KRISTA FLEISCHMANN, 1991
KRISTA FLEISCHMANN, 1991

Livro reúne poemas do escritor nonsense austríaco Ernst Jandl

Assim como os autores Edward Lear e Daniil Kharms, também nonsense, Jandl manifestou o desejo de visitar o Brasil

Dirce Waltrick do Amarante*, Especial para o Estado

22 de junho de 2019 | 16h00

Além de uma linguagem que desestabiliza o sentido, o que alguns escritores nonsense têm em comum parece ser a vontade de vir ao Brasil, ainda que muitos nunca tenham colocado os pés por aqui. Esse é o caso do inglês Edward Lear, um dos pais do nonsense vitoriano, que deixou registrada sua vontade de morar no Brasil, mais especificamente no “Pára” (escrito exatamente assim), onde a vida seria “boa e barata” e ele comeria lagartas. Ficou na vontade. O russo Daniil Kharms criou uma viagem ficcional ao Brasil no conto intitulado Sobre Como Kolka Pánkin Viajou para o Brasil e Sobre Como Pietka Erchóv Não Acreditou em Nada, mas até o Brasil do conto era ficcional. O austríaco Ernst Jandl também alimentava o desejo de conhecer este país tropical, principalmente depois de ter se encontrado com o poeta Augusto de Campos, nos anos 1970, na Universidade do Texas. Jandl manifestou essa vontade – frustrada, já que nunca esteve por aqui – no poema Calipso. Nele, lê-se, numa escrita babélica que leva em conta a oralização das palavras, “não fui not yet/ ao brasil/ pro brasil/ eu uuld laik to go/ já que entendo/ um tan’ de languages/ quero entender também/ a language do rio”.

Jandl ficaria muito feliz em saber que, 19 anos após a sua morte, ele finalmente desembarcaria no Brasil com o livro Eu Nunca Fui ao Brasil (Editora Relicário), competentemente traduzido e organizado pela estudiosa do nonsense Myriam Ávila, que, aliás, tentou sem sucesso trazê-lo em pessoa ao país (shi uuld laik..., eu diria).

Eu Nunca Fui ao Brasil traz um ótimo panorama do que se pode encontrar na obra de Jandl, que não se considerava um poeta nonsense, ainda que tenha poemas como A Taça Verde – “dá tranquilo pra nadar/ numa taça de cristal/ verde quando se é/ inseto centesimal” –, ou como Coro Duplo (poema em prosa) – “era uma vez um homem chamado NEPOMUCENO, a quem a mulher perguntou: ‘que horas são? Que horas são?’ ‘uma’ disse NEPOMUCENO, ‘vez por todas tire o dedo daí’”.

Nonsense ou não, o fato é que Jandl fazia ousadas experiências com a linguagem à moda, muitas vezes, de Gertrude Stein e de John Cage, dois escritores que ele próprio traduziu. A partir dessas traduções, Jandl parece haver incorporado novos elementos à sua própria escrita.

De Gertrude Stein talvez venha a sua obsessão com o present continuous, algo que não tem passado nem futuro, que se passa sempre “no agora”, sem evolução. É o que se lê em Cinco Tercetos, que, embora dedicado a Wendelin Niedlich, editor galerista devotado à vanguarda, bem poderia ser dedicado à escritora norte-americana: “agora então eu sento/ agora então estou sentado aqui/ aqui sentado estou agora então”. Parece ser dela também a sua obsessão pelas repetições como as do poema “leve inquietação”, em que Jandl repete em sequência muitas vezes a frase “talvez melhor”, para então concluir: “E não melhora nunca.”     

De John Cage, Jadl parece ter herdado a palavra falada, pois seus poemas deveriam ser oralizados, performatizados. Muitos deles, aliás, fazem mais sentido quando lidos em voz alta. No poema Guerra e Tal, vemos “pai tomás” aos poucos desaparecer, se tornar “ai tomás” e depois apenas “sssssssss”. No fim do poema, tanto em português como em alemão, lê-se a palavra tot, que significa morte ou morto em alemão, e cujo som em português pode remeter a um estalido (de um projétil?) que teria dado fim ao pai Tomás. Se o leitor ler em voz alta o poema, observará que ele mesmo irá “se engasgar” com a leitura, como se tivesse sido atingido, quem sabe, pelo mesmo projétil que atingiu o pai Tomás. 

Ao final dessa breve antologia, há uma entrevista com o escritor, a qual salienta a importância da performance para a sua obra escrita. Um dos entrevistadores lembra que “em alguns de seus poemas encontram-se indícios de encenação teatral, rubricas para uma ‘montagem’”. De modo que, completa o entrevistador, “seus poemas falados (Sprechgedichte) têm uma clara relação com o palco, a encenação, o público”, como, por exemplo, O Totó do Otto, que lembraria uma peça de um ato só, semelhante, por exemplo, às peças curtas de Gertrude Stein ou às peças sintéticas do teatro futurista de Filippo Tommaso Marinetti, Angelo Rognoni etc.: “o totó do otto trota/ o otto: te toca totó/ o totó vai pra toca/ o otto: só só”. 

Segundo Jandl, o contato com o público era fundamental, “não durante a criação dos textos”, como ele dizia, “mas assim que eles passam a existir”. A performatização de seus escritos era tão importante que, uma vez, ao ser chamado para uma palestra, e tendo que enviar o título com certa antecedência, ele nominou sua fala de “O abrir e o fechar da boca”, que, obviamente e ironicamente, era um título que permitia tudo, como diz o escritor, mas que estava também ligado à sua “atividade literária, à palavra, à poesia falada”. É bem possível vislumbrar Jandl recitando, tal qual Kurt Schwitters, um poema seu como “para peter veit”, que termina com uma sequência longa de “mm” e um “im” (ich em alemão) no final. 

*DIRCE WALTRICK DO AMARANTE ORGANIZOU E TRADUZIU, ENTRE OUTROS, ‘VIAGEM NUMA PENEIRA E CONVERSANDO COM VAREJEIRAS AZUIS’, ANTOLOGIA DE PROSA E VERSO DE EDWARD LEAR

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