Ed Viggiani/Estadão - 31/05/2007
Ed Viggiani/Estadão - 31/05/2007

Livro reúne textos do filósofo brasileiro Paulo Arantes

Autor tem como objeto de análise a relação entre o Brasil e os temas que centralizam as preocupações dos filósofos do primeiro mundo

Caio Sarack*, Especial para o Estadão

28 de abril de 2021 | 05h00

A Editora 34 publica nesse ano textos do filósofo brasileiro Paulo Arantes. Professor emérito da Universidade de São Paulo e autor de livros como O Novo Tempo do Mundo (Boitempo, 2014) e Sentimento da Dialética na Experiência Intelectual Brasileira (Paz e Terra, 2005), Paulo Arantes tem como objeto de análise a relação entre o Brasil e os temas que centralizam as preocupações dos filósofos do primeiro mundo. 

Esta tarefa fica mais clara quando observamos os textos compilados no livro Formação e Desconstrução: Uma Visita ao Museu da Ideologia Francesa publicado esse ano: os textos são de 1989 a 1995 e tematizam os mais importantes temas desta época: as teorias de pensamento herdeiras do acontecimento político-cultural de Maio de 68, bem como da sua recepção nos departamentos transatlânticas, nos EUA e na América Latina. 

A intenção de juntar esses textos é apresentar ideias que foram pensadas em momentos decisivos no Ocidente (1960-1970), mas que estavam chegando ao ponto de perderem a força nas décadas seguintes, a partir de 1989 com a queda do Muro de Berlim e o ocaso patente da experiência soviética. 

"Eu comecei a escrever [o texto Tentativa de Identificação da Ideologia Francesa: Uma Introdução] em dezembro de 1989, o Muro tinha caído em novembro. O mundo comunista estava ruindo, eu escrevi naquele momento. Nos meses seguintes a decomposição da União Soviética, que noção alguém poderia ter do mundo naquele momento a não ser senso comum? É nesse momento em que escolho voltar: a única coisa que eu sabia e tinha acompanhado era a recepção norte-americana da filosofia francesa", comenta o professor em entrevista. 

Essa recepção não é sem relevância já que, sepultada de uma vez o confronto da Guerra Fria, é o lado vencedor quem se interessa pela tal Ideologia Francesa que Paulo Arantes tenta identificar em seus textos.

Ao enviar o email de convite ao professor para nossa conversa, troquei as décadas e acabei dando dez anos a menos para os textos de Paulo Arantes que foram compilados em Formação e Desconstrução (Editora 34, 2021), ou seja, aproximei por demais e acabei transpondo alguns deles para o século seguinte. Um equívoco mais ou menos sutil? Podem decidir, mas é um equívoco total levando em conta o contemporâneo.

Tal é a importância de se pensar bem sobre os contextos e seus tempos: o professor Paulo de hoje me corrigiu e delimitou os 6 anos, 1989 a 1995, em que foram escritos pelo outro Paulo daquela época. Além disso, o Paulo de hoje fez questão de enfatizar que há entre eles uma era geológica os distanciando. 

A pressa e a desatenção na escrita do email-convite me passaram a perna e, então, organizo a conversa em que finalmente uniria os dois Paulos e eu, como o possível mediador. A entrevista, antes movida principalmente pela edição da coletânea em livro, dali em diante se tornaria uma tentativa de identificação.

Mais de três horas de conversa embaralharam assuntos na cabeça de quem lhes escreve, a explicação sobre o título e subtítulo tomou mais de hora, não por ser o Paulo prolixo, mas sim porque o título cristalizava uma distância temporal impossível de ser deixada de lado. É como se a tinta com que ele tentava escrever esse livro no tempo de hoje não pudesse mais apaziguar qualquer coisa daquela outra tinta, dos textos de 1989 a 1995. 

Aí está um ponto de interesse para o texto que aqui se escreve: Paulo Arantes não quer apaziguar, mas também não significa que ele quer render-se à polêmica de um teimoso. Tal como na alegoria de Hegel, a saber, de que a coruja de Minerva só alça voo ao entardecer, Paulo dá sinais de que suas considerações encerram um motivo intelectual que deixou suas marcas na história da intelectualidade ocidental, essas mesmas considerações, porém, não dão fim a esse motivo. Isto significa que dali em diante esse motivo intelectual assumiria novas conformações e deformações, atualizações que transformam os seus efeitos. Paulo é pessimista, mas não é adepto do fim da História (nem Fukuyama o é mais). 

Não havendo qualquer razão para a modéstia, Paulo (o de hoje falando sobre o do século passado) se coloca como organizador de um ringue: não é ele quem promove a briga, mas – assim me parece – certamente quer que todos saibam quais armas estão sendo utilizadas e, a partir delas, todos saibam quem são seus oponentes e infiltrados.

Acho necessário sair brevemente deste território forrado de analogias, metáforas e ironias – confesso que muito da vertigem que senti na leitura dos textos, ora editados, se dá muito pela escrita entre o sarcasmo ambíguo e o didatismo de quem já à época tinha mais do que a minha idade de experiência em sala de aula. Mas afinal, para que ler os textos? Os dois Paulos, tanto o de hoje quanto o de antes, juntariam-se irritados contra o utilitarismo da pergunta. Ainda assim a pergunta é refeita.

São duas as virtudes desta edição dos textos. Uma, de relevância restrita ao nicho cultural para o qual acena o conteúdo dos escritos; outra, e a mais importante, sobre como os textos (e quem os escreveu) têm sentido político direto. 

Sobre a primeira virtude, não haveria muito mistério, como diz o professor: "A Desconstrução [teoria filosófica francesa] é uma estratégia de leitura. Derrida é um ideólogo francês por definição, porque quer murchar a metafísica sem que ela perceba". Os textos apresentam questões que emparedam as três grandes vertentes teóricas da segunda metade do século 20. A nova teoria crítica alemã, o neopragmatismo estadunidense além da filosofia pós-moderna de matriz francesa são colocadas em exame não porque o autor procura faltas essenciais que estariam prescritas em uma cartilha que ele carrega para lá e para cá. Ao contrário e mais corrosivo, o autor busca sinalizar que falta às próprias vertentes condições para responderem às suas próprias demandas políticas, culturais, sociais, militantes etc. 

Isto significa que não é Paulo que lista uma série de perguntas que precisariam estar respondidas nesses sistemas de ideias analisados, ele formula aos seus ideólogos-teóricos as prescrições que eles mesmos produziram e, então, retorna a eles em casos concretos, por exemplo: se a intenção racionalista de um discurso político está comprometido desde a origem e, por isso, é corrompido pelo racionalismo eurocêntrico e capitalizados, por que justamente o discurso que flagra essa corrupção e denuncia essa capitalização da vida social está ocupando os grandes centros da cultura ocidental (a saber, os departamentos das universidades dos EUA)? Não se discute a legitimidade de se ocupar esses departamentos, mas antes, discutir como essa ocupação não é por acaso, mas seria a própria descoberta de uma demanda intrínseca dessas vertentes desconstruidoras.

Essas provocações animam (para o bem e para o mal) o debate público (e restrito) das universidades. Garante-se que ninguém sairá ferido, mas muitos sairão contrariados.

A segunda virtude do livro, de exposição mais trabalhosa, é que o autor busca uma saída de reflexão que enfrente o verdadeiro estado das coisas no Brasil. O subtítulo do livro pode ajudar: Uma Visita ao Museu da Ideologia Francesa. São duas visitas, na verdade: uma pela lente crítica do autor que quer decifrar os textos e contextos da teoria francesa; outra é a presença desse pensamento no Brasil e suas influências nas reflexões sobre o Brasil. Ao mesmo tempo em que essa influência acontece, ela não se restringe à leitura dos universitários, mas indica caminhos para que o pensamento brasileiro pense seu próprio tempo e espaço, suas tensões sociais e políticas, enfim, tentar entender o que se passa no Brasil e como deixará de passar.

De novo, aqui não valeria a pena utilizar analogias: Paulo Arantes quer saber como podemos superar o freio que barra o Brasil. Desde o golpe de 1964 e todos os cadáveres (físicos e metafísicos) que esse período nos legou, a reflexão sobre o Brasil e a produção de um discurso claro sobre o que é isso que chamamos “Brasil” foi interrompida com a morte. Os intelectuais brasileiros da Formação (Caio Prado Jr., Antonio Cândido, Celso Furtado, Roberto Schwarz etc) queriam compreender como o país iria e poderia participar do capitalismo internacional e globalizante saindo do papel de metrópole ainda colonial e se tornando uma nação.

Com o golpe militar, econômico, político, cultural e simbólico, veio o golpe epistemológico: ao fim e ao cabo, não se conhece o país, tudo se desmanchou no pesado ar do autoritarismo redivivo. Esse ar não é imaterial, mas o inverso: censura, assassina, interrompe e extirpa dos habitantes brasileiros a possibilidade de compreenderem-se a si mesmos como cidadãos participantes. 

Não se pode pedir de um texto de filosofia que ele nos ensine a organizar um movimento social ou colaborar num coletivo ou partido, mas se pode enxergar nele uma demanda por tomada de consciência. Para trazer a imagem que Paulo Arantes (o de hoje) utiliza em nossa conversa: a filosofia lança ao mar bravíssimo uma garrafa com uma mensagem para que alguém a encontre no momento propício para a sua compreensão.

Nos tempos que correm, a beleza do gesto do professor (de hoje e de antes) está em ainda lançar garrafas ao mar. Muito mais do que a tentativa de encontrar a garrafa com a mensagem correta para o problema preciso, tornou-se necessário lembrar aos pensadores que lançar uma garrafa ao mar é acreditar que ela será encontrada.

Caio Sarack, mestre em Filosofia pela FFLCH-USP, é professor do Colégio Nossa Senhora do Morumbi

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