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Livro reúne doze ensaios que tentam explicar o ensaio

Textos foram publicados originalmente na revista 'Serrote', do IMS, que chega à 30.ª edição

André Martins*, O Estado de S.Paulo

05 de janeiro de 2019 | 16h00

É possível definir o ensaio? A pergunta encabeça o texto de Jean Starobinski que abre a coletânea de doze ensaios organizada pela revista Serrote para comemorar sua trigésima edição. A seleção se sustenta sobre a teia de uma problemática comum: a do próprio ensaio como gênero – objeto que se revela, pela sua própria natureza, escapadiço.

Starobinski nos apresenta uma primeira ambiguidade daquele que é, na expressão do crítico português João Barrento, o “gênero intranquilo”. A palavra “ensaio”, escolhida por Montaigne para batizar os textos que reúne em volume a partir de 1580, era então usada na linguagem corrente para designar tanto “prova”, “exame” (e também, por extensão, “investigação” e “experimento”) quanto a noção mais incerta de “tentativa”. Esta, mais comum no francês contemporâneo, é aquela normalmente invocada pelos apologistas e detratores do ensaio, quando nele pensam como forma literária de um tipo de reflexão despreocupado, assistemático, livre. Surgem aí as duas imagens ideais, mais ou menos conflitantes, entre as quais transitará o ensaio: a de um laboratório, onde o ensaísta submete seu material a uma série de testes com recursos que podem variar, sem deixar de aspirar a um ideal de conhecimento mais elevado, e a do “movimento de uma mente livre quando brinca”, no dizer de Cynthia Ozick, autora de um dos ensaios da coletânea.

Há, também, uma ideia que tenta conciliar os dois polos, do ensaio como uma espécie de “gaia ciência”, uma forma de saber que, sem se submeter aos axiomas da ciência moderna, é capaz de revelar o que seu primo mais austero, o tratado científico, não consegue, justamente por estar o ensaio desobrigado do “esgotamento” do material. Esse conceito tem sua expressão mais acabada no famoso ensaio de Theodor Adorno sobre o ensaio (que não consta da antologia aqui resenhada). Max Bense, cujo texto lapidar compõe a seção mais intensamente teórica da antologia, ao lado de Georg Lukács, expressa o potencial do ensaio como categoria do conhecimento com rara precisão. Para ele, o procedimento ensaístico de manipulação do objeto pela multiplicação dos pontos de vista e tons de luz não é absolutamente estranho à ciência – é complementar à investigação “dedutiva e axiomática” que visa à substância, na medida em que nos conduz às realidades não menos importantes da configuração e da atmosfera.

Os textos oscilam entre uma abordagem que procura identificar os atributos de um gênero literário e outra, que prioriza a investigação da “atitude mental”, tomando aqui emprestada a expressão de Lucia Miguel Pereira em seu texto sobre os ensaístas ingleses, à qual o ensaio dá corpo literário. Seria aqui o caso de dizer que ao ensaio subjaz uma ontologia cujas determinações diferem de outras formas de expressão literária. Desse modo, a abordagem histórico-nominalista, que identifica em Montaigne o fundador do gênero e o ensaísmo inglês dos séculos 17 e 18 como o período que lhe traça os contornos modelares, dá lugar à possibilidade de ler textos de outras épocas e culturas como ensaios – como faz Georg Lukács com os diálogos platônicos no ensaio-carta que é provavelmente o ponto alto da antologia.

O que nos leva à intrigante sugestão de que haveria elementos da realidade naturalmente resistentes a um modo de investigação estritamente teórico (como sugeriu Paul de Man sobre a própria literatura) e pertenceriam, portanto, ao domínio do ensaio. A julgar pelo fato de a reflexão que se ocupa diretamente do ensaio ter normalmente como veículo o próprio ensaio, ele mesmo parece pertencer a essa parcela da vida. Mesmo o intento originalmente científico do ensaio pode se tornar secundário, à medida que o ensaísta descobre, em meio ao seu proceder, que, tendo partido em busca da verdade, foi conduzido pelo ensaio à descoberta de algo bem diferente do esperado: a vida. É um pouco nesse espírito que Cynthia Ozick defende que o ensaio é simplesmente indefinível como coisa, como um quê, mas pode ser dito como um quem – nesse caso, como personagem (feminina), com humores e inclinações próprios, sempre pronta a fazer algo imprevisível.

Será que há lugares, espaços existenciais completos, para os quais o ensaio está particularmente vocacionado como modo de dizer? É o que sugere a proliferação do ensaio na América Latina. Se pensarmos no fato de os Tupinambás da Guanabara terem tanto inquietado a mente de Montaigne, ou ainda nas interpretações canônicas das culturas ao sul do Rio Grande, como o Facundo de Sarmiento, o Ariel de Rodó e, por que não, os famosos “ensaios de interpretação do Brasil” de autores como Paulo Prado, Sérgio Buarque e Gilberto Freyre, podemos concluir que “nossa América” pode ser um lugar indizível num discurso mais sistemático e “sério”. Ela própria é, nas palavras de Germán Arciniegas, autor do sétimo ensaio da antologia, um ensaio. Contrariamente ao que se pode daí inferir, isso não quer dizer que o destino dessas partes é ainda e sempre postergado pela impossibilidade de “dizer como é” de forma reta e precisa. Para a contemporaneidade incerta em que vivemos, e não somente na América Latina, a solução epistemológica (e ética) mais saudável talvez seja, conforme a sugestão de Christy Wampole no texto que fecha o livro, a “ensaificação de tudo”: dar livre curso, no pensamento e na vida, às digressões, às dúvidas, ao que se abre.

*André Martins é historiador e tradutor

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