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Toby Melville/Reuters
Toby Melville/Reuters

Livros de Mark Sedgwick e Benjamin Teitelbaum buscam explicar o Tradicionalismo

Estudos investigam o que seria esse tipo de filosofia que, supostamente alheia ao nosso cotidiano, ainda assim o molda de maneira surpreendente

Martim Vasques da Cunha*, Especial para o Estadão

10 de abril de 2021 | 15h00

No filme Inception (A Origem, 2010), de Christopher Nolan, há uma fala que se tornou célebre, dita pelo personagem de Leonardo Di Caprio, cujo assunto é o modo como ocorre a origem de uma ideia e como ela se dissemina, semelhante a um vírus, pelo resto do mundo. “Não há parasita mais resiliente do que uma ideia”, avisa ele, “e uma vez que ela toma conta da mente, é quase impossível erradicá-la. Conforme for o seu crescimento, pode definir ou destruir a sua personalidade”.

Essa descrição se aplica perfeitamente à última bactéria do pensamento que está em voga, em especial na cabeça dos nossos intelectuais progressistas. Trata-se do “Tradicionalismo” – com T maiúsculo mesmo –, para indicar a preocupação com uma tradição religiosa imemorial que influenciaria os nossos dias por meio da sua infiltração em governos populistas, vinculados, de uma forma ou de outra, com a extrema-direita.

Este é o tema de dois livros lançados recentemente no Brasil: Contra o Mundo Moderno, de Mark Sedgwick ( yiné, 637 págs.) e Guerra pela Eternidade, de Benjamin Teitelbaum (Unicamp, 285 págs.). Ambos são estudos feitos por acadêmicos dedicados a expor esse assunto com a ajuda de investigações exaustivas, repletas de citações, entrevistas e notas de rodapé, numa tentativa desesperada de explicar ao leitor o que seria esse tipo de “filosofia ou modo de vida” que, supostamente alheios ao nosso cotidiano, ainda assim o moldam de maneira surpreendente.

A obra de Sedgwick é uma biografia do Tradicionalismo a partir da vida dos três pensadores responsáveis por sua fama no século 20: o francês René Guénon, o italiano Julius Evola e o suíço Frithjof Schuon. O primeiro era simplesmente um gênio, com todas as vantagens e as desvantagens que essa palavra implica. Com sua prosa límpida e um raciocínio perturbador e cristalino, Guénon escreveu livros que eram verdadeiros ataques contra a modernidade, como O Esoterismo de Dante (1925) e O Simbolismo da Cruz (1931), e a sua obra-prima final, O Reino da Quantidade e o Sinal dos Tempos (1945). Seu fascínio era tamanho a quem o lia ou o seguia que ele acabou por influenciar, direta ou indiretamente, os escritos de Evola, um sujeito que iria pelo mesmo caminho de Guénon, se não fosse o seu envolvimento com a luta política fascista na Itália de Mussolini e com os labirintos do poder alemão – em particular, do partido nazista. O terceiro nome, Schuon, era um discípulo direto de Guénon, acompanhando-o inclusive na sua conversão de uma mística cristã, com toques orientais, a um islamismo idiossincrático. Depois, criaria seu próprio séquito e trilharia um caminho bem excêntrico, se comparado ao resto dos outros grupos que compartilham dessa cosmologia.

Se olharmos os títulos das publicações de Guénon, é nítido que essa escola de pensamento lida não só com assuntos espirituais como também medita a respeito de rituais religiosos – ou, pelo menos, a recuperação deles em um mundo que os esqueceu por completo. Daí a classificação de “Tradicionalismo”, de acordo com Sedgwick e Teitelbaum, já que a história dos escritos arcaicos, como os Upanishads, a Bíblia, a Torá e o Corão, além de toda a experiência guardada nela, foi perdida com a ascensão da modernidade laica e racionalista, resultando assim na fragmentação da alma humana, na qual o homem fica absolutamente perdido na busca de um sentido pela vida. O rancor contra o mundo moderno, segundo esses estudiosos, seria uma revolta a um status quo inalterável, fundamentada pela hegemonia da igualdade, e que, por isso mesmo, só será modificada por esses deslocados se eles promovessem uma luta política, somada a uma subversão espiritual, nas nossas instituições democráticas.

Ocorre que classificar a empreitada de Guénon, Evola, Schuon e tantos outros como “tradicionalistas” implica crer que há alguma novidade nela, relacionando-a somente à modernidade – o que nos leva a um erro brutal. O ponto é que não há nada de novo sob o sol nesse grupo aparentemente marginal na história das ideias. Apesar de Sedgwick apontar para uma raiz que nos levaria à “filosofia perene”, atribuída ao renascentista Marsílio Ficino, o fato é que os ensinamentos de Guénon & Cia. são tão velhos quanto a escola de Pitágoras, os avisos oraculares de Héraclito e o surgimento do Cristianismo, como nos avisa Pierre Hadot em seu essencial O Véu de Ísis. Todos surgiram sob nomes diversos, como “gnosticismo”, “ocultismo”, “hermetismo” e “magia”, mas guardam a mesma unidade de sentido: a da “absurda vontade do homem enfermo de orgulho, a sede de um ‘saber’ que desminta ou, melhor, substitua a divina sabedoria”, nas palavras do poeta Bruno Tolentino.

Por isso, é interessante observar que, nas críticas de Sedgwick e Teitelbaum a respeito do Tradicionalismo, não há qualquer menção às observações já feitas sobre este tipo de pensamento e que, por coincidência, vieram dos olhares aguçados de católicos como Jean Daniélou (que estudou Guénon por anos), Hans Urs Von Balthazar (que provou o platonismo desencarnado da filosofia perene) e Joseph Ratzinger (antes de ser Bento XVI, ele anteviu o caráter anti-histórico e, portanto, abstrato deste simbolismo hermético). O motivo é simples – porém aterrador: assim como os tradicionalistas infectaram o nosso século 21 por meio dos governos iliberais, como os de Donald Trump, Vladimir Putin, Viktor Órban e Jair Bolsonaro (esta é a tese de Teitelbaum), esses intelectuais progressistas que os estudaram também foram contaminados pelo mesmo parasita da imaginação.

Pois o Tradicionalismo é exatamente isto: um vírus que se apropria da autenticidade das verdadeiras religiões – a cristã, a judaica e a islâmica – e a deturpa conforme os interesses da sua “sanha do arcanjo caído”, em um desprezo pela dinâmica imprevisível da conduta humana. É neste ponto que tanto Sedgwick como Teitelbaum convergem na suposição de um “tradicionalismo leve” que se imiscuiu na cultura política contemporânea, disfarçando um “tradicionalismo duro” que seria viável somente aos “poucos felizes” que o entenderiam na sua perfeição doutrinária. Seria algo semelhante ao filme Clube da Luta (1999), de David Fincher: uma “teia hierárquica”, sem comando objetivo na aparência, mas que atua na sociedade por causa dos inegáveis talentos persuasivos dos seus membros (os “invisíveis” que a elite se recusa a admitir a existência) os quais manobram o imaginário dos incautos e, logo, a única coisa que lhes resta é a submissão plena da consciência interior de cada um diante de um mestre ou de um grupo que explique os insolúveis paradoxos do real.

Infelizmente, Sedgwick e Teitelbaum, por mais competentes que possam ser na sua técnica investigativa e acadêmica (e são), não entenderam o verdadeiro perigo do que seria o Tradicionalismo. Seus livros sofrem da idolatria pelo mito do progresso e da democracia que os impede ver que o liberalismo em si, sem um vínculo transcendente e encarnado, nunca será a resposta adequada a esta moléstia espiritual. E mais: por este mesmo motivo, não admitem em sua pesquisa que a refutação a esta escola de pensamento já foi dada no passado, feita por ninguém menos que Santo Irineu de Lião em seu tratado Contra os Hereges (174-189 d.C), o qual mostrou como “o plano divino é realizado pelas sucessivas eras de existência física do universo em realidades concretas da natureza e história humanas”.

Contudo, se o leitor pretende algo mais secular, a ficção também poderá ajudá-lo a escapar desta enrascada. No romance Submissão, de Michel Houellebecq, a grande surpresa da sua polêmica trama – a de que a França laica enfim se tornou uma teocracia islâmica – é a descoberta feita pelo protagonista de que o seu chefe, um renomado acadêmico muçulmano, conseguiu seu sucesso graças a uma tese que unia René Guénon e Friedrich Nietzsche. Com uma piscadela irônica, o escritor francês percebeu, mais do que Sedgwick e Teitelbaum, que o homem que lutava contra o mundo moderno encontrou o seu par naquele sujeito que articulou a sua essência. Não à toa, os dois morreram imersos em um universo de paranoia: o primeiro com a certeza de que era perseguido por “poderes inferiores”, disfarçados em amigos e discípulos com quem brigou, enquanto o segundo foi possuído por uma paralisia moral que o deixou afásico. É o que ocorre quando um parasita da imaginação domina a sua personalidade – para depois, no caso de um país como o Brasil, transformá-lo em uma gigantesca vala funerária.

*Martim Vasques da Cunha é autor de A Tirania dos Especialistas (Civilização Brasileira, 2019) e O Contágio da Mentira ( yiné, 2020)

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