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Lim Huey Teng/Reuters
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Livro reúne artigos de psicanalistas sobre o impacto da pandemia em como o luto é encarado

Brasil desaprendeu potência simbólica da despedida e reprisa a insensibilidade que é comum em nossa história

Amanda Mont’Alvão Veloso*, O Estado de S.Paulo

11 de fevereiro de 2021 | 05h00

Seja pela palavra ou pelos efeitos, a pandemia escreveu o ano de 2020, situando os meses por entre suas ameaças, perdas e restrições. No caso brasileiro, o ponto de partida foi março, quando os crescentes índices de contaminação impuseram uma reconfiguração de rotinas e de expectativas. Planos pessoais e profissionais foram ficando cada vez mais dependentes de uma resposta externa para prosseguirem, amarrados a promessas enganosas ou suspensos pelo descaso mortífero das autoridades. Há ainda o desfecho mais dramático dessa realidade, simbolizado pelas inumeráveis vidas suprimidas. 

É difícil pensar que haja uma instância do dia a dia que não tenha sido afetada pela transmissão do coronavírus. Dormir e acordar, sair, se alimentar, estudar, trabalhar, fazer amizades, relacionar-se com o outro, despedir-se. Dinâmicas já estabelecidas que agora recebem o nostálgico tom de anos passados. Viver e resistir passaram a demandar outros códigos de relacionamento, não sem antes inaugurarem dúvidas onde havia uma certa dose de certeza. 

Neste panorama de travessia em águas perigosas, certas ancoragens podem dar um suporte para elaborar tantas mudanças. O livro Psicanálise e Pandemia registra uma época ao propor reflexões sobre os desafios psíquicos do nosso agora. 

Organizada pelo Fórum do Campo Lacaniano do Mato Grosso do Sul, a antologia reúne 18 ensaios escritos ou transcritos após a realização de um encontro virtual de psicanalistas no ano passado. Assinam os textos Alba Abreu, Andréa Brunetto, Antonio Quinet, Bernard Nominé, Carmen Gallano, Claudia Wunsch, Daniel Foscaches, Hilza Maria Ferri, Isloany Machado, Lia Silveira, Luis Izcovich, Marcelo Bueno, Marilene Kovalski, Marisa Costa, Pricila Pesqueira, Rainer Melo, Tatiana Siqueira e Zilda Machado.

Dentre os fios condutores da obra, o principal é o do reconhecimento da pandemia como um imponderável que circunscreve milhões de vidas e expõe a falência de certas ilusões, como o corpo imune ao tempo e ao desgaste; e a ora perversa, ora desesperada tendência de “seguir em frente”. Para seguir, no entanto, é preciso que o luto estabeleça uma interrupção no caminho, a fim de significar as perdas para então se recuperar o desejo de viver. 

O Brasil que “não pode parar” nem para nomear, honrar e enterrar seus mortos finge avanço ao proclamar a barbárie e desaprende a potência simbólica da despedida. Reprisa a insensibilidade que não é novidade na história da país, como destaca Hilza Maria Ferri. Os corpos são apressadamente descartados e acumulados em números. “Vozes caladas, sem o direito à sua história. Tornamo-nos novamente um Brasil sem passado, os mortos de hoje são os ‘desaparecidos’ de ontem. E voltamos, de forma circular, a nos repetir continuamente, tropeçando nos mesmos erros.”

A supressão ou aceleração dos velórios e funerais, necessária por conta do perigo de contaminação, é uma prática com consequências clínicas ainda desconhecidas, convergem os autores. São também unânimes em afirmar que os rituais de reconhecimento da morte trazem a humanização necessária a esta dolorosa experiência, ao mesmo tempo em que se afastam do horror da negligência e da indignidade. 

Esse menosprezo às vidas perdidas e a negação da pandemia revelam uma covardia, segundo o artigo do psicanalista Daniel Foscaches. Para ele, as narrativas que ignoram o padecimento de milhares são, na verdade, “posições marcadas por uma covardia de não querer lidar com a falta (...), covardia de não querer perder nem um pouco”. 

Chama a atenção que vida e morte continuem se embaralhando com a exaustão nos atendimentos hospitalares, em um contexto de testagem insuficiente e pouco ou nenhum rastreio de contatos. Até o começo de setembro de 2020, o Ministério da Saúde havia distribuído a Estados e municípios menos de um terço dos 22,9 milhões de exames do tipo RT-PCR para diagnóstico da covid-19. Os números equivalem a 28% do total, segundo reportagem do Estadão. Na ausência de protocolos de cuidado amplos e centralizados, resistir ao vírus tem sido tarefa individual, condicionada à já fatigada ou irrealista capacidade de se isolar. 

Diante do reconhecimento da pandemia, o isolamento foi necessário inclusive no ato de cuidar do sofrimento. Desde março do ano passado, psicanalistas passaram a atender à distância, tendo a internet como aliada na continuidade ou mesmo no começo de um tratamento. Boa parte dos ensaios dedica-se a examinar as diferenças entre o atendimento físico e o virtual e as nuances trazidas com a prática nesta situação contingencial. De acordo com os autores, o encontro analítico, mesmo de longe, permanece presencial porque assinala a manutenção da fala e da escuta transformadoras. 

Os ganhos são significativos, especialmente no enfrentamento ao desamparo, argumentam os ensaístas. A migração, em caráter provisório, dos consultórios para os computadores e celulares instala um ponto de presença em um presente incerto, oferecendo um suporte para se imaginar um amanhã. Trata-se de uma presença de resistência, que admite as adversidades, como se depreende das palavras de Lia Silveira: “Uma análise pode permitir a alguém delimitar qual a parcela da vida que vai ser possível desviar da necropolítica e sustentar o querer viver, apesar do impossível, ou melhor, por causa dele.”

*AMANDA MONT'ALVÃO VELOSO É PSICANALISTA, JORNALISTA E MESTRE EM LINGUÍSTICA APLICADA PELA PUC

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