Caroline Moraes
Caroline Moraes

Livro traz ensaios sobre casos recentes de censura a obras de arte

'Arte, Censura, Liberdade', tem textos de Adriana Varejão, Gregório Duvivier, Lilia Schwarcz

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

19 de janeiro de 2019 | 16h00

No domingo passado, 13, o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC) decretou o fim da exposição Literatura Exposta um dia antes do previsto, vetando as performances que encerrariam a mostra, em cartaz na Casa França-Brasil desde dezembro de 2018. Em resposta ao ato governamental, o curador da exposição, Álvaro Figueiredo, denunciou o fechamento como censura à performance do coletivo És uma Maluca, uma crítica à ditadura militar cujo teor, segundo ele, teria sido autorizado pela direção da casa. Já o governador Witzel defendeu o contrário. Justificou o fechamento alegando que as performances não constavam do contrato com a Secretaria Estadual de Cultura do Rio.

A performance final da exposição seria uma sequência da instalação montada pelo coletivo, A Voz do Ralo é a Voz de Deus, em que centenas de baratas de plástico passeiam sobre um bueiro do qual sairia a voz do presidente Jair Bolsonaro – trocada por uma receita de bolo, após a proibição do uso de seus discursos pelo diretor da Casa França-Brasil, Jesus Chediak. Em tempo: a instalação foi inspirada por um conto de autoria de Rodrigo Santos, que narra a história de uma mulher torturada durante o regime militar com baratas introduzidas em sua vagina.

Quebra de contrato ou simples censura? O coletivo És uma Maluca, da zona Norte do Rio, publicou uma nota nas redes sociais em que afirma ter sido censura. Vale lembrar que episódios semelhantes foram registrados no Brasil recentemente e comentados no livro Arte, Censura, Liberdade - Reflexões à Luz do Presente, organizado por Luísa Duarte, em que curadores como Luiz Camillo Osório e historiadores como Lilia Moritz Schwarcz analisam as tentativas de vetar performances como a do coletivo És uma Maluca e do bailarino Wagner Schwartz, La Bête, apresentada no 35.º Panorama da Arte Brasileira do MAM-SP, em 2017, também o ano em que o Santander Cultural de Porto Alegre determinou o fechamento da mostra Queermuseu - Cartografias da Diferença na Arte Brasileira, após protestos nas redes sociais de grupos que acusaram os organizadores da exposição de “incitar a pedofilia, a zoofilia e a blasfêmia”.

Políticos e grupos conservadores, como o Movimento Brasil Livre, levaram os curadores da Queermuseu, Gaudêncio Fidelis e Luiz Camillo Osório, a prestar depoimento na CPI dos Maus-Tratos Infantis do Senado Federal. O performer Wagner Schwartz foi chamado de psicopata e pedófilo por ter uma menina menor interagido com ele na performance La Bête, em que o ator aparece nu manipulando um origami. O episódio é comentado na análise da curadora e crítica Daniela Labra no livro organizado por Luísa Duarte.

Labra diz que reagir com censura a performances como La Bête, sem apelo erótico ou à pedofilia, “denota falta de informação e má-fé, ressuscitando polêmicas datadas com roupagem nova”. Lembra que nada disso, afinal, é novo. Afinal, há exatamente 60 anos o artista de vanguarda norte-americano Allan Kaprow (1927-2006) criou o happening – ação artística coletiva que convidava espectadores à participação e culminava com um ou mais corpos despidos. Naquele momento, conclui Labra, o ato de se despir “ganhava contornos políticos, de crítica e deboche contra sociedades conservadoras”.

No Brasil, artistas como Lygia Clark, Hélio Oiticica e Lygia Pape fizeram igualmente ousadas propostas estéticas com o uso do corpo que convidavam o público a participar, lembra a curadora. Isso em plena ditadura. É conveniente lembrar que o artista Antonio Manuel, em 1970, fez uma performance em que seu corpo nu era a própria obra, no Museu de Arte Moderna do Rio.

Alguns culpam o avanço da extrema direita no mundo pelo recrudescimento da censura em tempos democráticos. A curadora Marisa Flórido Cesar, no livro, diz que “Trump e similares parecem a caricatura midiática” dos líderes populistas mitificados do passado (Hitler, Mussolini e companhia), mas são, na verdade, “a culminação e a personificação do ódio de classe, da xenofobia, do racismo e do nacionalismo que refluem de volta, como o retorno do recalcado”. A criminalização das artes que vem acontecendo no Brasil, conclui a doutora em Artes Visuais, não se deve apenas ao conservadorismo moral, mas porque ela é “capaz de abrir fendas para que se anunciem diferentes vozes”. Isso explica porque os poderosos odeiam a alteridade. Querem um mundo homogêneo, uniforme. Tudo o que a arte justamente não oferece.

“Acho que essa onda conservadora existe porque existe, também, uma onda libertária muito forte. Muitos direitos foram conquistados nas últimas décadas, impensáveis para as gerações anteriores. Não podemos assistir passivos a essa regressão”, diz a pintora Adriana Varejão na conclusão do livro. E cumpriu o que prometeu. Reagiu com outros artistas e reabriu a exposição Queermuseu, da qual participou, no Parque Laje, em julho do ano passado. 

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