National Gallery
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Livro reúne três contos de Flaubert que vão do épico ao banal

Escritor francês narra as vidas de uma empregada do século 19, um santo e uma dançarina erótica que corta a cabeça de São João Batista

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

29 de junho de 2019 | 16h00

Nada mais dessemelhante que esses Três Contos, que Flaubert quis publicar juntos no fim da vida. Como embalar no mesmo invólucro a história de uma velha serva da Normandia do século 19, empregada na casa de uma senhora desagradável, o destino ensanguentado de um santo e o retrato de uma dançarina erótica chamada Salomé, que corta a cabeça de São João Batista? Entretanto, os contos têm um ponto em comum. Sejam as vidas dessas pessoas apaixonantes ou banais, Flaubert as une com seu estilo e suas palavras conflitantes, gramaticalmente dispostas numa ordem secreta tão precisa e enigmática que terminam por edificar um monumento incorruptível e verdadeiro como uma estátua de mármore.

Flaubert explica isso numa carta a George Sand que parece prefigurar as lições da “école française du regard” (escola francesa do olhar), que reuniu nomes como Robbe-Grillet e Michel Butor. “Eu me lembro”, escreveu, “do coração batendo forte e do prazer violento que experimentei ao contemplar um muro da Acrópole de Atenas, aquele que está à esquerda quando se sobe para o Propileus. Pergunto-me se um livro, independentemente do que diz, não pode produzir o mesmo efeito – na precisão do conjunto, na variedade de elementos, no brilho da superfície, na harmonia. Não existe aí uma virtude intrínseca, uma espécie de força divina, qualquer coisa de eterno como um princípio?” 

Que pode haver de mais banal, de menos romântico, que a vida de Félicité, empregada por mais de 50 anos numa casa burguesa, vivendo em seu quartinho “como um molusco em seu rochedo”? Cinquenta anos, todos parecidos: um destino paralisado, imóvel. Um tempo que não avança nem volta. Nenhum acontecimento importante, só insignificâncias: “Em 1825, dois operários caiaram o vestíbulo. Em 1828, madame distribuiu a hóstia na missa de domingo.” A única coisa que acontece é a morte dos amigos de madame, que Félicité mal conhece. É um antirromance absoluto. 

Apenas um episódio quebra a banalidade. Félicité ganha um companheiro, o papagaio Loulou, “que se agarra a sua mantilha para a alegrar” e sabe imitar “a manivela da rotisseria, o grito do peixeiro ou a serra do carpinteiro”. Loulou, “na solidão de Félicité, é quase um filho, um namorado”. De vez em quando ele se empolga e fala: “Que cara encantador”, ou “às suas ordens, senhor”, ou ainda “ave, Maria”. Música para os ouvidos de Félicité!

Loulou acaba morrendo. Todos choram com Félicité. Depois a própria Félicité morre, uma morte cristã. “No altarzinho à cabeceira do leito de morte, o papagaio empalhado se esconde em meio às rosas, mostrando apenas sua cara azulada como uma lasca de lápis-lazúli.” Essa é a ambição demiúrgica de Flaubert: do nada, fazer o indestrutível, o quase imortal. Conferir à vida ínfima de Félicité o esplendor e a imutabilidade do eterno. Esse é o escritor que nos apresentam como um homem frio, impassível, quando, ao contrário, ele queria dar à fragilidade da vida a invulnerabilidade da palavra. O próprio Flaubert esclarece numa carta a um amigo: “Quero causar piedade, fazer chorar as almas sensíveis, sendo eu mesmo uma delas.” 

Os dois outros contos que Flaubert publicou ao mesmo tempo que Um Coração Simples são muito diferentes: ricos em acontecimentos, cheios de cenas heroicas, sangrentas, fulgurantes. Mas, no fundo, o desejo do escritor é o mesmo: dar a eventos já contados na Bíblia (Herodíade) ou ao simples vitral de de uma pequena igreja de aldeia da Normandia (A Legenda de São Julião Hospitaleiro) a invulnerabilidade do mármore. 

Deixemos ao leitor a missão de descobrir nos contos o esplendor de Flaubert. Quero apenas citar e comentar a última frase de São Julião Hospitaleiro: “Eis aí a história de São Julião Hospitaleiro tal como foi descoberta há pouco no vitral de uma igreja de meu país”, escreveu simplesmente Flaubert. Um crítico do século 19, Henry Houssaye, expressando sua admiração por Flaubert, comenta: “Não precisamos ter medo caso o vitral da velha igreja normanda se esfacelar ou for consumido num incêndio. O conto de Flaubert o substituirá.” 

Escrevi este artigo sobre Os Três Contos de Flaubert algumas semanas após a Catedral de Notre Dame “se esfacelar e ser consumida num incêndio”. Voltei então a pensar na igrejinha normanda, em seu vitral e na profecia: “As civilizações podem passar e os monumentos virar pó, mas a literatura permanecerá.” / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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