José Luís da Conceição/Estadão
José Luís da Conceição/Estadão

Livro póstumo de Oliver Sacks deixa mensagem de esperança à humanidade

'Tudo em seu Lugar' reúne artigos inéditos, memórias de infância e relatos clínicos do neurologista morto em 2015

André Cáceres, O Estado de S.Paulo

16 de maio de 2020 | 16h00

“A ciência está longe de ser fria e calculista, como muitos imaginam, e é impregnada de paixão, ânsia e fascínio”, escreve o neurologista inglês Oliver Sacks (1933-2015) ao final de um dos ensaios reunidos no livro Tudo em seu Lugar, antologia póstuma que a Companhia das Letras publica no Brasil. Conhecido por seus relatos clínicos de pacientes com problemas neurológicos raros, Sacks sempre foi a voz da sensibilidade em uma esfera permeada de razão em estado puro, o que faz de suas obras leituras ideais para a pandemia de covid-19, em que ciência e anti-intelectualismo se colidem de maneira tão evidente.

Em Tudo em Seu Lugar, que compila alguns artigos inéditos e outros publicados na imprensa americana entre 1987 e 2015, o cientista não apenas relata casos peculiares que presenciou, tal qual fez em best-sellers como Tempo de Despertar (1973, filmado em 1991 com Robin Williams e Robert De Niro), mas entrelaça de modo íntimo sua memória pessoal à natureza humana da ciência. É adequado que o terço inicial do livro, que contém textos sobre sua infância e a paixão precoce pelo conhecimento, seja intitulado Primeiros Amores.

Nessa seção idílica da coletânea, ele se recorda de quando se escondeu na galeria de invertebrados fósseis do Museu de História Natural de Londres e conseguiu passar “uma noite encantada sozinho no museu, perambulando de galeria em galeria com uma lanterna” ou de como desprezava a escola, tampouco era um bom aluno, mas adorava bibliotecas, local onde se sentia verdadeiramente livre.

O livro inteiro, entretanto, é perpassado por suas experiências individuais: um dos textos inéditos mais saborosos narra, feito um conto, seu encontro quase místico com um orangotango no zoológico de Toronto: “E então, separados apenas pela lâmina de vidro, ela me olhou nos olhos e eu nos dela, como apaixonados que se contemplam (...) A afinidade era óbvia — nós dois podíamos ver o quanto éramos similares. Para mim, foi espantoso, fascinante: tive uma sensação intensa de parentesco e proximidade como nunca antes com um animal.”

Assim como Orangotango, outros textos se aproximam da linguagem ficcional, especialmente alguns dos relatos clínicos. Em Congelado, Sacks conta a história do “Tio Toby”, um paciente que passou sete anos em um estado próximo do coma, vivendo à beira do estado vegetativo, mas ainda ligeiramente consciente. O tratamento ministrado ao homem foi um sucesso e o levou novamente a um estado normal de consciência, quase como uma ressurreição. Porém, como em uma reviravolta irônica ao fim de um conto, a reaceleração do metabolismo de Tio Toby desencadeou a expansão de um câncer agressivo que havia passado anos adormecido em seu organismo, matando-o.

Em meio aos casos de mal de Alzheimer, doença de Parkinson e síndrome de Tourette que Sacks narra com vivacidade, um texto inédito sobre Sally Greenberg, uma garota com transtorno maníaco-depressivo, pondera a respeito da ética por trás desse tipo de narrativa médica: “A questão do ‘dizer’, de publicar relatos minuciosos da vida de pacientes, suas vulnerabilidades, sua doença, requer imensa delicadeza moral e é repleta de armadilhas e perigos de todo tipo. Será que a luta de Sally com a psicose não é um assunto privado e pessoal, que só interessa a ela própria (e a sua família e seus médicos)?” Nesses momentos de reflexão, os textos de Sacks deixam de ser uma mera curiosidade clínica para buscar algo mais humanista.

É claro que os grandes divulgadores científicos – Carl Sagan, Richard Dawkins, Isaac Asimov, Neil deGrasse Tyson, Carlo Rovelli – são sempre dotados de um olhar humano para as questões da natureza, mas talvez Sacks seja o autor que tenha levado mais longe essa disposição ao fascínio. Esse é um dos motivos pelos quais seus ensaios por vezes se assemelham tanto a obras de ficção literária, mas também pela afinidade que ele estabelece entre a ciência e a arte.

O artigo em que essa relação fica mais explícita ao longo do livro é em uma resenha que Sacks escreveu sobre uma biografia do químico Humphry Davy (1778-1829), um de seus heróis de infância. Poeta e amigo dos românticos como Samuel Coleridge (1772-1834) e William Wordsworth (1770-1850), ele influenciou Mary Shelley (1797-1851) com suas palestras naturalistas e foi tido como um dos principais pensadores de uma época em que, lamenta Sacks, “ainda existia união entre as culturas literária e científica; não havia a dissociação de sensibilidade que surgiria tão em breve”. Tanto que Coleridge cogitou abrir um laboratório de química com Davy, que chegou a editar obras de Wordsworth.

“A ciência às vezes vê a si mesma como ‘impessoal’, ‘pensamento puro’”, critica Sacks, que a vê como “um empreendimento inteiramente humano, um crescimento humano orgânico e em evolução, com súbitos arrancos, paradas e estranhos desvios também. Ela cresce do nosso passado, mas nunca o descarta, do mesmo modo que não descartamos nossa infância.”

A delicadeza com que Sacks lança o olhar sobre seus pacientes e conduz o leitor pelos mistérios do cérebro humano acalenta em tempos como os atuais, nos quais a ciência precisa se reconciliar com o resto da humanidade para vencer o coronavírus. E é impressionante como o texto inédito que encerra Tudo em seu Lugar, escrito quando Sacks, com um câncer terminal, já tinha consciência de que sua morte estava próxima, parece feito sob medida para nós, habitantes deste 2020: “Apenas a ciência, auxiliada pela decência humana, pelo bom senso, antevisão e preocupação com os desvalidos e os pobres, oferece alguma esperança ao mundo em seu presente atoleiro (...) Juntos, sem dúvida podemos tirar o mundo de sua crise atual e abrir caminho para um tempo mais feliz no futuro. Agora que me vejo diante de minha partida iminente do mundo, tenho de acreditar que a humanidade e o nosso planeta sobreviverão, que a vida continuará e que esta não será nossa hora final.”

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