Alexandro Auler/Estadão
Alexandro Auler/Estadão

Livro-reportagem narra história de amor na Guerra da Síria

Jornalista brasileira Patrícia Campos Mello intercala as vidas particulares do casal Raushan e Barzan com bastidores do conflito armado

Fernanda Marques, O Estado de S.Paulo

03 Fevereiro 2018 | 16h00

A vida de um casal em Kobane, cidade sitiada pelo Estado Islâmico (EI) no norte da Síria, é o ponto central de Lua de Mel em Kobane, livro-reportagem de Patrícia Campos Mello, repórter especial e colunista da Folha de S. Paulo, que mostra cicatrizes dos seis anos da guerra civil, principalmente entre o povo curdo, que ainda teme ser expulso daquele território. Escrever sobre conflitos no Oriente Médio não é um exercício simples como mostrar um lado contra o outro. Abordar o conflito sírio tendo como linha condutora uma história de amor real, torna o desafio maior. 

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A autora consegue mostrar o que leva os personagens Raushan e Barzan a passar a lua de mel na cidade síria em plena guerra e lutar para tirar a cidade das mãos do EI. Em meio a tudo isso, um elemento que não é tratado de forma direta, mas permeia muitos conflitos no Oriente Médio: a religião e como cada Estado ou grupo envolvido na trama balanceia o espaço que ela tem no governo e no poder. 

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Foi a partir do trabalho com o jornalismo internacional que Patrícia decidiu escrever esse livro, mais precisamente a partir da foto de Alan Kurdi, menino sírio de 3 anos que morreu afogado tentando chegar à Grécia com a família em 2015 e cuja foto – ele de bruços sem vida na areia – chocou o mundo na época. No terceiro capítulo do livro, Patrícia relata que já havia realizado coberturas difíceis, mas que aquela que estava por começar era diferente, até porque muitos jornalistas ocidentais haviam sido sequestrados na Síria. 

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O livro intercala a História com a forma que o conflito regional afeta cada personagem. Raushan deixa Alepo em meio à guerra civil e passa a viver na Rússia como refugiada. Barzan, que desde a adolescência se envolvia com movimentos da autonomia curda, deixa Kobane para viver na Turquia. Os dois então se conhecem pela internet e começam a conversar. Contam que depois de pouco tempo já se sentiam apaixonados, mesmo sem se conhecer. 

Mas até chegar a esse momento, a autora explica como a Síria chegou à situação atual. Passa pela criação do atual mapa do Oriente Médio – divisão dos territórios feita a partir de um acordo entre França e Grã-Bretanha, o Sykes-Picot –, e conta como o conflito de 2011 teve início: com a chamada Primavera Árabe, que começou na Tunísia e passou por diversos países da região, levando à queda de ditadores como Saddam Hussein, no Iraque, e Muamar Kadafi, na Líbia. 

A Síria ficou sob domínio francês após o acordo de Sykes-Picot e dentro de seu território passaram a conviver árabes, sunitas, xiitas e curdos. A rebelião contra o presidente sírio, Bashar Assad, tem origem justamente em um grupo de sunitas que haviam deixado a zona rural e se sentiam abandonados pelo governo após anos sendo a maior força no país. 

Os curdos ganham um capítulo especial no livro, talvez o capítulo com mais detalhes históricos do livro, para mostrar a luta do povo por um Estado independente e como suas reivindicações não estão apenas na Síria, mas no Iraque e na Turquia também. 

Atualmente, inclusive, uma preocupação do presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, é combater os curdos na Síria, que ganharam força bélica ao lutar e vencer o Estado Islâmico. O motivo: Erdogan considera os curdos sírios um braço dos “terroristas” do PKK (Partido dos Trabalhadores Curdos) e teme a presença no povo fortalecido na região da fronteira com seu Estado.

Após o fim da 1.ª Guerra Mundial, os curdos foram delimitados na Síria a três áreas diferentes no norte do país e passaram a ser vistos como uma ameaça ao Estado sírio, como lembra o livro. Kobane está em uma dessas áreas, o que motiva o casal protagonista a defender sua cidade, símbolo da resistência curda.

Terror. Se no início da guerra síria, as notícias eram sobre os confrontos entre forças do regime Assad, apoiadas pela Rússia – aliada de longa data – e os opositores – apoiados pelos EUA, em 2014 outro elemento muda o tabuleiro de forças: o EI não fala em concepção de Estados e sim em formar seu califado por acreditar que quanto mais se falar em nacionalismo, menos religioso o Estado será. O fenômeno fundamentalista que usou as redes sociais para disseminar suas ações e recrutar soldados pelo mundo não se levantou apenas contra o Ocidente, mas também contra muçulmanos. Para o EI, quem é curdo ou xiita não segue a sharia (código de leis islâmicas) e deve ser eliminado.

No livro, essa concepção fica clara quando a autora explica que o líder do EI, Abu Bakr al-Baghdadi, ainda em 2012 conclama seus seguidores a derrubar as fronteiras do Sykes-Picot “para trazer de volta um Estado que não acredita em nenhuma nacionalidade a não ser o Islã”. 

A história de amor entre Barzan e Raushan tem uma pausa nesse momento do livro para dar espaço à história de Baghdadi e do crescimento do EI. Aqui, a autora lembra que o apoio de Turquia, Arábia Saudita e Catar (países sunitas) à oposição síria também armou aqueles que mais tarde se juntariam ao EI ou outros grupos islamitas radicais. 

O envolvimento internacional no conflito sírio se intensifica com a presença do EI. Raushan e Barzan, por exemplo, lutam com a YPG (Unidades de Proteção Popular – milícia do Curdistão sírio com 40 mil integrantes) no norte do país com o apoio dos bombardeios aéreos dos EUA, escreve a autora. E as forças de Assad continuavam a lutar contra a oposição com o apoio de Irã e Rússia.

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