Andrea Comas/Reuters
Andrea Comas/Reuters

Livro póstumo de Umberto Eco reúne crônicas impagáveis

'Construir o Inimigo' medita sobre temas que vão da intolerância à literatura medieval

Elias Thomé Saliba*, Especial para o Estadão

31 de julho de 2021 | 15h00

Imaginem uma ilha na qual o líder resolveu abandonar todas as ideologias e projetos políticos em proveito da sabedoria ancestral, baseada nos provérbios populares, adotando como único princípio governamental que “a voz do povo é a voz de Deus”. Pouco tempo depois tal projeto administrativo se revelou um fracasso. A agricultura já começou enfrentando crise severa. pois todos acreditavam que “fruta madura cai sozinha do pé”; o transporte e a logística desapareceram, pois proibiram-se todos os veículos (“devagar se vai ao longe”) e nem de burro se podia viajar por causa do fedor insuportável dos bichos (“quem faz toalete em burro perde o tempo e o sabão”). Logo veio a crise financeira, causada por enorme inadimplência, pois, como todo mundo sabia: “para pagar e para morrer, quanto mais tarde melhor”. E como cada habitante pedia que “Deus me guarde dos amigos, pois dos inimigos me guardo eu”, resolveram abolir as forças armadas. A administração da justiça era espinhosa: não se podia julgar, pois “pecado confessado é meio perdoado”; os juízes foram desacreditados, pois “se um crime cometeste, trata de enxovalhar quem te acusa”. Afinal, os cidadãos sequer podiam reclamar daquela república, pois a ouvidoria respondia: “Que reclame a si mesmo, pois quem nasce aflito morre desconsolado, quem semeia vento colhe tempestade e quem planta amor colhe saudade.” 

Reunidas em Construir o Inimigo, esta é uma, entre 15 crônicas impagáveis de Umberto Eco, na qual ele desencrava de um obscuro manuscrito anônimo do século 18, esta divertidíssima ilha utópica feita toda ela de provérbios populares. Mas não é o único tema cuja inspiração nasce de manuscritos e escritos obscuros e pouco conhecidos. Como na estimulante Astronomias Imaginárias, em que Eco enumera todas aquelas descrições do formato da terra que nasceram de pulsões místicas – já que os mapas medievais não tinham função científica pois apenas respondiam à insaciável demanda popular por coisas prodigiosas: observava-se o céu a olho nu para ver cometas, que a imaginação logo transformava em coisas como Ovnis, terra plana, terra oca – ou em narrativas mirabolantes, afirmando que pirâmides egípcias foram construídas por seres extraterrestres. Lactâncio, autor cristão do século 4, baseado na descrição bíblica do tabernáculo, lançou a ideia da terra plana, que prosperou durante muitos séculos. Já as sucessivas demonstrações da redondeza da terra eram derivadas de observações empíricas: Ptolomeu já sabia que a Terra era redonda – do contrário não poderia dividi-la em 360 graus de meridiano –- assim como Parmênides, Eudoxo, Erastótenes, Platão, Aristóteles, Euclides e Arquimedes. Apesar desta fila de gente séria, as descrições místicas da terra oca ou da terra plana perseveraram – e ainda continuam a aparecer até hoje porque alimentam o misticismo coletivo e a secular história de uma astronomia imaginária. O perigo atual é que tal misticismo vem destruindo as últimas barreiras contra o analfabetismo científico. Talvez, por isto, Eco perca a paciência com terraplanistas e não hesita em compará-los à má-fé de muitos astrólogos: “Não é uma gente que está apenas enganada. São enganadores.”

Eco ainda escreve páginas reveladoras a respeito das técnicas literárias da agnição, que é quando ocorre aquela forte identificação e reconhecimento entre o leitor (ou espectador) e o personagem da história. Um dos exemplos mais bonitos que ele explora são os trechos de O Homem que Ri, de Victor Hugo, particularmente quando Gwymplaine, que tem o rosto deformado e o riso estampado na face, faz o seu discurso no Parlamento inglês. Todas as crônicas mesclam erudição e diversão de forma magistral. A exceção fica por conta do escrito que fornece o título ao livro, Construir o Inimigo. Eco conta a sua experiência com um taxista paquistanês em Nova York, o qual, depois de perguntar o país de origem, insistiu em saber quais eram os inimigos da Itália. Diante da resposta de Eco de que, na atualidade, não havia inimigos, o taxista não apenas mostrou-se insatisfeito com também bastante irritado, pois achava que um povo não existe quando não tem inimigos. (Eco até deu uma gorjeta maior, segundo ele, para “compensar nosso indolente pacifismo”). 

Afinal, ter um inimigo – e construí-lo – é importante não somente para definir a nossa identidade, mas também para encontrar o obstáculo em relação ao qual medir nosso sistema de valores ou mostrar, no confronto, o nosso próprio valor. Portanto, até quando o inimigo não existe, é preciso construí-lo, demonizá-lo e, até mesmo inventá-lo. Nos processos inquisitoriais por feitiçaria, não só se delineava uma imagem do inimigo como se forçava a vítima confessar até o que não fez – e ao confessá-lo, ainda por cima se autoconvencer de que realmente fez tudo aquilo. Eco relembra o livro Escuridão ao Meio-dia, escrito em 1941 por Arthur Koestler, que mostra como os processos stalinistas começavam primeiro por construir a imagem do inimigo, para depois convencer a vítima a reconhecer-se naquela imagem.

Com a reverberação do ódio na invenção dos inimigos viralizando na Internet, Eco acha difícil sair fora desta ciranda tortuosa, pois quaisquer instâncias éticas apenas irão surgir não fingindo que inexistem inimigos, mas quando se tenta entendê-los, colocar-se em seu lugar, destruir os clichês a seu respeito, sem apagar sua alteridade. Mas a aposta de Eco é num realismo cru, pois tais atitudes de compreensão do inimigo constituem, segundo ele, um privilégio raro concedido apenas aos poetas, aos santos e aos... traidores. Reflexões de surpreendente atualidade, pois construir inimigos, ainda mais ameaçadores quando não existentes de fato, forja bolhas de grupos efêmeros, vínculos coletivos e até define vínculos nacionais. Eco provavelmente assinaria embaixo do que disse recentemente o historiador Carlo Ginzburg: inimigos sempre reforçam vínculos de amor à pátria mas, muitas vezes o que prevalece é vínculo da vergonha. E o país a que pertencemos não é o país que amamos, e sim aquele do qual nos envergonhamos. Ainda assim, Eco se recusa a forçar o tom; e não resiste à uma chistosa nota final, ao retomar outro provérbio popular daquela ilha utópica: “Apenas relatei o que li: não atirem no mensageiro!”

É HISTORIADOR, PROFESSOR TITULAR DA USP E AUTOR, ENTRE OUTROS, DE ‘RAÍZES DO RISO (COMPANHIA DAS LETRAS)

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