Editora Relume Dumará
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Livro reúne os diários de Franz Kafka escritos entre 1909 e 1912

Primeiro volume revela pessimismo do autor de 'A Metamorfose'

Paulo Nogueira*, Especial para o Estado

23 de março de 2019 | 16h00

Enquanto gênero literário, o formato “diário” é excêntrico como um ornitorrinco. O autor escreve para seus botões, não processando o texto com recursos ficcionais, e rola uma quase simultaneidade entre as entradas e os eventos descritos. Também ao contrário das autobiografias ou memórias, o relato não é linear ou coeso, mas rapsódico, espasmódico, poroso – mais confetes do que serpentinas. 

Nos melhores casos, como aqueles salgadinhos que a gente não consegue parar de comer (“Juro que este é o último!”). O leitor se sente como um voyeur convidado. Daí a confissão de Oscar Wilde: “Nunca viajo sem o meu diário. É legal ter uma coisa apaixonante para ler no trem”. As editoras brasileiras já desconfiaram: depois dos Diários de Sylvia Plath, sai o primeiro volume do de Franz Kafka (L&PM). Faço figa para que o próximo seja o de Virginia Woolf, que o escreveu com duas luvas: uma de pelica e outra de boxe. 

Kafka (K) morreu em 3 de junho de 1924, num sanatório de Viena, aos 40 anos. Há sete anos era fustigado pela tuberculose, e naquele verão o estado da sua garganta tornara uma tortura comer ou beber, condenando-o à morte por inanição. Na época, K escreveu o conto Um Artista da Fome, sobre um cara cuja arte é o jejum – um dos textos mais patibulares da obra do escritor (e olhem que a concorrência é renhida). 

Max Brod, amigo de Kafka, foi instruído por este a queimar todos os seus manuscritos. Max fingiu que não ouviu: “Se Franz quisesse mesmo isso, teria nomeado outro testamenteiro”. Brod organizou também os diários, originalmente dispersos em 13 cadernos, numa cronologia errática e uma lógica destrambelhada. Por vezes, o diarista escrevia da última página para trás, bem como da primeira para frente, de modo que as entradas se encontrassem no meio. 

Teria K sido um workaholic da derrota, o campeão mundial e invicto do revés? Walter Benjamin trolou-o para seu amigo Gershom Scholem: “Para fazer justiça à Kafka, devemos reconhecer que é a beleza e a pureza de um fracasso.” Como Milan Kundera (outro checo), Benjamin odiava a canonização de K como santo e gênio martirizado, tipo Mozart. Mais tarde, Jorge Luís Borges porá os pingos nos is: “Se Kafka não terminou muitas de suas obras, é porque elas eram intermináveis. Não há solução para o dilema de K.” No fundo, a tal dica de Samuel Beckett: “Tente de novo. Falhe de novo. Falhe melhor.”

Nos Diários, inúmeras entradas são um chororô lancinante, dignas de uma carpideira italiana. “Ontem incapaz de escrever uma vírgula. Hoje, pior ainda. Quem me salvará?” Ou: “Desespero total, impossível me recompor: só quando me sentir satisfeito com o sofrimento posso parar”. Ou curto e grosso: “Nada”. Para os mais perversos, um dos deleites do diário é o que os alemães chamam de “Schadenfreude”, ou a alegria com as dores alheias. E parece que às vezes K adivinha isso, o leitor espiando por cima do seu ombro – e abre o bueiro. Claro que K não inventou o pessimismo: apenas o aperfeiçoou. Como disse o escritor vitoriano Arnold Bennett: “O pessimismo, quando você se acostuma com ele, pode ser tão agradável quanto o otimismo”. Para K, se o tempo não curava todas as feridas, ao menos feria todas as curas. Era um modo de ver o copo meio cheio (de arsênico).

Quando inicia o diário, K reclama com sua noiva Felice Bauer: “Não fiz nada meses a fio”. Apesar disso, tornara-se proprietário parcial de uma pequena fábrica de amianto em Praga e batia perna pela Alemanha, Áustria e Itália. Por outro lado, esse marmanjo de 28 anos ainda vivia com os pais (como os atuais millennials). E não era nenhum monge: tinha amigos, ia ao teatro, frequentava cafés. Não exatamente um pegador, era mulherengo: foi noivo e amante, passou numerosas cantadas (meio canhestras é verdade) e frequentou bordéis. Ao visitar a casa de Goethe em Weimar, teve um “crush” instantâneo pela filha do zelador. Talvez haja dado um empurrãozinho o fato de ela se chamar Margarethe (apelido: Gretchen), como a jovem ingênua seduzida por Fausto depois do pacto com Mefistófeles. 

Pois para K (como para Joyce ou Flaubert, seu autor favorito), a literatura estava aberta 24 horas por dia, sete dias por semana. “Tudo o que sou é literatura, e não quero nem sou capaz de ser outra coisa”. Daí que as fatias de pão deste hot-dog possam ser o desespero e a lassidão, mas a salsicha é sempre a escrita ficcional. Daí também aquele solipsismo burlesco, como na célebre e concisa entrada de 2 de agosto de 1914: “A Alemanha declarou guerra à Rússia. Natação à tarde.”

Os diários de K são kafkianos? Mas que diabo é isso? Um dos biógrafos do autor, Frederick R. Karl, acha que abusam do adjetivo. “Se pego um ônibus e descubro que os ônibus já não circulam mais, isso não é kafkiano. Agora quando ingresso num mundo em que meus padrões de controle e o modo como configuro minha conduta entram em colapso, e quando encontro uma força alheia à maneira como percebo o universo – e você não desiste, não se deita e morre, mas luta contra isso com todos os seus recursos, embora nunca tenha tido a menor chance... Bom, isso sim é kafkiano.”

Os diários de K são kafkianos, mas também aforísticos. O aforismo é aquele formato telegráfico que o escritor austríaco Thomas Bernard desdenhosamente descreveu como “uma pequena arte da asma intelectual, frases de efeito que acabam adornando as paredes da sala de espera de dentistas.” 

Bom, não os de K, não como este: “Há esperança, suficiente e até infinita esperança. Mas não para nós.” A meu ver, devemos ler estes diários mais como uns canapés (“happy hour” kafkiano seria um oximoro) do que como uma refeição regular. Há abobrinhas insípidas, mas também epifanias arrebatadoras. Não convém esquecer que, se alguém inventou o kafkiano, provavelmente foi Kafka. 

*PAULO NOGUEIRA É AUTOR DE ‘O AMOR É UM LUGAR COMUM’ (INTERMEIOS)

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