ACT editora
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Livro traz museus da América Latina em diálogo com contemporâneos

Seleção fez levantamento de 35 museus e centros culturais dedicados ao experimental no continente, do México ao Brasil

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

05 de fevereiro de 2022 | 16h00

Recém-lançado, o livro Onde Vive a Arte na América Latina é o terceiro da editora Act., que, em plena pandemia, fez um mapeamento de 35 museus e espaços culturais que exibem arte contemporânea em 13 países da região. Organizado por João Paulo Siqueira Lopes e Fernando Ticoulat, o volume, em português, espanhol e inglês, é uma ambiciosa pesquisa com patrocínio do banco BTG Pactual, que inclui desde museus metropolitanos como o Masp, em São Paulo, ao menor museu do mundo, o NuMu, criado em 2012 na Guatemala. É o único de arte contemporânea na Guatemala, tem cinco metros quadrados e formato de um ovo.

Em entrevista exclusiva ao Aliás, o organizador Fernando Ticoulat cita a história curiosa de outros museus, como o Fragmentos de Bogotá, Colômbia, criado em 2019 pela artista Doris Salcedo. Ele foi construído sobre 37 toneladas de armas fundidas das Farcs e contou com a elaboração e participação de mulheres vítimas de violência sexual. 

O livro coloca em evidência a transformação do papel dos museus com a evolução da arte contemporânea. Os grandes museus da América Latina têm, efetivamente, cumprido o papel de abrir espaço para a arte produzida pelos contemporâneos?

Os museus que apresentamos no livro, sim, estão cumprindo esse papel. Nossa intenção era sair do paradigma da catedral secular em que se transformaram os museus modernos, que apenas abrigavam e exibiam objetos de arte. No contemporâneo, os museus ou centros que expõem arte se adaptam às inovações dos artistas. A Pinacoteca do Estado, por exemplo, é tradicionalmente um espaço para mostrar pinturas antigas, mas seu diretor Jochen Volz inovou ao promover, entre outras mostras, uma exposição de arte indígena que, inclusive, foi premiada. No Masp, a mudança de orientação também caminhou para valorizar outras histórias além da história da arte europeia. Hoje, seus curadores trabalham em torno de “histórias” de artistas negligenciados no passado, além de reforçar a parte pedagógica para motivar o público. No caso de Inhotim, a proposta museológica abre horizontes, abarcando não só arte como botânica e outras disciplinas. A relação com a comunidade local e a criação de um espaço de convívio com a arte são diferenciais que ganham força com a contribuição de curadores como Julieta González, autora de um ensaio no livro.

Ao lado de grandes museus latinos figuram espaços experimentais como a Kiosko boliviana, a galeria Pivô, no centro de São Paulo, a Diablo Rosso do Panamá e a sala Mendoza na Venezuela, que resiste a todos os regimes. Qual foi o critério para a escolha desses espaços?

Cada espaço escolhido teria de ser único. A galeria Kiosko, criada por artistas bolivianos, é um espaço alternativo criado em 2006 e oferece residências subsidiadas para artistas e curadores em Santa Cruz de la Sierra, onde também funciona uma biblioteca e se ministra cursos. A ideia era mostrar lugares alternativos como o Soma, na Cidade do México, que existe desde 2009, não é muito grande, mas tem um papel pedagógico considerável com seus programas educativos criados e dirigidos por artistas. Isso sem esquecer os lugares que se dedicam a exposições. Nossos projetos – e este é nosso terceiro livro – são sempre baseados em conversas com artistas. Não tive a oportunidade de conhecer todos esses lugares por causa da pandemia, mas tivemos ajuda de pessoas como Julieta González, que nos apresentou a Sala Mendoza, com seus 65 anos de atividades ininterruptas como espaço autônomo em Caracas.

É um exemplo de local expositivo e educacional que resistiu a governos de diferentes orientações ideológicas. Você observa no livro que a arte na América Latina é desvalorizada pelo poder público. Ao que atribui a falta de interesse dos governos pela arte contemporânea?

A arte contemporânea talvez assuste os poderes públicos. É o tipo de arte que exige engajamento com a sociedade, tem uma pegada mais crítica, coloca o dedo na ferida – e o poder público não quer isso, evidentemente. A América Latina tem um histórico de ditaduras. Os espaços alternativos nos Estados Unidos e França são subsidiados, enquanto aqui são projetos sem constância. Aqui, o produtor cultural tem de se adaptar a novas regras que quase nunca são favoráveis. Muitos desses espaços fecharam durante a pandemia. O que eu percebo é que eles não duram mais que três os quatro anos.

O conceito de campo expandido fez surgir esses espaços para mostrar arte contemporânea. Cite um projeto que lhe parece exemplar ou melhor adaptado a esse conceito.

Acho que o LabVerde é um exemplo perfeito. Criado em 2013, ele promove um programa de imersão artística na Amazônia, aliando prática e pesquisa. O ateliê é o campo expandido da floresta. Não se trata de exibir arte, mas entrar na paisagem, pegar um bote, visitar a floresta e conhecer as comunidades locais. A iniciativa tem apoio de importantes institutos e fundações internacionais, promovendo o diálogo entre arte e ecologia.

Existe, ao contrário, pequenos espaços que encerraram suas atividades por falta de patrocínio ou durante a pandemia. Dê um exemplo dessa precariedade.

Ele ainda resiste e ocupa duas casas históricas no bairro La Granada, em Cali: Lugar a Dudas foi fundado em 2005 pelo artista Oscar Muñoz, é um centro de referência e documentação na Colômbia, interagindo com a comunidade por meio de práticas artísticas. Cogitou-se a ideia de encerrar as atividades, assim como outros espaços foram fechados em toda a América Latina.

A curadora Julieta González, aliás, chama a atenção no livro para esse aviltamento da cultura na América Latina, mostrando que há uma clara hostilidade dos governos em relação aos produtores culturais. Ela defende que as instituições culturais latinas não devem buscar modelos em instituições estrangeiras. Isso é possível num mundo globalizado?

Não dá para importar, mas dá para “canibalizar”, como recomendava Oswald de Andrade. Museus como o Muac (Museu Universitário de Arte Contemporânea), na Cidade do México (criado em 2008) são bons exemplos disso. Ele passou de uma instituição modesta a um grande museu de arte contemporânea. Outro exemplo que considero incrível é o Museu da Solidariedade Salvador Allende em Santiago, no Chile, criado em 1972 com a ajuda do crítico brasileiro Mário Pedrosa e doações de artistas como Miró e Lygia Clark. Pedrosa presidiu o comitê que estabeleceu as bases do museu, recebendo logo no início a doaçãoi de mais de 600 obras. O golpe de Estado no Chile, em 1973, relegou o museu à invisibilidade, mas ele ressurgiu em 1991, quando as coleções foram reunidas – elas foram levadas para fora – e ele voltou a funcionar. Outro exemplo de resistência é o NuMu, criado em 2012 na Guatemala, o menor museu do mundo, com pouco mais de cinco metros quadrados. É o único de arte contemporânea na Guatemala, tem formato de um ovo e brinca com a sigla do MoMA ao articular maiúsculas e minúsculas no logotipo. Há ainda o Fragmentos em Bogotá, Colômbia, criado em 2019 pela artista Doris Salcedo, que se apresenta como uma obra de arte viva, um espaço expositivo e para refletir. Ele foi construído com 37 toneladas de armas fundidas das Farcs e contou com a elaboração e participação de mulheres vítimas de violência sexual durante o conflito armado na Colômbia. A curadora Doris Salcedo fez um verdadeiro antimonumento ao pedir que essas mulheres fizessem placas com essas armas derretidas.

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