Jean Manzon
Jean Manzon

Livro propõe história alternativa da música erudita do século 20

Quando foi lançado originalmente, em 1961, 'A Música e o Inefável', de Vladimir Jankelevitch foi ignorado pelas vanguardas

João Marcos Coelho*, Especial para o Estado

30 de março de 2019 | 16h00

O título ou programa sugerido pelo compositor numa peça musical “diz a nossa alma: represente o que quiser, escolha sua quimera, pois tudo o que você imaginar é admissível”. Esta frase, pinçada do corajoso livro A Música e o Inefável, do dublê de filósofo musicólogo francês Vladimir Jankelevitch (1903-1985), dá bem a medida das razões pelas quais ele foi solenemente ignorado, em sua publicação original, em 1961.

Ora, naquele momento, as vanguardas do pós-guerra, capitaneadas por nomes como Pierre Boulez, Karlheinz Stockhausen e Luigi Nono impunham o chamado pensamento único. A história da música do século 20 começava com a dissolução da tonalidade pela Segunda Escola de Viena (Arnold Schoenberg e seus dois alunos Anton Webern e Alban Berg), que se autocoroava como única consequência lógica possível de um longo e ilustre itinerário iniciado com Beethoven, e que levou a Wagner e ao cromatismo que corroera o sistema tonal. De Schoenberg a Boulez, impôs-se a grande narrativa das vanguardas – eletroacústicas, eletrônicas, etc.

Tudo que não se enquadrasse neste roteiro era lixo (como acentuou Theodor Adorno, a cabeça pensante mais forte das vanguardas). Frequentavam esta enorme lata de lixo não só toda a música francesa, de Fauré a Ravel e Debussy, como os compositores que insistiam em compor música tonal – casos dos russos, Stravinski e Prokofiev, mas também de outros criadores musicais de fora do círculo de ferro austro-germânico adorniano.

Como, então, alguém ousava propor uma história diferente da evolução musical europeia no século 20 em 1961? O livro, ora lançado em excelente tradução no Brasil, propõe já no título uma blasfêmia: encarar a música no que ela tem de mais atraente para quem a ouve: o fascínio de sua beleza, não da beleza clássica clonada de séculos anteriores, mas uma beleza contemporânea. 

O itinerário de Jankelevitch parte de Liszt e desemboca na música francesa, não só de Fauré, Ravel e Debussy, os mais conhecidos, mas também de Roussel e Milhaud, entre outros; detecta qualidades insuspeitadas em Mussorgsky, Prokofiev e também no pouco conhecido Mossolov; e nos brinda juntando Villa-Lobos a esta trupe de bons guias, capazes de falar com públicos mais amplos sem abrir mão da qualidade.

A escuta de Jankelevitch certamente é romântica. Além de filósofo rigoroso, na melhor tradição de Bergson e leitor atento de Gisèle Brelet (autora de O Tempo Musical, dois volumes de 1949), também possui um prodigioso conhecimento de vastíssimos repertórios musicais. Ler este livro é um constante movimento de descobertas de novas peças musicais, submetidas a análises sutis, refinadas, que convidam à audição. Um jardim de delícias musicais. Além do mais, ele domina a escrita como poucos. Mistura análises rigorosas com uma prosa poética que nos captura e leva a querer ouvir cada obra musical que retira do limbo.

O poder da música “é imediato, vigoroso e indiscreto”. É uma “operação irracional e até mesmo inconfessável” que se cumpre “à margem da verdade: por isso assemelha-se mais à magia que à ciência demonstrativa (...) Um vocalise não é uma razão, um perfume não é um argumento (...) A sala de concertos é um espaço tão irreal, um microcosmo tão imaginário quando o teatro e o anfiteatro. Esse espaço, teatro ou circo, é o espaço consagrado, o envoltório lúdico da arte, e sua delimitação demarca, no oceano das ações sérias, a ilha encantada das quimeras”.

Uma ilha que faz alterar o modo como pensamos em compositores como Debussy e Ravel. Para Jankelevitch, eles são fundamentais para a música contemporânea, porque instauram – não só eles, mas eles sobretudo – um novo tipo de criação musical. A que recusa o desenvolvimento, conceito tão caro à linhagem austro-germânica. Beethoven constrói monumentos em torno de motivos simples – o que dá densidade à obra é o desenvolvimento. Aqui vale a célebre frase de Debussy: quando começava o desenvolvimento numa sinfonia de Beethoven ele saía para fumar.

A música destes compositores, batendo de frente com o wagnerismo avassalador e a vanguarda austro-germânica, opta por uma música que Jankelevitch qualifica como “estacionária”. Não se trata de música estática, mas de uma recusa do desenvolvimento. 

No capítulo A Miragem do Desenvolvimento, ele diz que “as músicas estacionárias do século 20, Petruchka, Les Noces, Retábulo de Mestre Pedro, a fobia do desenvolvimento responde a uma espécie de continência feroz. As Cirandas de Villa-Lobos, sob este aspecto, são verdadeiras obsessões... Peças musicais estacionárias e até mesmo estagnantes, mas não estáticas! A recusa do desenvolvimento, a vontade de asfixiar a eloquência às vezes chegam às raias do heroísmo”. Este é um dos núcleos centrais de seu livro. Cá entre nós, como o Villa foi malhado por causa das costuras de aparência precária de seus desenvolvimentos. Pudera. Ele era posto sob o crivo da régua europeia austrogermânica. Willy Corrêa de Oliveira, que passou décadas “matando” Villa em suas aulas na USP (a expressão é dele), teve uma epifania há dez anos com as Cirandas – coincidências, as mesmas Cirandas que magnetizaram Jankelevitch em 1961.

O mistério que a música nos transmite, diz o filósofo, “é o inexprimível fecundo da vida, da liberdade e do amor; dito em poucas palavras, o mistério musical não é indizível, mas inefável”. Jankelevitch não tem medo de ser poético ao falar de obras como a “divina” Balada opus 19 de Fauré (disponível no YouTube em linda leitura de Magda Tagliaferro). 

Ele nos oferece suas “quimeras” num livro saborosíssimo. E nos libera para nos entregarmos sem culpa às quimeras que a música nos incita a imaginar, quimeras individuais e intransferíveis; quimeras que nos falam de amor, liberdade, vida. 

*JOÃO MARCOS COELHO É JORNALISTA, CRÍTICO MUSICAL E AUTOR DO LIVRO 'PENSANDO AS MÚSICAS NO SÉCULO XXI' (PERSPECTIVA)

Mais conteúdo sobre:
música erudita

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.