Acervo pessoal
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Livro oferece nova visão do ensaio 'Raízes do Brasil', de Sergio Buarque de Holanda

Sem ter alcançado influência acadêmica de 'Formação do Brasil Contemporâneo' ou cultural de 'Casa-Grande & Senzala', ensaio é talvez o livro que maior atração tem exercido sobre aqueles que se dedicam ao estudo do país

André Jobim Martins*, Especial para o Estadão

03 de julho de 2021 | 05h00

Num famoso prefácio a Raízes do Brasil escrito em 1967, Antonio Candido elegeu Sergio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre e Caio Prado Jr. como os ensaístas que formaram a ideia de Brasil de sua geração. Curiosamente, sem ter alcançado a mesma influência acadêmica de Formação do Brasil Contemporâneo, ou a cultural de Casa-Grande & Senzala, o ensaio de Sergio Buarque é talvez o livro que maior atração tem exercido sobre aqueles que se dedicam ao estudo da historiografia e do pensamento social brasileiros. Nos últimos dez anos, vem surgindo um número crescente de publicações exclusivamente dedicadas a Raízes do Brasil. Algumas delas, como o belo livro de João Kennedy Eugênio, Um Ritmo Espontâneo (Ed. UFPI, 2011), e um importante artigo de Leopoldo Waizbort têm combatido certas ideias correntes sobre o livro que Antonio Candido denominara um “clássico de nascença” radicalmente democrático, mostrando a presença de ideias organicistas (no caso de Eugênio), conservadoras e antidemocráticas (no caso de Waizbort e outros) na primeira edição do livro, que seria consideravelmente reelaborado em versões posteriores.

É nesta altura que Pedro Meira Monteiro nos oferece uma segunda edição daquele que foi o primeiro livro dedicado a Raízes, A Queda do Aventureiro (originalmente publicado em 1999), pela Relicário Edições. O livro de Monteiro pertence à linhagem de comentários que identifica em Raízes uma coincidência entre política progressista, vanguardismo estético e referenciais teóricos da mais moderna sociologia (com destaque para Max Weber). Nesta edição revista e ampliada, com nova introdução do autor, prefácio da socióloga Mariana Chaguri e três substanciais ensaios mais recentes, o autor não abordou sistematicamente interpretações que contrariam a sua – Monteiro responde rapidamente a algumas delas em outro livro sobre Sergio Buarque, Signo e Desterro e nos promete, na abertura da nova edição, uma resposta às investidas de Jessé Souza contra Raízes do Brasil, que seria, na visão do sociólogo e ex-presidente do Ipea, o mito fundador da ideologia das classes dominantes brasileiras, responsável pelo escamoteamento da desigualdade social por meio de uma aplicação fraudulenta do conceito weberiano de “patrimonialismo”. Independentemente da eventual disposição do autor em se engajar nessas polêmicas mais recentes, o certo é que A Queda do Aventureiro segue incontornável para quem queira compreender Raízes do Brasil, bem como, de modo mais geral, para o estudo do modernismo brasileiro (nesse sentido, os três ensaios incorporados à nova edição são de especial interesse).

Um primeiro elemento que destaca o livro é a demonstração detalhada da importância de certos marcos teóricos na urdidura do clássico de Sergio Buarque. Trata-se aqui não somente do apurado cotejo do ensaio brasileiro com textos metodológicos de Max Weber, que dá plausibilidade à hipótese de uma incorporação buarquiana dos “tipos ideais” do sociólogo alemão nas categorias estruturantes de Raízes do Brasil – como trabalho, aventura e cordialidade –, mas também da original investigação em torno de certa sociologia norte-americana (em especial a análise de W. Thomas e F. Znaniecki sobre a adaptação de emigrantes poloneses de origem rural às cidades dos EUA) de importância subvalorizada na fortuna crítica de Sergio Buarque, que tende a se concentrar nas referências alemãs (posteriormente, Monteiro avançou na investigação da influência de escritores hispano-americanos sobre Raízes, outra frente pouco frequentada nas interpretações da obra buarquiana, de que temos uma amostra em um dos apêndices à nova edição). A despeito da eventual correção de trabalhos mais recentes que identificaram a centralidade para a argumentação de Raízes das ideias vitalistas de Nietzsche, Ludwig Klages e Oswald Spengler, a reconstrução por Monteiro do weberianismo do livro segue amplamente fundamentada. O autor também não deixa de notar a importância de Hegel na construção do livro – tema que ainda pode ser aprofundado – o que atesta, para além de qualquer dúvida mais específica, o desconcertante ecletismo teórico do primeiro livro de Sergio Buarque.

A principal contribuição de A queda do aventureiro está, porém, num elemento mais sutil, que confere ao livro a marca das grandes leituras. Raízes do Brasil é um livro ao mesmo tempo atraente e difícil por exigir, para a sua boa compreensão, uma sensibilidade aguçada aos aspectos formais de sua narrativa: a linguagem, as metáforas e, ainda mais, o ritmo do livro são o que ele tem de mais instigante. Atento ao imaginário musical que perpassa o livro (“ritmo”, “compasso”, “harmonia”, “coro” e “contraponto” integram o vocabulário de Raízes), Pedro Meira Monteiro identifica na “aventura” e na “cordialidade” as duas linhas principais do andamento do ensaio, e nota como a formação brasileira é ali representada como uma “invenção a duas vozes”. Assim, como na música, talvez o mais importante em Raízes do Brasil não seja tanto o conteúdo de cada um desses tipos, mas aquilo que se produz em meio à sua combinação. O traço trágico está na desarmonia entre essas duas vozes e outro complexo sonoro, o da modernidade capitalista. Seria possível vislumbrar, em Nossa Revolução, o capítulo final de Raízes, as primeiras notas de uma terceira voz, essa genuinamente americana e sem conexão direta com as supostas “raízes” ibéricas de nossa cultura, mas Sergio Buarque opta ali por uma postura demasiado reticente para que cheguemos a compreendê-la.

À diferença do que fez Sergio Buarque ao reeditar Raízes do Brasil em 1948, o autor de A Queda do Aventureiro não alterou significativamente o texto principal, para além da incorporação de boa parte do material originalmente apresentado em notas ao corpo do texto, o que tornou a experiência de leitura mais fluida. Há, por outro lado, os três ensaios apensos ao final do livro, que enriquecem o painel anteriormente traçado. Um, em coautoria com Lilia Schwarcz, trata da breve mas complexa relação entre Sergio Buarque e Lima Barreto, surpreendendo certa reverberação da crítica do escritor carioca à Primeira República brasileira em Raízes – para os autores, Lima exerceria ascendência sobre o estratégico ataque de Sergio Buarque ao “bovarismo” do período. Outro apêndice instigante procura esmiuçar a indisfarçada aversão de intelectuais ligados ao modernismo de 1922, como Sergio Buarque e Mário de Andrade, a Machado de Assis. Finalmente, um texto originalmente publicado como estudo crítico em recente edição argentina de Raízes do Brasil realiza uma arqueologia das raízes hispano-americanas do “homem cordial”, expressão que Sérgio extraíra de um texto de seu amigo Ribeiro Couto publicado  numa revista do então embaixador mexicano no Brasil, Alfonso Reyes. À medida que nos aproximamos do centenário da Semana de 22 e aparecem necessárias revisões críticas sobre o modernismo paulista e seus protagonistas, o livro de Monteiro chega em ótima hora, com valiosos subsídios ao debate.

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