La Tercera Chile
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Livro reúne obra do 'antipoeta' chileno Nicanor Parra

'Só para Maiores de Cem Anos' é a primeira antologia brasileira do escritor morto em 2018

Ronaldo Bressane*, Especial para o Estado

02 de fevereiro de 2019 | 16h00

Antisentimental. Antipomposo. Antiépico. Anticlerical. Anti-hermético. Antilivresco. Nicanor Parra é muitas vezes definido por aquilo que ele não é: um anticorpo na poesia latino-americana e hispânica em especial, e na poesia chilena em particular. Mas talvez fosse mais acurado definir Nicanor Parra como um antídoto: uma substância que neutraliza um veneno. E os venenos contra os quais sua poesia se insurgia dos anos 1940 aos 2010 foram a grandiloquência, a solenidade, o lirismo ingênuo e meloso, a épica metrificada, a emoção fingida. “Contra o poeta demiurgo, o poeta mortal e ordinário; contra o poeta de salão, o poeta das ruas; contra o poeta cheio de si, o poeta que ri de si mesmo; contra a poesia da lua, da donzela e das flores, a poesia da tumba, do espirro e do sangue do nariz”, escrevem os tradutores Joana Barossi e Cide Piquet no prefácio de Só Para Maiores de Cem Anos (Editora 34), primeira antologia brasileira a reunir poemas do chileno morto em 2018, aos 103 anos.

Pois é: o Brasil demorou décadas para conhecer os versos deste mestre negativista. Na verdade, os tradutores preparavam esta edição havia alguns anos. Mas, em 2015, a morte da agente literária de Parra, a lendária Carmen Barcells, acabou atrasando a edição. O que não nos exime da culpa de ter babado tanto tempo nos versos lacrimejantes de Pablo Neruda em vez de nos divertir com a sabedoria ácida de seu conterrâneo. Afinal, Parra já era bem conhecido pelo mundo. Antes mesmo de ser apontado pelo crítico Harold Bloom como “um dos melhores poetas do Ocidente”, um de seus divulgadores foi Lawrence Ferlinghetti, pioneiro beatnik (da geração de Parra, em 2019 faz 100 anos), que traduziu os AntiPoemas em 1960, quando o levou para viajar pelos EUA e conhecer Allen Ginsberg. Em 1967, Parra foi traduzido por William Carlos Williams, pai do modernismo norte-americano. Em outra viagem aos EUA, em 1970, Parra foi recebido pelo casal Nixon na Casa Branca, o que atiçou a fúria da esquerda e o fez ser expulso do júri do Casa de Las Américas, importante prêmio cubano. O fato de Neruda ser filiado ao Partido Comunista e ferrenho opositor do conservadorismo chileno opôs, aos olhos de críticos e leitores, os dois poetas.

No entanto, Parra era um anarquista pacifista, demolidor de fundamentalismos e do culto à personalidade do comunismo da época: “Não creio na via pacífica/ não creio na via violenta/ eu gostaria de crer/ em algo – mas não creio/ crer é crer em Deus/ a única coisa que faço/ é encolher os ombros/ me perdoem a franqueza/ não creio nem na Via Láctea”, escreveu, em um poema de 1972; “não sou de direita nem de esquerda/ eu simplesmente rompo os modelos”, escreveu em Telegramas, de 1969. Não se considerava rival de Neruda, que prefaciou seu primeiro livro, mais tarde renegado por Parra; em 2004, quando lhe perguntaram qual o pior poema do Nobel, esquivou-se: “Neruda morreu antes de escrever seu pior poema”. Neruda viveu e foi sepultado a poucos quilômetros da residência em que Parra passou seus últimos anos, no balneário Las Cruces, na costa central chilena, onde o antipoeta viveu quase no ostracismo. Quando Neruda faleceu, em 1973, dias depois do golpe de Estado que instalou a ditadura – e suspeita-se que sua morte tenha sido encomendada por pinochetistas –, a esposa do vate impediu que Parra entrasse no velório. “Ao contrário de Neruda, que falava do povo, Nicanor falava como o povo”, escreveu o crítico literário chileno Camilo Marks sobre as diferenças entre os antagonistas.

De fato, a turma de Parra, tipos como Alejandro Jodorowsky e Enrique Lihn, estava fora do establishment. Nos anos 1990 e 2000, seu grande entusiasta no mundo hispânico foi Roberto Bolaño: “Não foram capazes de lidar com Parra nem a esquerda chilena de convicções direitistas nem a direita chilena neonazi nem a esquerda latino-americana neoestalinista nem a direita latino-americana globalizada nem os medíocres professores latino-americanos das universidades estadunidenses nem os zumbis que passeiam pela aldeia de Santiago. Não só Parra, mas também seus irmãos, Violeta à frente, puseram em prática uma das máximas ambições da poesia de todos os tempos: encher a paciência do público”.

Irmã mais nova, Violeta Parra, mais famosa figura da música chilena, embala um dos raros exemplares do lirismo de Nicanor, Defesa de Violeta Parra, escrito após seu suicídio: “Doce vizinha da verde floresta/ hóspede eterna do abril florido/ grande inimiga dos pés de amora/ Violeta Parra/ jardineira/ louceira/ costureira/ bailarina da água transparente/ árvore cheia de pássaros cantores”. O lirismo, ainda que enviesado, comparece em poemas de dor-de-corno, como Acácias: “Passeando há muitos anos/ por uma rua de acácias em flor/ soube por um amigo bem informado/ que você acabara de casar./ Respondi que claro/ que eu não tinha nada a ver com o assunto./ Mas apesar de nunca ter te amado/ – isso você sabe melhor do que eu – / cada vez que florescem as acácias/ – imagine só – / sinto a mesma coisa que senti/ quando me deram um banho de água fria/ com a notícia tão desoladora/ de que você se casara com outro.”

Mas é a derrisão o registro característico da poética de Parra, que, se no começo ainda brincava com decassílabos rimadinhos, aos poucos abandonou os ecos propositais e abraçou os versos livres, cheios de ironia, sarcasmo e humor negro (no que recorda Millôr Fernandes), se aproximando do prosaísmo e da oralidade (“ritmo inumerável” que lembra Manuel Bandeira e Oswald de Andrade) contaminado de um surrealismo habitado por imagens imprevistas (aparentando-se a Murilo Mendes), aditivado por um apaixonado niilismo (decerto Paulo Henriques Britto deve curtir), esculpindo em cada verso a autonomia de um slogan de guerra (“uma pedrada lançada na direção do leitor”, definiu).

Nada escapa ao seu discurso insubordinado, a perseguir uma ética antidogmática. Nem a igreja (“Independentemente/ dos desígnios da Igreja Católica/ me declaro um país independente”), nem o cristianismo (“Por enquanto a cruz é um avião/ uma mulher com as pernas abertas”), nem o capitalismo (“Como turista sou um fracasso completo/ só de pensar no Arco do Triunfo/ toda minha pele se arrepia./ Eu venho das pirâmides do Egito./ Em verdade em verdade/ as catedrais me dão nos nervos”), nem a glória (“A fortuna não ama quem a ama:/ esta pequena folha de louro/ chegou com anos de atraso”), nem a psicanálise (“Pássaro com penas na boca/ já não se pode mais com o psiquiatra:/ tudo ele relaciona com o sexo”), nem o nacionalismo (“Acreditamos ser país/ e a verdade é que somos apenas paisagem”), nem a literatura (“Antes de me despedir/ tenho direito a um último desejo:/ generoso leitor/ queime este livro”), nem a poesia (“Durante meio século/ a poesia foi/ o paraíso do bobo solene/ até que cheguei eu/ e me instalei com minha montanha-russa”), nem a terceira idade (“O que ganhará falando ao telefone/ o que ganhará se tornando famoso/ o que ganha um velho se olhando no espelho/ Nada/ além de afundar ainda mais na lama”), e sequer a própria morte (“A morte não respeita nem os humoristas de boa cepa/ para ela todas as piadas são ruins/ apesar de ser ela em pessoa/ quem nos ensina a rir”).

A inversão do alto e do baixo atravessa cinco décadas de sua lira, mas já em Manifesto, de 1963, o chileno dinamita a mística do poeta como ser escolhido. “Os poetas baixaram do Olimpo/.../ o poeta não é um alquimista/ o poeta é um homem qualquer/ um pedreiro que constrói seu muro:/ um construtor de portas e janelas.” Investindo contra toda e qualquer instituição, Parra não poderia deixar de inocular o veneno em seu próprio eu-lírico: “Me defino como homem razoável/ não como professor iluminado/ nem como vate que sabe de tudo./ Claro que às vezes me pego fazendo/ o papel do galã incandescente/ (porque não sou um santo do pau oco)/ porém não me defino como tal./ Sou um modesto pai de família/ um ferrabrás que paga seus impostos./ Nem Nero nem Calígula:/ um sacristão/ um homem ordinário/ um aprendiz de santo do pau oco.” 

Prova de coerência, em um poema dos anos 1940, Epitáfio, o chileno se atirava não numa escada para o sucesso, mas numa rampa para o fracasso: “Nem muito esperto nem doido varrido/ fui o que fui: uma mescla/ de vinagre e azeite de oliva/ um embutido de anjo e de besta.” Tanto veneno, porém, nunca descamba para o cinismo, pois, na recusa à glória, Parra se irmana com o leitor em um compromisso radical com a liberdade: “Em poesia tudo é permitido”. Assim, a salvação à espécie humana só reside no amor carnal. “Sete são os temas fundamentais da poesia lírica/ em primeiro lugar o púbis da donzela/ depois a lua cheia que é o púbis do céu/ os bosquezinhos abarrotados de pássaros/ o crepúsculo que parece um cartão-postal/ o instrumento musical chamado violino/ e a maravilha absoluta que é um cacho de uvas.” 

Embora tenha faturado todos os prêmios possíveis (menos o Nobel) em sua última década, Parra, um Pepe Mujica da poesia, era um espartano que ganhava a vida dando aulas de matemática e física, estacionando seu velho Fusca em frente à modesta casa de onde descortinava o Pacífico (conforme Joana Barossi descreve no posfácio). Sobrevivendo sob ostracismo e fascismo, Parra é um “sol negro” apropriado a servir de antídoto aos nossos “tempos calamitosos”, em que “o ar está sujo/ e respirar é um ato falho”. Tem muito a nos ensinar um subversivo que extrai até da morte a alegria de viver: “Morto não se levante dessa tumba/ você é feliz cadáver é feliz/ não ressuscite por nenhum motivo/ você tem a morte inteira pela frente.”

*RONALDO BRESSANE É JORNALISTA E POETA, AUTOR DE ‘METAFÍSICA PRÁTICA’ (OITO E MEIO), ENTRE OUTROS LIVROS

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