Pascal Parrot/Sygma
Pascal Parrot/Sygma

Livro que previu crise de refugiados repercute em círculos racistas

'Le Camp des Saints', escrito pelo francês Jean Raspail em 1973, virou um dos livros mais lidos entre políticos e supremacistas brancos

Elian Peltier e Nicholas Kulish, The New York Times

30 de novembro de 2019 | 16h00

Numa manhã de 1972, o autor francês Jean Raspail estava em casa, na costa do Mediterrâneo, quando teve a visão de um milhão de refugiados implorando para entrar na Europa. “Armados apenas com sua fraqueza e quantidade, curvados pela miséria, sobrecarregados de crianças negras e famintas, prontos para desembarcar em nosso solo”, escreveu ele. “Deixá-los entrar nos destruiria. Rejeitá-los os destruiria”.

Na época, Raspail era um escritor respeitado, bem conhecido por seus diários de viagem. Mas o romance racista que resultou desse episódio, Le Camp des Saints [O campo dos santos], se tornaria seu trabalho mais famoso, mais controverso e, surpreendentemente, mais influente.

Nos últimos trinta anos, “Le Camp des Saints tem sido um dos dois principais livros dos círculos supremacistas brancos”, disse Heidi Beirich, especialista em extremismo do Southern Poverty Law Center. No início deste mês, o centro divulgou e-mails nos quais Stephen Miller, conselheiro do presidente Donald Trump, indicava o livro à redação do portal Breitbart, apresentando-o como uma obra que traz fortes paralelos com as recentes ondas migratórias.

Publicado em 1973, o romance distópico detalha como uma flotilha de migrantes indianos chega à costa sul da França para invadir o país. As elites políticas não reagem ao influxo, e o continente é tomado de assalto. Por quase meio século, o livro alimentou um pavor à imigração que, para seus defensores, pareceu cada vez mais profético à medida que nos últimos anos cresceu o número de refugiados e requerentes de asilo na Europa.

“Raspail pode se gabar de ser profeta”, disse Jean-Yves Camus, especialista em extrema direita no Instituto Francês para Assuntos Internacionais e Estratégicos. “As pessoas agora compram Le Camp des Saints porque querem ler o livro escrito pelo escritor que viu o que viria a acontecer antes de todo mundo”.

O que Raspail descreveu como uma “parábola” passou a ser visto como um texto canônico nos círculos nacionalistas brancos.

“O poder do livro vem das imagens muito vívidas da quase destruição dos brancos e da falta de resistência do governo”, disse Cécile Alduy, professora de estudos franceses da Universidade de Stanford, que estudou o discurso dos franceses de extrema direita.

Sua líder, Marine Le Pen, disse que Le Camp des Saints, que ela leu aos 18 anos, “deixou uma grande marca” e instou os franceses a lerem o livro para entender o que ela definiu como a “submersão migratória” do país. Steve Bannon afirmou que os países europeus foram confrontados com uma “invasão” semelhante à descrita no romance. Steve King, deputado pelo estado de Iowa, argumentou que a história do livro “deveria ser gravada no cérebro de todos”.

Beirich disse que, nos Estados Unidos, o livro se encontra ao lado de O Diário de Turner, um romance de guerra racial assinado por William Pierce, ex-chefe do grupo neonazista Aliança Nacional, como as principais referências ficcionais para supremacistas brancos. O reconhecimento do lugar ocupado por Le Camp des Saints em tais círculos pode ter atingido um novo patamar na semana passada, quando se revelou que o livro fora citado por Miller, o influente conselheiro de Trump para assuntos migratórios.

Em setembro de 2015, enquanto os países europeus enfrentavam uma crise de imigração, Miller encorajou os editores do Breitbart a escrever sobre o livro de Raspail. Três semanas depois, o site conservador publicou uma matéria observando que, assim como no romance, os líderes ocidentais estavam “atraindo ondas cada vez maiores” de imigração e não pareciam “capazes de erguer muros”.

“A política anti-imigração do governo Trump é uma consequência direta dessa tomada de Le Camp des Saints como uma cartilha de governo”, disse Alduy.

Os migrantes em Le Camp des Saints são retratados como pessoas doentes que comem fezes humanas – o líder do grupo é apelidado de “come-bosta” – e sua chegada é descrita como uma “cascata interminável de carne humana” tomando o litoral feito um “formigueiro aberto”.

Monarquista bem viajado, Raspail, hoje com 94 anos, parece um herói improvável para os americanos que empregam o termo “globalista” como insulto. De fato, quando Le Camp des Saints foi publicado, poucos poderiam prever que o livro teria uma sobrevida tão extensa.

O título é retirado do Apocalipse bíblico, uma referência ao exército que Satanás reuniu para invadir a terra, até mesmo o campo dos santos. Raspail aproveitou sua experiência no relato de comunidades ameaçadas da América Latina e de outros lugares para imaginar o que ondas de estrangeiros significariam para a cultura, o idioma e a população da França.

Le Camp des Saints foi traduzido para várias línguas europeias, mas não chegou a ser um sucesso. A Scribner o publicou em capa dura nos Estados Unidos em 1975 e em edição de bolso dois anos depois. Uma resenha do New York Times de 1975 comparou a leitura com “se ver preso numa festa conversando com um cara aparentemente normal que do nada começa uma perversa diatribe racista”.

 

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