Pinacoteca do Estado de São Paulo
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Livros de memórias de cafeicultoras revelam formação escravagista do Brasil

'Dias Ensolarados no Paraizo', de Brazilia Oliveira de Lacerda, e 'Páginas de Recordações', de Floriza Barboza Ferraz, preenchem lacuna na historiografia brasileira

Faustino Rodrigues, O Estado de S.Paulo

20 de junho de 2020 | 16h00

A apropriação de relatos comuns para a documentação histórica oficial é algo relativamente novo. São ainda mais raro quando em primeira pessoa. Normalmente, dedicávamos maiores credenciais aos tratados diplomáticos, discursos, cartas institucionais e instrumentos similares, tendo em vista a associação à objetividade. Assim, deixávamos de lado experiências pessoais e, consequentemente, impressões que poderiam incrementar, e muito, nosso conhecimento sobre a História. A Chão Editora, com a publicação dos livros de memórias Dias Ensolarados no Paraizo, de Brazilia Oliveira de Lacerda, e Páginas de Recordações, de Floriza Barboza Ferraz, contribui justamente para preencher essa lacuna.

O trabalho editorial da Chão Editora é precioso. Segue uma proposta de publicação de textos do Brasil do final do século 19 e princípio do 20, enriquecendo a leitura sobre nossa história ao tirá-los do esquecimento. Brinda-nos com a construção de um rico catálogo a constar obras como Jovita Alves Noronha: Voluntária da Pátria, Diálogos Makii de Francisco Alves de Souza, Fantina: Cenas da Escravidão e O 15 de Novembro e a Queda da Monarquia. Em todos eles, romances, relatos, memórias, sempre há um posfácio de intelectuais, historiadores, estudiosos da temática. Para as edições de Dias Ensolarados no Paraizo e Páginas de Recordações, somos contemplados, respectivamente, com ensaios de Jorge Caldeira e Marina de Mello e Souza.

Brazilia e Floriza escreveram sem a pretensão de comporem discursos oficiais de seu tempo. Em Páginas de Recordações, concebido quando a autora já contava 73 anos, em meados do século 20, há o anseio de quem desejava apenas “desabafar o coração”. Definitivamente, isso consente uma percepção diferenciada, tanto em termos históricos, quanto literários.

Em ambos os livros notamos um caráter fortemente descritivo. Cada qual com suas particularidades. As memórias estão em primeira pessoa. Em termos históricos, exige que nos posicionemos quase que como ouvintes das impressões de duas mulheres pertencentes à elite cafeicultora paulista, contadas como em um encontro à luz do abajur de um casarão. Portanto, é como se fôssemos muito além da descrição pura e simples da construção de uma fazenda ou da organização urbana de São Paulo, em sua fase inicial. Com tais relatos, as autoras possibilitam que experimentemos as expectativas, as decepções, as glórias de alguns dos protagonistas da formação do Brasil moderno, tal como as viveram. Isso é bastante significativo.

Obviamente, se se quiser conhecer mais sobre o país, durante esse período, esses livros não bastam. Contudo, a experiência de se aproximar das impressões dos cafeicultores, seus barões e baronesas, é inigualável. Através deles, conhecemos a maneira como lidavam com a mão de obra escrava, bem como a decepção com a proibição do cativeiro, a conseguinte introdução do colono estrangeiro, e a forma como lidaram com essas transformações sociais. Também ficamos a par do colossal trabalho para se erguer uma fazenda, bem como o tipo de relação dos fazendeiros com sua produção e o mercado de vendas e as oscilações dos preços – Brazilia chega a pormenorizar como participava na organização das contas do pai; Floriza trabalha desde sempre no pomar e nos cafezais, com plantio, colheita e armazenamento. A construção das casas de fazenda, seu significado na dinâmica do dia a dia, pontuando o papel feminino e, mais, a maneira como as próprias mulheres o compreendiam, por meio de suas vozes, entre muitos outros aspectos, despontam nas memórias.

Em termos literários, as diferenças são notáveis. Dias Ensolarados no Paraizo sustenta uma narrativa mais adocicada, quase nostálgica e orgulhosa, ao se concentrar em 13 anos de Brazilia, de 1893, quando tinha apenas seis anos, a 1906. Perpassa infância e adolescência, terminando com o seu casamento com o homem pelo qual diz ter sido sempre apaixonada.

O campo, neste caso, ocupa papel primordial em sua educação. Ela não se apresenta como vítima. Pelo contrário, vivencia cada elemento patriarcal, sublinhando a relevância para a sua vida. Seus estudos, sem qualquer desgosto ou mágoa, ocorrem totalmente no interior da casa, com professores e professoras, brasileiros e estrangeiros. Paraizo se bastava por si mesma.

A remissão à meninice em uma fazenda de café, com períodos de férias na casa da cidade de São Paulo, pontua o entendimento quanto ao lugar da mulher. Ainda naturalmente despido da consciência feminista evidente na atualidade (diga-se de passagem, essencial para os nossos dias), mostra-nos uma menina encantada com o mundo que a rodeia, formulando impressões sempre saudosas, e simpáticas, cativando o leitor. Isso se torna ainda mais evidente por meio da constante utilização de adjetivos aliados à descrição pormenorizada dos ambientes em que vive.

Brazilia descreve o amor a partir do casamento, fazendo-o com deferência, sem esboçar qualquer intimidade. Chega a criar um falso clímax por nos haver deixado na expectativa da descrição das bodas, quebrada com um simples, porém forte, comentário: “Para mim essa viagem de núpcias foi feliz e interessante”. Ponto final. No entanto, notamos uma coerência com a maneira como conduziu a escrita ao longo de todo o livro, tendo em vista a apresentação da meninice, dos anos de formação da autora, na fazenda Paraizo – que parecia ter apenas dias ensolarados.

Embora em diversos momentos atente para descrições minuciosas da sociedade da época, não o faz com a crítica evidente no realismo de Machado de Assis ou Aluízio de Azevedo, já notabilizados como autores. Não há quaisquer indícios de ironia. Pelo contrário, guarda admiração, impondo-se com a vida no campo, entonando o lugar cuidadoso e privilegiado ocupado pela classe social a que pertence. O passado é recontado de maneira sempre positiva.

Conforme enfatizado por Jorge Caldeira, no posfácio, os dados pessoais de Brazilia transformam-se em valores. Logo, as impressões desenvolvidas a partir de descrições, muitas vezes minuciosas, suscitam a nossa curiosidade quanto à personalidade da própria autora. Brazilia é realmente isso que nos apresenta? Era assim que ela assimilava as coisas ao seu redor? Eis a suspensão do leitor que fecha o livro intrigado ante a confissão.

Quando Floriza escreve Páginas de Recordações a vida urbana já havia se consolidado em nosso imaginário cultural. Desse modo, o livro soa como um desabafo. Resgata uma visão mais cuidadosa sobre o passado na fazenda, descrito a partir de uma rotina estafante, destarte o prazer proporcionado pela natureza. Mesmo no momento em que gozava do poder econômico da comercialização do café, como as viagens à Europa, por exemplo, havia sempre um teor ético de compromisso com o árduo trabalho aguardado na vida no campo, como se dissesse que nada daquilo veio de graça, sendo fruto de intensa dedicação.

No lamento de Floriza, o campo aparenta uma permanente, mas velada, competição com a cidade. A cada linha tem-se a impressão de alguém a falar para um interlocutor imaginário específico, predisposto a classifica-la como latifundiária que apenas desfruta belezas ofertadas pelo ambiente rural. Talvez por isso a insistência em palavras como “luta”, “sacrifício”, “esforços”, entre outras análogas.

Simultaneamente, tampouco há em Páginas de Recordações a condenação do campo. Os sentimentos de Floriza se aparentam mais à resignação, tendo em vista as circunstâncias que a levam a sair de Piracicaba para o interior do estado. Apresenta distanciamento maior dos adjetivos. E apesar de o livro contemplar praticamente toda a sua vida, incluindo o casamento, não faz referência a Antoninho, seu marido, de maneira afetiva. Ele é apresentado mais como um companheiro de jornada, o pai de seus amados filhos.

De fato, o que notamos em ambas as obras é a presença de um elemento subjetivo marcante na composição das narrativas. Brazilia nos apresenta a menina em uma perspectiva idílica, apaixonada por seu passado e comprometida com ele por puro afeto. Floriza oferece o protagonismo feminino no trabalho, não somente da organização da casa – conforme nos acostumamos a ver com Gilberto Freyre –, mas, igualmente, na lavoura e consequente sucesso do café, descrito com timidez. O comprometimento com o passado, em “Páginas de recordações” está muito mais próximo de um elemento ético, moral. Em suas memórias, os dois livros retratam o tradicionalismo das famílias fazendeiras.

Tudo isso faz com que estejamos diante de dois olhares completamente distintos sobre a vida nas fazendas de café do final do 19 e princípio do 20. São dois olhares sobre a mesma coisa. Os relatos publicados pela Chão Editora são fundamentais para apagar a tinta que cobre os matizes existentes nesse momento da história do Brasil. Desmitifica o cafeicultor, a cafeicultora, enquadrando-os como indivíduos comuns, orgulhosos de seus passados. 

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