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Livro reconta revoltas negras na Bahia pelo olhar de Luiz Gama e Luíza Mahin; leia trecho

Jornalista e escritor Fernando Granato traça um panorama da Bahia durante o século 19

Redação, O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2021 | 10h00

O jornalista e escritor Fernando Granato se volta, em seu novo livro, Bahia de Todos os Negros, para as revoltas que agitaram a Bahia durante o século 19 pela perspectiva de dois personagens relevantes da história do Brasil: Luíza Mahin e Luiz Gama.

Mãe e filho vêm sendo redescobertos cada vez mais pela historiografia brasileira. As obras completas de Gama, advogado abolicionista que nasceu livre, foi vendido como escravo e ajudou outros negros escravizados a serem libertados, estão sendo reeditadas pela Hedra e o cineasta Jeferson De levou a vida dele à tela grande em Doutor Gama.

Em Bahia de Todos os Negros, Granato, que colabora com o Estadão, parte da perspectiva desses personagens para narrar as principais revoltas que ocorreram na Bahia ao longo do século 19.

Leia um trecho de 'Bahia de Todos os Negros'

Praça da Sé, centro histórico de Salvador, capital da Bahia. O cheiro da fritura no azeite de dendê exala das barracas de acarajé desde os tempos mais remotos, quando as africanas trouxeram de sua terra a iguaria feita de feijão fradinho ralado numa mistura com sal, cebola e muita pimenta.

No meio da praça, uma jovem aplica trança nagô em sua cliente por trinta reais. Conta que a tradição desse trabalho vem de sua bisavó. A trança nagô é aquela que fica rente ao couro cabeludo e tem propósitos variados na cultura africana: pode simbolizar, por exemplo, o estado civil ou a classe social. No Brasil, não tem signifi cado específi co, mas é usada desde a escravidão como símbolo de resistência.

A alguns passos da Praça da Sé está a Ladeira da Praça, e ali há outra menção aos africanos, esta já numa miscigenação com o mundo globalizado: “Afro Mega Hair”, indica a placa no número 17, uma loja especializada em “apliques, perucas, fibra sintética e cabelo humano”.

Logo abaixo, ao pé da ladeira, está uma das principais referências na cidade ao período da escravidão, quando milhões de homens, mulheres e crianças foram trazidos à força do outro lado do Atlântico. No antigo número 2 havia um sobrado de dois andares com um subsolo, que serviu de quartel-general para os negros organizadores de um movimento pela tomada do poder em 1835 que ficou

conhecido como Revolta dos Malês.

A insurreição teve início perto da uma da manhã do domingo, 25 de janeiro de 1835, quando uma patrulha foi enviada para averiguar a denúncia de que africanos estariam conspirando contra o governo na região. Quando lá chegaram, os policiais foram surpreendidos por cerca de sessenta homens que reagiram a tiros de bacamarte e golpes de lanças e espadas e aos gritos de “mata soldado” numa língua africana. Começava ali a rebelião que se espalharia por quase toda a cidade nas horas seguintes.

Perto desse local, do outro lado da Praça dos Veteranos, fica a Rua do Bângala. Nessa pequena viela existe até hoje uma casa de três pavimentos, cada um com três janelas que dão para a rua. Um sobrado sem a suntuosidade dos solares coloniais, com uma placa na porta: “Nesta casa a 21-6-1830 nasceu livre Luiz Gonzaga Pinto da Gama, fi lho de Luíza Mahin, nagô de nação”. Gama foi um escritor e jornalista que mais tarde se destacaria entre os mais importantes abolicionistas do país.

Em 1835, Luiz Gama tinha apenas 5 anos e, portanto, não teve qualquer participação na insurreição africana. 

Sua mãe, Luíza Mahin, entretanto, teria desempenhado papel importante na Revolta dos Malês, como eram conhecidos na Bahia da época os africanos islamizados. O nome é uma derivação da palavra “imalê”, que na língua iorubá serve para designar os muçulmanos. Pouco se sabe sobre Luíza, a não ser por relatos orais colhidos por pesquisadores ao longo de quase duzentos anos e por uma carta, escrita por Gama em 1880 e endereçada ao amigo Lúcio de Mendonça, na qual ele traça uma breve autobiografi a para ser publicada no Almanaque Literário de São Paulo para o ano de 1881: 

“Sou filho natural de uma negra, africana livre, da Costa Mina (Nagô de Nação) de nome Luíza Mahin, pagã, que sempre recusou o batismo e a doutrina cristã. Minha mãe era baixa de estatura, magra, bonita, a cor era de um preto retinto e sem lustro, tinha os dentes alvíssimos como a neve, era muito altiva, geniosa, insofrida e vingativa. Dava-se ao comércio – era quitandeira, muito laboriosa, e mais de uma vez, na Bahia, foi presa como suspeita de envolver-se em planos de insurreição de escravos, que não tiveram efeito. Era dotada de atividade. Em 1837, depois da Revolução do dr. Sabino, na Bahia, veio ela ao Rio de Janeiro e nunca

mais voltou.”

A Revolta dos Malês foi o mais sério levante urbano de escravos ocorrido no Brasil. Teve como palco as ruas e vielas de Salvador. Contou com a adesão de cerca de seiscentos africanos e deixou um saldo de setenta mortos entre os rebeldes, massacrados pelas forças ofi ciais. Outros trezentos revolucionários foram depois levados à Justiça e, ao fi m dos processos, quatro acabaram fuzilados. Vinte e dois revoltosos receberam pena de prisão e 44, o castigo de açoite. Em decorrência do movimento, que pretendia tomar o poder e eliminar a hegemonia e o domínio dos brancos na cidade, mais de quinhentos africanos livres foram expulsos do país e tiveram que voltar para a África.

Ficha técnica do livro:

Bahia de Todos os Negros 

Autor: Fernando Granato

Editora: Intrínseca/Selo História Real

Páginas: 224

Livro impresso: R$ 59,90

E-book: R$ 29,90

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