Tatiana Ferro
Tatiana Ferro

Livro reúne textos do crítico musical João Marcos Coelho

Jornalista analisa o cenário contemporâneo e o futuro da música clássica

João Luiz Sampaio, O Estado de S.Paulo

13 Janeiro 2018 | 16h00

Pensando as Músicas no Século XXI, do jornalista e crítico musical João Marcos Coelho, carrega uma importância óbvia para o cenário da música clássica brasileira: reunidos, seus textos, resultado da atividade cotidiana de acompanhamento do mundo musical, ajudam a formar um panorama do que a área tem oferecido nos últimos anos. É, assim, um documento histórico incontornável, fonte de pesquisa para quem quiser compreender algumas facetas da música brasileira. Mas limitar-se a este aspecto seria, na verdade, diminuir o escopo de um trabalho que, no fundo, fala mesmo, ainda que de forma involuntária, da importância da atividade crítica. 

Em um texto dos anos 1950, publicado na coletânea O Canto do Violino (Cedet, 2016), Otto Maria Carpeaux tratava do que ele chama de uma oposição impossível inerente à crítica musical. Para ele, o crítico se vê necessariamente preso entre dois extremos. De um lado, o texto puramente técnico, que aliena o público, mas agrada o músico, ainda que não lhe traga grandes novidades; de outro, o texto poético, que incomoda o intérprete, mas massageia o ego do ouvinte, que assim, nas palavras de Carpeaux, pode fingir entender aquilo que não compreende. 

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Carpeaux está, na verdade, atualizando uma questão que remonta ao século 19, quando Eduard Hanslick reproduzia na imprensa alemã o embate estético entre a ideia de uma música absoluta, encarnada por Brahms, e a noção de música programática, ou de uma estética do sentimento, simbolizada por Wagner. Muito mudou em nossa percepção a respeito do que é a música desde então, mas a discussão sobre a crítica, em geral, permanece presa entre esses extremos. 

O problema é que Hanslick e Carpeaux estavam discutindo forma – enquanto o nosso tempo acrescentou a esse debate um questionamento a respeito do próprio sentido da atividade crítica. É aqui que o trabalho de João Marcos Coelho se torna fundamental. Ao entender o momento de um concerto (ou o lançamento de um CD ou livro) como parte visível de um corpo de ideias mais amplo sobre o modo como se organiza o meio musical e, consequentemente, a forma com que se relaciona com o Zeitgeist contemporâneo, ele faz da atividade crítica espelho distorcido no qual o retrato que se faz do meio é menos a busca passiva de recriação mas, antes, um provocador e vivo questionamento sem concessões a respeito do mundo em que vivemos.

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Não faltam exemplos em Pensando as Músicas no Século XXI, que reúne quase 20 anos de textos publicados no Estado, no Valor Econômico e na revista Concerto. Uma pensata sobre os 200 anos de Richard Wagner, por exemplo, que teria tudo para ser burocrática ao sabor frio da efeméride, torna-se em uma discussão a respeito da noção de “obra de arte do futuro”; uma análise sobre a música norte-americana leva à reflexão sobre a necessidade de se repensar os critérios que levam ao estabelecimento de uma historiografia musical. Comentários sobre Villa-Lobos, Carlos Gomes ou Alberto Nepomuceno incluem uma discussão sobre a influência do modernismo no pensamento cultural brasileiro. E um texto sobre o pianista e compositor Keith Jarrett, por sua vez, aproxima o jazz à obra de Mozart, Beethoven ou Shostakovich.

Assim como Luchino Visconti pode ser evocado para se falar de Giuseppe Verdi, toda uma seção da coletânea é destinada a tratar da relação entre música e outras artes; e, da mesma forma, um conjunto precioso de textos, ao tratar de figuras como Leonard Bernstein, Herbert Von Karajan ou Hans Werner Henze, implode os clichês a respeito das relações entre música e política. Mais: textos como Dinossauros na UTI, sobre o papel atual das orquestras, ou o Futuro da Música Está na Venezuela. Será?

São exemplos do questionamento de certezas que, mesmo quando arrisca falar em modernização, o mundo da música clássica tem dificuldade de abandonar. Nesse sentido, o recado é claro: não há como escapar do risco e da ousadia quando se busca uma nova inserção para a música clássica no debate cultural.

É por isso que a música nova e a sua defesa permeiam todo o volume. Até porque acreditar de fato na criação não significa abrir mão do passado, mas apenas entender que vivemos em um mundo profundamente distinto daquele em que os grandes compositores produziram suas obras. Se suas obras seguem tendo algo a nos dizer, o mesmo pode ser dito a respeito do modo como eles absorveram os estímulos das épocas em que viveram. É uma lição que serve para músicos e gestores. E também para os críticos.

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