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Livro reúne contos de Philip K. Dick adaptados na série 'Electric Dreams'

'Sonhos Elétricos' compila as dez ficções breves do autor que deram origem à série da Amazon

Ronaldo Bressane*, Especial para O Estado de S. Paulo

17 Março 2018 | 16h00

Em um dos períodos mais conturbados de sua vida bem conturbada, Philip K. Dick teve certeza de que era o único ser humano vivo no planeta. Imaginou que uma voz do futuro lhe ditava o que escrever. Passou a ter a consciência, então, que a voz era a dele mesmo – um homem que trazia notícias do futuro para seus leitores. Morreu acreditando nisso, conforme sugere sua Exegese, seu ensaio biográfico-filosófico de 10 mil páginas. Temos todas as razões para crer que PKD estava certo: 36 anos após sua morte física, suas questões são onipresentes na sociedade – uma influência mais profunda do que qualquer outra obra de ficção científica, de acordo com pensadores como Jean Baudrillard e Slavoj Zizek. Sua mais recente reencarnação é Electric Dreams, série da Amazon baseada em dez ficções breves, reunidas pela editora Aleph sob o título Sonhos Elétricos.

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Esses contos, escritos entre 1953 e 1955, pouco depois de PKD se tornar escritor profissional, eram publicados em edições vagabundas, pulp fiction, revistas e antologias de FC em papel ordinário para nerds, que mal custeavam suas despesas básicas. Nesse período, chegou a comer ração de cavalo; sua dieta, porém era acompanhada por fartas cartelas de anfetaminas, aditivo que o fazia concluir um livro em poucas semanas. Sua obra, 121 contos e 43 romances, fonte inesgotável para o audiovisual, faria fama e fortuna a PKD caso vivo estivesse. Porém, nos magros anos 50, ainda estava ainda longe de produzir suas obras-primas, O Homem do Castelo Alto (1962, que deu origem à série de mesmo nome), Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? (1968, inspiração para os filmes Blade Runner) e A Scanner Darkly (1974, adaptado por Richard Linklater em O Homem Duplo). 

Assim, é preciso interpretar esses Sonhos Elétricos tendo em mente que PKD tateava seu território: a empatia como diferencial humano; enlaces e embates entre os pares virtual vs. real e falso vs. verdadeiro; a investigação da identidade; as realidades alternativas; os alteradores de consciência; as grandes navegações psíquicas. Definido por Ursula K. Le Guin como “o Borges norte-americano”, PKD usou a ficção científica como trampolim para seus mergulhos filosóficos.

Ao lado das anfetaminas, havia outro alimento para sua ficção paranoica: a Guerra Fria. Ficção paranoica é a linhagem literária cujas bases assentam-se sobre a figura do narrador não confiável. E aí temos desde o homem do subterrâneo de Dostoievski até a voz distanciada de Thomas Pynchon, passando pelo George Orwell de 1984, William S. Burroughs de O Almoço Nu, China Miéville de A Cidade e A Cidade, diversos narradores em Roberto Bolaño e praticamente toda a obra de Kafka. 

Na ficção paranoica, uma força opressiva – como um regime totalitário – impõe-se sobre a realidade objetiva, modificando tanto a percepção dos fatos quanto a narrativa desses fatos. Há uma sensação de manipulação dos dados objetivos, favorecida por um clima de medo e insegurança, e a certeza de que há uma realidade soterrada por trás da realidade aparente. Era o clima onipresente nos EUA dos anos 50, quando a corrida armamentista fazia o americano crer que havia um russo escondido em todo armário. (Parece que a sensação prossegue em 2018, mas os russos agora estão nos smartphones.) Na série, alguns adaptadores (há roteiristas e diretores diferentes para cada episódio) transpuseram a paranoia de PKD para cenários contemporâneos. 

Por exemplo, o conto Foster, Você Está Morto cruza o consumismo desenfreado com a corrida nuclear. Ter um abrigo contra as possíveis guerras bacterianas e ataques nucleares é então o must. O pai do jovem protagonista, no entanto, convence-se de que os projetistas dos refúgios subterrâneos criam ameaças para impulsionar as vendas e é contra comprar um abrigo – que custa 20 mil dólares e fornece diversão e comida inesgotáveis. Na adaptação dos roteiristas Kalen Egan e Travis Sentell, Safe and Sound, há uma garota obcecada por um smartwatch chamado Dex, essencial para ajudar a sobreviver a um ataque terrorista. “Fizemos nossa adaptação durante a eleição de um homem que surfa em uma onda de populismo e foi impossível escapar de ressonâncias involuntárias”, escrevem os roteiristas. “Medos culturais que envolvem invasores estrangeiros, segurança pessoal, percepção de perda de status, lacunas ideológicas entre diferentes gerações (…) A obra de PKD sempre vai ser relevante porque as questões que o orientavam diziam respeito à essência da própria vida: o que é humano?, o que é real?”, questiona a dupla. 

Outro episódio, Autofab, situa-se em uma fronteira temporal perigosamente próxima: a alvorada das inteligências artificiais. É uma batalha entre um grupo de humanos pós-apocalípticos e um sistema fabril autônomo que aos poucos consome os recursos naturais do planeta ao criar produtos inúteis. “A fábrica pensa que tudo é substituível. É a cultura do desperdício”, reclama a protagonista para a ciborgue interpretada pela cantora Janelle Monáe. O problema é quando os humanos descobrem que as fábricas reproduzem a si mesmas.

A estética retrofuturista aproxima alguns episódios de Electric Dreams dos filmes Blade Runner e lembra que outra marca de PKD é o transgênero – a maneira como mixa a ficção científica ao policial noir. É o que vemos em The Hood Maker, uma das muitas histórias de PKD usando telepatas. O governo usa uma força de mutantes chamados “teeps” para combater uma aliança rebelde. No entanto, os teeps, uma minoria oprimida, pretendem criam sua própria revolução. O episódio tem ainda um climão romântico, definido pela teep que trabalha para a polícia (Holiday Grainger) e pelo detetive (Richard Madden). Além da direção de arte impecável, a série conta com astros como Vera Farmiga, Terrence Howard, Steve Buscemi e Bryan Cranston (o principal produtor da série).

Os melhores episódios, no entanto, são aqueles em que o retrofuturismo e a crítica social à Black Mirror inclinam-se para o realismo fantástico, típico da lendária série Twilight Zone. Em Planeta Impossível, uma senhora de 350 anos derrete as últimas economias para contratar uma dupla de guias turísticos espaciais picaretas com o propósito de revisitar um paraíso perdido na Terra. Acontece que a Terra, como todos sabem, não existe mais. Só que um dos guias (Jack Reynor), um jovem infeliz abandonado pela namorada fútil, parece igualzinho ao avô da senhora (vivida por uma comovente Geraldine Chaplin). Enquanto se aproximam do destino, vivem um amor improvável – diferente do conto de PKD, que recorrentemente criticava o turismo, predatório e mistificador. 

Há outros episódios que apenas usam a ficção de PKD como inspiração, pouco lembrando a trama original. Contudo, o ponto alto da série, e também do livro, é O Passageiro Habitual (The Commuter), e em ambos a premissa é idêntica. Um passageiro pede um bilhete para Macon Heights, uma estação que não existe. Ed Jacobsen (grande atuação de Timothy Spal), o bilheteiro, vai investigar e descobre uma cidade paradisíaca entre duas estações. Quanto mais o bilheteiro percebe que a fantástica cidade é real, sente que sua existência modifica sutilmente o resto do mundo – o que inclui a existência de seu filho, um garoto encrenqueiro com quem está perdendo a conexão. O que é melhor, apagar o passado para se livrar dos pecados e dos erros, de modo artificial, ou encarar a realidade? Mas qual das duas realidades é a realidade real? Eis um dilema caro a PKD, central em filmes como Vingador do Futuro e O Homem Duplo e que por sua vez inspirou histórias como Her, de Spike Jonze, e Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, de Michel Gondry. Uma pergunta inquietante, à medida que pressentimos o virtual invadir o real, pois, conforme previsto, parece que já estamos vivendo dentro de um livro de Philip K. Dick.

*Ronaldo Bressane é jornalista, tradutor de 'Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?' e autor de 'Escalpo' (editora Reformatório), entre outros livros 

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