Companhia das Letras
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Livro póstumo reúne ensaios de W.G. Sebald sobre literatura e a Córsega

Autor de 'Os Anéis de Saturno', Sebald morreu precocemente em um acidente automobilístico em 2001

Paulo Nogueira*, Especial para o Estadão

17 de julho de 2021 | 15h00

Com o perdão do trocadilho infame (e sob o álibi fajuto de que saiu sem querer), W.G. Sebald se esbalda hoje no panteão dos maiores escritores contemporâneos. E isso com “apenas” três romances no portfólio: Os Emigrantes, Austerlitz e Os Anéis de Saturno – que ele temperou com outros pertences em opulentas feijoadas literárias. Um dos enésimos pioneiros da autoficção, combinou fantasia, historiografia, poesia, autobiografia e fotografia, abordando temas abissais como o Holocausto, memória, perda e exílio. Quem ainda não o leu, está marcando bobeira. 

Sebald nasceu na Alemanha, e viveu lá até 1963, quando se radicou na Inglaterra. O pai dele, militar de carreira, estava na Wehrmacht durante o nazismo, e foi prisioneiro de guerra até 1947. O escritor conta que, na escola fundamental, viu fotos do Holocausto, e nenhum dos seus colegas soube explicar aquelas imagens. Sebald lecionou Literatura Europeia na Universidade de East Anglia. Morreu em 2001, aos 57 anos, num acidente de carro. 

Por que tantos escritores são ceifados por veículos motorizados? Barbeiros? Azarados? Kamikazes? T. E. Lawrence, tietado por Bernard Shaw e Winston Churchill (e filmado por David Lean), se esborrachou em sua moto aos 46 anos, em 1935. Nathanael West, aos 37 anos, esmigalhou a si e a sua esposa numas férias no México, pilotando uma perua Ford. Em 1949, Margaret Mitchell, ainda curtindo as vendas astronômicas do seu único romance (E o Vento Levou), foi atropelada por um taxista bêbado quando ia ao cinema com o marido. Em 4 de janeiro de 1960, Albert Camus, Nobel de literatura, aceitou a carona de seu amigo e editor Michel Gallimard, desistindo do trem Provença-Paris. O carro bateu numa árvore e Camus morreu na hora, com 46 primaveras. Ele escrevera um dia que “de todas as maneiras de morrer, a morte num acidente de automóvel é a mais absurda”. Quanto a Sebald, sofreu um ataque cardíaco ao volante e trombou com um caminhão – a filha dele sobreviveu. (Esta digressão que acabam de ler é tipicamente sebaldiana – um singelo mas talvez instrutivo pastiche).

Campo Santo é uma antologia póstuma, um projeto da editora alemã de Sebald, a Hanser Verlag (e, que eu saiba, o primeiro ebook do autor). Quando Sebald morreu, logo após a publicação de Austerlitz, ao que tudo indica não deixara nenhuma prosa nova esboçada. A Hanser então montou Campo Santo, uma compilação de 18 textos. 

A primeira seção é sobre a Córsega, um livro que o autor iniciara em meados da década de 1990 mas abandonara em favor de Austerlitz. Trata-se basicamente de o escritor batendo perna pela ilha de Napoleão Bonaparte – acima de tudo, viajando na maionese, como só ele sabia fazer, flanando de museus a praias, passando por cemitérios abandonados. Nada de guia turístico, mas um sanduíche do mundano com o metafísico, com epifanias que são especiarias. 

Na segunda parte, a Hanser adicionou ensaios literários (incluindo sobre o xodó de Sebald, Kafka – uma ida deste ao cinema e ao bordel). Aqui, o autor fala obliquamente da própria obra, esses estranhos caleidoscópios que bruxuleiam entre fato e ficção, passado e presente, verdade e mentira. E, claro, da especialidade da casa: como os alemães lidaram (ou não) com o lastro mefistofélico do nazismo. 

Felizmente, os textos sobre o austríaco Jean Améry e o alemão Peter Weiss, excluídos da edição inglesa de Campo Santo, participam da edição da brasileira. Weiss (dramaturgo, cineasta, pintor e romancista), Améry e mais o cineasta e escritor Alexander Kluge ajudam Sebald a refletir sobre a geração de criadores germânicos do pós-Guerra (como Richter, Böll e Andersch). E a questionar o mito meia-tigela do “bom alemão”, que sob o nazismo não teve outro remédio senão suportar a catástrofe, através de uma “emigração interior”, em vez da resistência ativa ou do exílio. Como diz Jean Améry (anagrama de Hans Mayer, que sobreviveu a Auschwitz mas se suicidou em 1978 num hotel de Salzburgo): “Só na tortura o homem se torna exclusivamente carne.”

Bruce Chatwin, cuja biografia por Nicholas Shakespeare é comentada por Sebald, foi outro peregrino infatigável, trotando de Creta ao monte Athos, de Praga a Patagônia, do Afeganistão a Austrália. Chatwin, que morreu de Aids em 1989, aos 48 anos, também era literariamente inclassificável, no limbo evanescente mas fascinante entre ficção e realidade, memórias e fantasia, sonho e vigília. Adorador dos rios, que são “caminhos que andam”.

Por fim, Vladimir Nabokov e suas reminiscências fabulosas. Aliás, em 19 de agosto sai na Europa a primeira biografia de Sebald: Speak, Silence, de Carole Angier (em pré-venda na Amazon) – e as memórias de Nabokov se intitulam Speak, Memory. O autor russo paira como uma entidade fantasmagórica em Os Emigrantes, com direito até a uma fotografia. 

Apesar disso, misturar Sebald com o pai de Lolita parece à primeira vista como confundir alhos e bugalhos. Criado na segurança de uma família abastada e unida, Nabokov evoca a vida na Rússia pré-soviética com um deleite nostálgico (idealização mais fortalecida do que abalada pelo exílio e assassinato do pai idolatrado, em Berlim). Já as recordações juvenis de Sebald são maculadas pelo III Reich e seu legado traumático (incluindo a participação do pai no exército de Hitler). No entanto, as afinidades estão lá, e Sebald entrega o ouro (ou o chumbo): “No quinto capítulo do romance Pnin, Nabokov discorre longamente e por meio de diferentes vozes sobre aquilo tudo de que somos privados, e a que preço, a caminho do exílio: além dos bens materiais, a não menos importante certeza da realidade da própria pessoa”.

Moral da história: apesar da promiscuidade camaleônica de gêneros, no fundo Sebald consuma a suprema vocação de literatura: falar do outro, do diferente, do estrangeiro, de outro tempo e de outro lugar, da condição humana universal, que o leitor terceiriza através dos protagonistas, numa gambiarra ontológica. Só somos diferentes porque somos iguaizinhos. Cada um de nós é único, e como os nossos pares somos ímpares.

*PAULO NOGUEIRA É AUTOR DE ‘O AMOR É UM LUGAR COMUM’ (INTERMEIOS)

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