Companhia das Letras
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Livro póstumo do escritor uruguaio Mario Levrero é lançado no Brasil

'O Romance Luminoso' é um testemunho autobiográfico e confessional do fracasso do autor

Ronaldo Bressane*, O Estado de S.Paulo

28 Abril 2018 | 16h00

1. Todo este livro é o testemunho de um grande fracasso. E isso não é desculpa: porque toda literatura é uma forma de fracasso, mesmo quando bem-sucedida. “Estou escrevendo com a liberdade de um condenado à morte (…) com a liberdade com a qual o condenado deve fumar o seu último cigarro, sem pensar em câncer ou enfisema”, escreve Mario Levrero no monumental O Romance Luminoso (Companhia das Letras, 648 págs., trad. Antônio Xerxenesky). O fracasso, este “failbetter” no dizer de Samuel Beckett, parece ser a cenoura balançada na frente do burrinho narrativo do autor uruguaio morto em 2004 aos 64 anos, apenas dois anos depois da conclusão deste livro, só publicado postumamente. É um paradoxo: Levrero quer concluir O Romance Luminoso, livro que escreveu aos 44 anos, com a bolsa Guggenheim que lhe foi concedida aos 60; não consegue, e, em lugar disso, escreve um diário para dar conta da impossibilidade de escrever – dois anos depois, dá por finalizada sua tentativa, agregando àquele livro escrito aos 44 anos o diário escrito aos 60 (aliás, fica a sugestão: comece a leitura pela segunda parte, onde está o Romance Luminoso inacabado, e depois volte para a primeira, onde está o diário). No entanto, quando publicado, após sua morte, o livro é aclamado pela crítica, que coloca a obra de Levrero ao lado da de Roberto Bolaño e Enrique Vila-Matas entre as mais poderosas da literatura hispânica. Talvez, como disse Levrero, por ter sido escrito sem pensar que pudesse haver leitores. 

2. Sim, O Romance Luminoso (não gosto desta tradução; prefiro a original, La Novela Luminosa: embora menos precisa – a tradução em português para “novela” é “romance” –, as líquidas “l” do título em espanhol são mais melódicas e femininas, e o termo “novela” semanticamente está mais próximo da forma deste livro, um novelo que se enovela a outro sem nunca desfazer nós) é um romance malogrado. É o registro do desejo de escrever sobre “experiências luminosas”. Seria um livro autobiográfico, mas “não deve ser uma autobiografia ao pé da letra, pois então seria o livro mais sem graça da história: uma sucessão de dias cinzentos da infância até este instante, com essas duas ou três centelhas ou relâmpagos ou momentos luminosos (…) Mas os momentos luminosos, contados de forma isolada, e com o agravante dos pensamentos que necessariamente os acompanham, pareceriam demais com um artigo otimista da Seleções da Reader’s Digest”. Assim, não se trata de narrativa com começo-meio-fim: como outro grande romance hispânico, Museu do Romance da Eterna, do argentino Macedónio Hernández, é um grande preâmbulo a algo que jamais vem a acontecer. “O romance moderno se faz a retalhos, desvios, digressões”, anotou Damián Tabarovsky a respeito de Hernández; “o inacabado não é fruto da negligência, acaso ou descuido, e sim, como no Pessoa de O Livro do Desassossego ou no Kafka de O Castelo, trata-se da chave que abre à literatura a modernidade”. Pode-se falar o mesmo deste livro, que aproxima o ensaio do registro memorialístico.

3. Mario Levrero era cristão não-praticante, muito liberal nos costumes, porém viveu enlevado pela figura do Espírito Santo e moveu-se pela vida como um caçador de epifanias, embora em geral fosse bem estático e nada aventuresco: nasceu e morreu em Montevidéu, onde morou a maior parte da vida (com temporadas em Colonia de Sacramento e Buenos Aires). Seu nome completo era Jorge Mario Varlotta Levrero, teve um casal de filhos e inúmeros casos com mulheres, apesar de se achar tímido e muito feio. Trabalhou como livreiro (“lebrero”), jornalista, fotógrafo, roteirista, humorista, criador de jogos e diretor de revistas de palavras cruzadas e, como quase todo escritor, viveu sempre na pindaíba, a não ser no período em que ganhou a prestigiosa bolsa Guggenheim – que lhe possibilitou, durante um ano, comprar poltronas, gastar em sebos comprando romances policiais, comprar cartelas de Valium e comer muitas milanesas. Aos 62 anos, é um homem desgastado, depressivo, com problemas de pressão, adicto de pornografia online (e com uma lentíssima conexão de internet), viciado em jogos eletrônicos, enrolado em inúmeros relacionamentos com mulheres do presente e do passado, um paranoico que se alimenta mal, deita quando o sol se levanta e nutre obsessões por formigas, pulgas e pombas.

4. Escritores brancos e heterossexuais de meia-idade com bloqueio criativo, hum, será que eu já não li isso antes? Verdade. Contudo, um dos encantos deste livro – além da própria prosa em montanha-russa, que alterna períodos de euforia com mergulhos na obscuridade, humor com melancolia, uma dinâmica que nos faz acompanhar o narrador onde quer que ele queira – é sua brutal honestidade. Como no Diário de Antonio Maria, na saga A Luta de Karl Ove Knausgard, no Hospício é Deus de Maura Lopes Cançado ou no Quarto de Despejo de Carolina Maria de Jesus, obras autobiográficas, estamos frente a frente a um ser humano exposto em todos os seus desejos, sonhos e defeitos. A confissão é uma espécie de teatro em que o autor cochicha para o público o que tem pudor de revelar até para si mesmo. A peculiaridade de Levrero é seu livro ter sido publicado póstumo, então temos aqui uma espécie de mensagem na garrafa fechada em um tempo específico (mas todo livro não será uma mensagem na garrafa?). Knausgard está por aí vivo, viajando pelo mundo e dando palestras a torto e a direito; mas a saga autoficcional de Levrero está encerrada: o leitor tem absoluta liberdade em conhecer o livro, uma vez que Levrero nunca fez sucesso e agora está morto. 

5. O romance confessional é um espelho onde também se reflete o leitor. Seus medos, defeitos, prazeres e dúvidas são também os nossos. A literatura de autoficção, que conhece hoje o momento mais fulgurante, também mostra, em Levrero, seu beco sem saída. A autoficção plena ocorre quando as três figuras da ficção – o Autor, o Narrador e o Protagonista – são a mesma pessoa. No romance do cristão Levrero, todas as figuras são uma só: ele mesmo. O Romance Luminoso é um texto de ‘autoconficção’ que segue a senda aberta pelas Confissões de Santo Agostinho – o primeiro exemplar de autobiografia na literatura ocidental, velho de 17 séculos. Em sua confissão, Levrero, que das três figuras da Trindade gosta mesmo é do Espírito Santo, vive sendo assaltado por experiências místicas: percebe o Espírito até mesmo em um semáforo. Pressente-O em um cão que fareja uma cadela, em um vento noturno, e em uma belíssima passagem, ao descrever uma noitada, afirma ter concebido um filho espiritual com uma mulher. 

6. “A percepção é controlada pela consciência, e quanto mais estreita for a consciência, mais apagada será a percepção”, escreve Levrero. Outro problema de um livro tão autoconsciente: o que é a consciência? Os fatos luminosos, ao serem narrados, deixam de ser luminosos, decepcionam, soam triviais. “Onde, meu Deus, transcorre a vida? (...) Há alguém que esteja satisfeito com isso que chamam de ‘realidade?’ (...) Toda uma sociedade baseada no trabalho alienado, na escravidão física, intelectual, moral e espiritual, será inexoravelmente derrubada pela obra e graça dela mesma e de seus vícios, e, ao mesmo tempo, da imposição de uma real realidade: a força do espírito, e dará passagem ou a um nada nuclear, ou a uma sociedade orientada ao prazer. E no centro do prazer está a possibilidade da participation mystique, ou seja, do desmoronamento de um eu hipertrofiado a favor da percepção da realidade com todas as suas dimensões.”

7. Acreditando convictamente em um daemon que o inspira a escrever e a ter experiências luminosas, Levrero finaliza seu romance com a imagem de uma pomba morta. Uma epifania profana: as iluminações de Levrero, tais como as epifanias surrealistas, provém de objetos do cotidiano, que subitamente transfiguram-se em um entendimento mais profundo sobre o universo que nos rodeia. “A visão instantânea que nos faz descobrir o desconhecido não numa longínqua terra incógnita, mas no próprio coração do imediato”, escreveu Rimbaud. Não fique bravo se revelei o final do livro: neste livro, não importa o que é narrado, e sim como é narrado. Mario Levrero não está contando uma história: a história se faz à medida em que a criação do livro é postergada. “Quando se é jovem e inexperiente, procura-se nos livros enredos chamativos, assim como nos filmes. Com o passar do tempo, a pessoa vai descobrindo que o argumento não tem grande importância; o estilo, a forma de narrar, é tudo”, diz, a respeito de sua obsessão por romances policiais – relê Chandler para encontrar a mesma voz, não interesse se já sabe a decifração do enigma. 

8. Sim, o tempo todo Levrero está lendo romances policiais, gênero ao qual é tão aficionado que criou um personagem detetivesco, Nick Carter, e seu único livro lançado no Brasil antes deste, Deixa Comigo (Rocco), é uma espécie de paródia do gênero. Ricardo Piglia mencionou, numa conferência sobre Poe e Borges, que o funcionamento do gênero policial se assemelha à tarefa do crítico literário, que “tenta decifrar um enigma ainda que não haja enigma”. Talvez daí nasça sua fixação por jogos, palavras cruzadas e quebra-cabeças: não lhe interessa a resposta, e sim as perguntas, as possibilidades do jogo. “Minha vida se transformou num discurso, num monólogo interrompido que já se tornou completamente independente da minha vontade. É o delírio, a busca pela catarse, a imposição do trabalho que devo realizar – queira eu ou não – com a única, fugidia esperança de chegar algum dia a um ponto final, ficar vazio, exausto, limpo – e pronto para outra. Pois devo insistir no fato de que nenhuma das experiências luminosas e nenhuma das experiências liberadoras serviram para poder dizer ‘pronto’, ‘atingi’, ‘era isso’.”

9. A busca do herói-problemático de Levrero se realiza só na medida em que se posterga. É sexo tântrico: só atinge o clímax enquanto mantém a prosa em movimento, “rápido e devagar, devagar e rápido”, como escreveu J.D. Salinger. Nesta escrita erótica, o desejo nunca se realiza plenamente, ou então só se realiza enquanto fracasso. E daí vemos as musas de Levrero escapando por entre seus dedos. Uma se cansa de sua depressão, para outra ele é velho demais, para uma terceira lhe faltam atrativos físicos. “O romance é a forma da aventura do valor próprio da interioridade; seu conteúdo é a história da alma que sai a campo para conhecer a si mesma, que busca aventuras para por elas ser provada e, pondo-se à prova, encontra a sua própria essência”, escreveu Gyorgy Lukács. “O romance é a história de uma busca degradada de valores autênticos, por um herói problemático, num mundo degradado”, desenvolveu seu discípulo, Lucien Goldman. Daí a forma que Levrero encontra para seu romance quixotesco é a busca por uma honestidade implacável.

10. É significativo que a dependência de Levrero em games e pornografia se entrelace com o uso nada prático que faz do computador: a mesa de trabalho é ambiente para ambas as funções, a escrita e a masturbação, e ambas se dirigem a ele próprio. Há salvação? Na transcendência, quando Levrero realiza uma sensação, ou raciocínio, realmente epifânico; ou no humor. O home-office, lar do trabalhador contemporâneo, é onde se enlaçam as funções da cama, da mesa e do trabalho, verdadeira cela que também é o mundo, afinal neste pequeno apartamento o tempo movimenta-se para trás e para a frente, chegando até nós com sua incontornável honestidade. “Que o leitor tenha paciência comigo: sou um passarinho que testa as asas antes do primeiro voo, e meus pais não estão ao meu lado para me guiar e me proteger.” 

 

*É escritor e jornalista, autor do romance 'Escalpo' (Editora Reformatório), entre outros

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