ (INTERMEIOS)

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