Stephanie Mitchell/Harvard Staff Photographer
Stephanie Mitchell/Harvard Staff Photographer

Livro reúne ensaios do principal crítico literário da atualidade

'A Coisa Mais Próxima da Vida', de James Wood, o coloca no panteão de críticos como Harold Bloom e Edmund Wilson

Paulo Nogueira*, Colaboração para o Estado

28 Outubro 2017 | 16h00

A crítica literária, se não a literatura, vai muito bem, obrigado. Talvez sintoma disso é que, em pleno Réveillon de 2016, o New York Times publicou um alentado suplemento especial onde seis críticos explicavam tintim-por-tintim em que diabo a crítica consiste. Um deles era Michiko Katukani, resenhista-chefe do NYT, que há um mês pendurou a chuteira, passando implicitamente a bola para James Wood como a voz mais proeminente entre os palpiteiros literários em inglês. Mais ou menos como se CR7 sucedesse a Messi (ou vice-versa). 

A hermenêutica anglo-saxônica tem um pedigree que é puro sangue azul. Na virada do século ainda pontificavam titãs como George Steiner e Harold Bloom. Mas Steiner é no fundo um pensador da cultura. E Bloom meio que caiu do cavalo ao degenerar numa espécie de “fábrica de exegeses”, com a coleção da Chelsea House, cada um dos trocentos volumes editado e prefaciado por ele, numa média de 15 títulos e três prefácios por semana – só a letra A da coleção tem A. E. Housman, Agatha Christie, Albert Camus, Aldous Huxley, Alexander Pope, Alexander Pushkin, Aleander Solzhenitsyn, Alfred Lord Tennyson, Alice Munro, Alice Walker (e por aí vai, continuando pela letra A rumo à longínqua letra Z). O próprio James Wood canelou Harold Bloom: “Ele já foi o maior, mas virou um tagarela incontinente.” Bem, o tagarela incontinente retaliou com fidalguia: “Wood é o melhor crítico de sua geração.”

James Wood é um admirador da boa e velha trama. Em Como Funciona a Ficção já esculhambava a baboseira segundo a qual o realismo literário é uma “simplória convenção morta, relacionada com certo enredo tradicional, com início e fim previsíveis, que trata as personagens com humanismos convencionais e supõe que haja um elo de ingenuidade estável entre a palavra e o mundo, tudo tendendo ao fortalecimento de uma política conservadora.” Resumo da ópera: pós-estruturalistas e pós-modernos não se conformariam que, nesta altura do campeonato, um romance ainda tenha uma história para contar. 

Wood nasceu na Inglaterra em 1965, filho de um clérigo (foi coroinha) e de uma professora. Formado em Cambridge, resenhou livros para o Guardian até 1995, quando se mandou para os EUA, fazendo baldeação da New Republic para a New Yorker, num pedestal já habitado por Edmund Wilson e John Updike. Também dá aula de crítica literária em Harvard (após assessorar Saul Below na Universidade de Boston). 

Porém, Wood pode ser tudo menos um “scholar”. Afinal, inúmeros acadêmicos sabem tudo sobre literatura – menos como se divertir com ela. Wood é um gourmet (ou um enólogo) da melhor cepa literária: para ele, o sabor não é irrelevante. E com uma idiossincrasia passional assumida – afinal a crítica não é uma ciência exata (aliás, desde o princípio da incerteza nem a ciência faz questão da exatidão). 

Por isso mesmo, vira e mexe Wood exalta e cita os ficcionistas-críticos, ignorando aquela picuinha maniqueísta entre os dois lados da barricada. Já George Steiner tinha gemido: “Quem seria crítico, se pudesse ser escritor?” Por trás dessa dicotomia, pulsa outra ideia redutora, como se só quem foi jogador pode ser técnico de futebol. Como zoou Brendan Behan: “Os críticos são como eunucos num harém. Eles sabem como se faz, veem aquilo todo dia, mas não conseguem fazer.” Enfim, o preconceito obtuso de que o crítico é uma pessoa que conhece o caminho, mas não sabe guiar o carro.

Essa tripla encruzilhada James Wood tira de letra (com trocadilho): é resenhista, acadêmico e escreveu um romance: The Book Against God (2003). Como se não bastasse, casou com uma (boa) romancista, a americana Claire Messud. E parece que Messud assumiu a ficção do casal: “Quando se escreve um romance, a gente precisa de toda a ternura do cônjuge para aguentar o tranco. Fiquei com a pajeação”, se resigna Wood.

A Coisa Mais Próxima da Vida, o novo livro dele, é tanto crítica quanto autobiografia. O título remete, claro, à literatura, ecoando a sacada de Marilynne Robinson, um dos xodós contemporâneos do autor (a par de Elena Ferrante e Karl Ove Knausgard), de que “nada é mais humano do que um livro”. A obra começa com o funeral de um amigo, e é dedicada à mãe do autor, que morreu no ano passado. 

Para Wood, literatura é sabedoria até num sentido utilitário: “Muitas vezes senti que uma compreensão essencialmente romanesca da motivação me ajudou a tentar descobrir o que alguma outra pessoa realmente quer de mim, ou de outra pessoa. Às vezes, chega a ser assustador perceber o grau de pobreza com que a maioria das pessoas se conhece; parece nos colocar em uma posição de vantagem quase sacerdotal em relação às almas das pessoas. Na ficção temos o grande privilégio de ver como as pessoas se inventam – como elas se constroem com fantasias e então optam por reprimir ou esquecer ele elemento que faz parte delas mesmas.”

Claro que os críticos pisam na bola (para continuar com as metáforas futebolísticas). Voltaire esnobou Dante e Shakespeare. H. L. Mencken espezinhou O Grande Gatsby. Vladimir Nabokov considerou Dostoievski “um medíocre autor de platitudes literárias”. Mas isto não significa que gosto não se discuta: na literatura, a subjetividade participa não apenas da criação e da crítica, como também da leitura. O grande romance é customizado por cada um de nós. Como notou Edmund Wilson, nunca dois leitores leram o mesmo livro.

E como acrescentou Antônio Lobo Antunes: o nome do leitor deveria vir na capa do romance, junto com o do autor. Aliás, deriva daí uma das atraentes conjecturas de James Wood: se todo leitor é um coautor, o crítico é um leitor que relê a história para nós, quase que em voz alta, só que pondo os pingos nos is. 

Nas passagens sobre seu expatriamento, Wood revela a proficiência descritiva de um ficcionista: “Olhando para nossa rua de Boston, no auge do verão. Vejo uma vida familiar: as casas de madeira, os alpendres, a miragem pairando sobre o mosaico da rua (serpentes de asfalto como chiclete preto), o cimento cinzento das calçadas (que três jovens haviam assinado quando estava fresco), o salgueiro despenteado, um velho Cadillac com o adesivo no para-choque: ‘Ted Kennedy matou mais gente do que a minha arma’. Já quando volto à Inglaterra há um aspecto de faz de conta, como se estivesse vestindo meu terno de casamento para ver se ainda serve.”

Por essas e outras, ler um grande crítico pode ser um prazer tão literário quanto ler um grande romance. Em que pé ficamos? Menosprezar os críticos, como fizeram e fazem tantos artistas, e nem sempre de forma involuntariamente engraçada, como o produtor cinematográfico Samuel Goldwin (“Não prestem qualquer atenção aos críticos, sequer os ignorem!”)? Nem pensar. Afinal, como tascou T.S. Eliot: “Há quem diga que os críticos literários são escritores fracassados. Bom, mas isso a maior parte dos escritores também é.”

*Paulo Nogueira é escritor, autor de 'O Amor é um Lugar Comum' (editora Intermeios) 

Mais conteúdo sobre:
Crítico de Arte Literatura

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.