Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Livro reúne reportagens do 'Estado' sobre desafios do Brasil pós-impeachment

O repórter especial José Fucs entrevistou especialistas e esclareceu as raízes da catástrofe petista

Marcos Guterman, O Estado de S.Paulo

30 Setembro 2017 | 16h00

O livro A Reconstrução do Brasil, que reúne as reportagens de José Fucs na série do Estado sobre os desafios do País depois do impeachment da presidente Dilma Rousseff, pode ser lido como um “mapa da estrada” para a superação desses imensos problemas, conforme diz o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso no prefácio. Mas sua maior qualidade talvez seja a de oferecer à sociedade brasileira, nas palavras do mesmo Fernando Henrique, uma noção dos “processos que a levaram às dificuldades do tempo presente”. Sem conhecer esses processos, é muito provável que os erros decorrentes deles se repitam e se perpetuem, condenando o País ao atraso. Como explicou Nelson Rodrigues, “o subdesenvolvimento não se improvisa; é obra de séculos”.

“Reconstrução” é o termo adequado para definir o que é preciso ser feito no País depois dos mais de dez anos de governos petistas. A devastação nas contas públicas, realizada de maneira voluntária e meticulosa por Luiz Inácio Lula da Silva e, especialmente, por Dilma Rousseff, reduziu a escombros a capacidade de gerar desenvolvimento e riqueza. Mas os textos do livro deixam claro que a catástrofe petista, longe de ser uma aberração, foi a culminação de uma antiga e persistente visão romântica de País, segundo a qual basta a positivação da vontade na forma de leis e programas “progressistas” de governo para que a “justiça social” se realize.

A destruição dos fundamentos da economia sob o petismo era o desfecho lógico da permanência, no imaginário nacional, de uma noção simplória sobre o papel do Estado no crescimento do País. Consolidou-se, ao longo de décadas, a ideia de que tudo emana do Estado e para lá converge, convidando os cidadãos em geral, do mais simples contribuinte ao mais poderoso empreendedor, a demandar sua parte — seja na forma de “direitos”, seja na forma de favores. Os petistas apenas transformaram esse desvario em política oficial.

Como o livro mostra, o País tem a chance, mais uma vez, de superar essa visão infantilizada da realidade e aproveitar melhor seu imenso potencial de desenvolvimento. Há os muito otimistas, como o cientista político Luiz Felipe d’Avila, entrevistado por Fucs, para quem “o impeachment é o início de uma nova era” e, “daqui para frente, a discussão política deverá ser bem mais racional, em torno de dados e fatos objetivos, em vez de teses e ideologias”. Mas há também aqueles que enxergam o perigo de tudo ficar como está, pois o imaginado consenso em torno do equilíbrio das contas públicas, aparentemente sólido depois do Plano Real, talvez jamais tenha de fato existido, pois bastou um breve período de bonança, como o verificado no segundo governo de Lula, para que se mandasse às favas os escrúpulos fiscais.

Assim é o Brasil diagnosticado no livro: um País que persiste nos erros que o condenam à mediocridade. Essa condição não é, obviamente, um destino, mas não é possível olhar para a Constituição de 1988 e não ver que ali estão, uma a uma, as razões para a crônica inviabilidade do Estado. Esperava-se candidamente que a Constituição, depois da ditadura, trouxesse a “felicidade geral da Nação por decreto”, como bem descreveu no livro o financista Nathan Blanche. Dessa forma, a Carta, em muitos aspectos, deu ares de avanço social ao que se revelou, na prática, como reafirmação de nosso tradicional atraso.

Como mostram as reportagens de Fucs, a Constituição manteve intactas ¬ e em alguns casos aprimorou – as bases do subdesenvolvimento. Dela as corporações se aproveitam para consolidar seus privilégios; com ela, o cidadão é tutelado, como se fosse um incapaz; a partir dela, justificam-se gastos públicos que, por obrigatórios, dispensam planejamento e racionalidade.

Assim, não se pode pensar em reconstruir o Brasil sem questionar as bases sobre as quais os alicerces dessa empreitada serão assentados. Se o patrimonialismo, o populismo fiscal, o paternalismo, o protecionismo e o estatismo não forem enfrentados por meio de reformas substanciais, será apenas questão de tempo para que outro desastre como o protagonizado pelo PT se repita. Assim, vale ouro a advertência de Fucs: “Os brasileiros têm mais uma oportunidade, agora, de atacar essas questões e de reconstruir o País segundo modelos melhores para todos. Se for desperdiçada, quem sabe quando surgirá a próxima?”

A Reconstrução do Brasil

Autor: José Fucs

Editora: O Estado de S. Paulo

150 páginas

R$ 39,90

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