Estação Liberdade
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Livro reúne correspondência entre Yukio Mishima e Yasunari Kawabata

Primeiro Nobel de Literatura japonês manteve relação de mestre e discípulo com o autor de 'Sol e Aço'

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

18 de maio de 2019 | 16h00

O escritor Yasunari Kawabata (1899-1972) foi o primeiro japonês a ganhar o Nobel de Literatura, em 1968. Pesou na concessão do prêmio a intervenção do amigo Yukio Mishima (1925-1970), que, a pedido do mestre, escreveu uma carta dirigida à Academia Sueca. Mishima, então, era mais conhecido no Ocidente que Kawabata – e também mais ousado em comparação ao tímido autor de O País das Neves. Desde a publicação do primeiro romance de Mishima, Confissões de uma Máscara, estava claro que ele iria superar o mestre em termos de popularidade e influência literária, ao abdicar da escola romântica japonesa e assimilar os ensinamentos da escola realista, abrindo-se ainda para o decadentismo europeu. Com o tempo, essa amizade, que começou com a proteção paternal de Kawabata e a preocupação filial de Mishima, se transformou em disputa – e o próprio episódio do Nobel alimentou essa rivalidade, pois o prêmio era igualmente ambicionado pelo autor de Sol e Aço. É o que se conclui após a leitura de Kawabata/Mishima: Correspondência: 1945-1970.

Como observa a doutora em Literatura Japonesa Donatella Natili no posfácio do livro, Mishima começou a mudar de opinião sobre Kawabata no começo dos anos 1960. Publicamente, escreve a professora, Mishima elogiava Kawabata e falava bem do seu livro O País das Neves. Entre amigos, dizia que o romance era um “pastiche sem valor” – Mishima preferia A Casa das Belas Adormecidas, para o qual escreveu o prefácio em 1961, justamente o ano em que foi processado pelo ex-ministro do Exterior Hachiro Arita, usado como modelo (sem permissão) do protagonista de Depois do Banquete (Utage no Ato, 1960, inédito no Brasil). Uma carta do mesmo ano enviada por Kawabata garante a Mishima que ele fará tudo que estiver ao seu alcance para salvar o amigo do processo. Não era pouco. Kawabata gozava de prestígio incomum no meio literário japonês (foi diretor do PEN Club) e, de fato, um acordo seria posteriormente firmado entre Mishima e a família de Arita. Estavam ambos quites. Kawabata ajudou no desfecho feliz da ação e Mishima recomendou o amigo à comissão do Nobel.

A correspondência entre os dois, contudo, não permite concluir que a amizade fosse pautada pela troca de favores. Havia um real interesse de Mishima por Kawabata e deste pelo discípulo, a despeito das diferenças de temperamento e da atenção dispensada por cada um deles ao corpo – o primeiro cultuava o físico como um samurai e o segundo era frágil, doente e depressivo. Mishima gostava tanto de Kawabata que pensou em pedir sua filha em casamento – acabou casando com outra, Yoko Sugiyama, e com ela teve dois filhos, mas era tão fiel quanto Casanova. Homossexual que, adolescente, tinha uma relação fetichista com a imagem de São Sebastião pintada por Guido Reni, Mishima não parece ter escondido sua orientação sexual ao mestre, a quem submetia os originais de seus livros, muitos deles tratando de experiências autobiográficas (Confissões de uma Máscara) ou dedicados a explorar o submundo gay no Japão (Cores Proibidas).

Em todo caso, esse é um assunto ausente na correspondência de 25 anos reunida no livro. A despeito de falar inglês muito bem e estar sintonizado com a moderna literatura gay ocidental (Genet e companhia), outros assuntos ocuparam a correspondência entre Mishima e Kawabata, iniciada em março de 1945. A guerra seguia seu curso. Ela chegaria ao fim em setembro com a rendição do Japão, após os ataques nucleares a Hiroshima e Nagasaki, em agosto daquele mesmo ano. O Japão foi impedido de manter forças ofensivas. O panorama, desolador para os japoneses, fora antevisto por Mishima em julho, quando escreveu uma carta a Kawabata. Nela, Mishima revela a desconfiança de que o Japão pudesse produzir uma literatura nacional de relevância na situação em que se encontrava.

Para um escritor que entrou na puberdade, nos anos 1930, testemunhando a instabilidade e violência política – evocado numa obra de juventude, Os Anos Verdes (1950) –, a derrota japonesa na 2.ª Guerra só fez reforçar a concepção que Mishima tinha do nacionalismo quando criança – um episódio, passado em fevereiro de 1936, marcou para sempre o garoto de 11 anos, a tentativa de um golpe de Estado por oficiais radicais do Exército. Mishima simpatizava com os rebeldes. Anos mais tarde, em 1970, repetiria o mesmo ritual, fracassando igualmente. Curioso é que ele escreveu um texto, Patriotismo (1961), antecipando em nove anos o próprio fim. Transformado por ele em filme (Rio de Amor e Morte, 1966), Patriotismo é a história de um casal, um tenente de 31 anos e sua esposa mais jovem, de 23, abalado pelo envolvimento de amigos próximos com os amotinados. O tenente, mesmo não tendo participado da rebelião, decide colocar um ponto final nessa angústia, por meio do seppuku (ritual suicida praticado por guerreiros e samurais). Suas últimas palavras: “Vida longa para as Forças Imperiais’. Seriam mais ou menos as mesmas de Mishima quando recorreu ao mesmo ritual, em 25 de novembro de 1970, após desfilar (três semanas antes) no telhado do Teatro Nacional na celebração do primeiro aniversário de formação da Sociedade do Escudo, milícia criada pelo autor para defender o imperador. Patriotismo será lançado pela primeira vez no Brasil este ano, pela editora Autêntica.

Homem culto, refinado, criado em lar aristocrata – a avó não o deixava sair à rua, como contava, o que a cinebiografia Mishima, de Paul Schrader, confirma –, Mishima foi sempre um homem dividido entre Oriente e Ocidente. Lia Heine (Der Romantische Schule) falando mal de Goethe (“infértil e estéril”), ao mesmo tempo que estudava a música de Chopin analisada por Cortot, arranjando ainda tempo para baladas ”selvagens” de “rapazes e moças delinquentes” (isso em 1951, época em que o rock engatinhava nos EUA). Um ano depois estava cobiçando os corpos de morenos cariocas no carnaval, elogiando para Kawabata a “descontração” dos brasileiros.

Em meados dos anos 1950 – em 1956, para ser preciso – Kawabata escreve uma carta para Mishima em que demonstra uma ponta de inveja do discípulo. É que na tradução americana de O País da Neves pela editora Knopf, o autor é citado como “o homem que descobriu Yukio Mishima”. Será que o apresentavam assim por não praticar fisiculturismo e levantar pesos, pergunta Kawabata. “É possível que um dia meu nome reste na história da literatura somente pelo honrado equívoco de que fui eu quem descobri você”, ironiza. Mishima tenta consertar a situação. Diz que os americanos “não são assim tão estúpidos”, mas teme que lhes falte capacidade para entender a literatura japonesa. Kawabata não se convence. Inveja a juventude e a beleza de Mishima, eternizadas em filmes em que interpreta ronins (O Castigo/Hitokiri, 1969) ou mostra o corpo mais que o necessário (Rito de Amor e Morte/ Yûkoko, 1966).

Kawabata diz que o que lhe resta como homem velho e decrépito é posar para Cecil Beaton reclinando-se sobre as cabeças de Buda das ruínas do Afeganistão – um “rosto miserável para exportação”, segundo sua avaliação. Kawabata, em 1957, pensa em fazer um tour pelo exterior, mas a culinária ocidental não faz bem a seu estômago. Mishima dá de ombros e diz que a comida americana é ótima. Lamenta apenas que, ao visitar Los Angeles, ficou alojado no mesmo hotel que Nixon ocupava e servia de base das eleições para o Partido Republicano, em 1960. Por outro lado, adorou a Disneylândia.

A admiração de Kawabata e seu sentimento ambivalente por Mishima crescem. Em 1963, Kawabata fica assombrado pela leitura de O Marinheiro que Perdeu as Graças do Mar, que trata justamente do sentimento hostil de um adolescente pelo amante marinheiro da mãe quando percebe sua tentativa de substituir o pai morto. “Nunca poderei atingir seu patamar”, admite Kawabata. E não só como romancista. Inveja também a influência de Mishima como crítico, lendo mais de uma vez o ensaio de Mishima sobre Fusao Hayashi (1903-1975), expoente da literatura enjagada no Japão (ele defendia uma literatura que denunciasse as condições do proletariado e posteriormente fez a apologia do militarismo e a crítica do pacifismo esquerdista). Hayashi foi, sim, o mentor de Mishima. Kawabata, o pai, presenteava o filho com mimos caros (em 1964, ofereceu ao pupilo uma escultura de Maillol). Mishima esnobou o presente, dizendo que não estava certo se a Leda de Maillol ficava melhor dentro ou fora de casa, ao lado de uma escultura de Apolo. Kawabata admitiu, finalmente, que a escultura de Maillol era uma cópia feita no Japão.

Mishima, tentando reanimar o amigo, sempre doente e deprimido, elogia, em 1967, sua literatura. Diz (contra a vontade) que O País da Neves o remete ao movimento neossensorialista (considerado o início do modernismo literário no Japão), comparando a sensibilidade de Kawabata a Proust. Dois anos depois muda o discurso e foca em sua vida pessoal e no seu envolvimento com a milícia que formou. As cartas ficam cada vez mais curtas. Mishima vira um fanático de direita. Após sua morte, Kawabata fica inconsolável. Ele, que era contrário à ideia do suicídio, acabou se matando, inalando gás em sua casa, no dia 16 de abril de 1972.

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