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Livros de Pedro Llosa Vélez e Marcelo Soriano abordam a precariedade humana

Se Vélez emula Cervantes para refletir sobre uma sociedade que se despedaça, Soriano escolhe ser uma espécie de Georges Simenon tupiniquim que vai da metrópole paulistana ao cerrado goiano

Martim Vasques da Cunha*, Especial para o Estado

25 de janeiro de 2020 | 16h00

A Medida de Todas as Coisas, do peruano Pedro Llosa Vélez, é uma surpreendente coletânea de novelas ficcionais interligadas por um tema humano, demasiado humano: o de que “todas as coisas passam”, como diria a famosa canção de George Harrison – em especial as que envolvem a vida erótica e a vida do intelecto.

Com um domínio técnico e narrativo impecável, Vélez dividiu o livro em duas partes distintas. A primeira é sobre os impasses de três homens que subitamente decidem se separar das suas parceiras amorosas. Os motivos são inúmeros: insatisfação, inquietação, fuga da realidade por meio de devaneios sociológicos. O final é sempre o mesmo: a paralisia, a indecisão e a incapacidade de encarar a si mesmo.

Já a segunda parte amplia o escopo do que acontecia nas novelas anteriores. Se antes Vélez fazia uma análise sentimental para ligar o mundo interior dos personagens com o seu mundo exterior deles, agora ocorre o inverso. A sociedade e seus inimigos influenciam as paixões dos homens e, por causa dessa ampliação, o narrador também se expande, fragmentando os pontos de vista – todos em função de uma perspectiva que mostra um universo que parece conectar Lima e Holanda, América Latina e Europa em um planeta globalizado, mas que, no fundo, está cada vez mais despedaçado no coração de cada um de nós.

Contudo, não espere nenhuma espécie de sentimentalismo tóxico ou até mesmo um lirismo esteticista nessas “novelas exemplares” (para citarmos um autor caro a qualquer um que escreva em castelhano, Miguel de Cervantes). O tom de Vélez é o da ironia elegante, mais próximo do wit britânico de Evelyn Waugh (especialmente na narrativa O Cantador de Feira) do que propriamente de uma comédia escrachada. Ele também não julga suas criaturas. Mostra o que acontece no íntimo de suas consciências, desenvolve as consequências das ideias que os influenciaram – e deixa tudo em aberto para o juízo do leitor, o único válido para quem pratica a verdadeira literatura.

Afinal de contas, lidar com o tema da transitoriedade das coisas não é fácil para um escritor habitante em um mundo que o recusa como se fosse uma obsessão. Este também foi o problema dramático que o estreante Marcelo Soriano tratou brilhantemente com seu romance de estreia, Flores de Beira de Estrada (ed. Laranja Original). Se Vélez emula Cervantes e Waugh para refletir sobre uma sociedade que se despedaça a olhos vistos entre o erotismo e o pensamento, Soriano escolhe ser uma espécie de Georges Simenon tupiniquim que vai da metrópole paulistana ao cerrado de Arenópolis, em Goiás. Detalhe: não nos referimos aqui ao Simenon criador do memorável comissário Maigret e sim o dos romances duros (romans dûrs), verdadeiras obras-primas dignas de um Albert Camus e que meditam sobre os tormentos das paixões e das ciladas feitos pelo destino implacável.

Flores conta a história de Guime que, depois de um acidente automobilístico que mata sua namorada Dora, enfrenta um redemoinho de remorso e rancor que atinge a sua família até fazê-lo questionar sua própria identidade. Por meio de um estilo áspero que, mesmo assim, em vários instantes revela percepções poéticas inusitadas sobre a psique humana, mostra um escritor com plena segurança das suas intenções na construção da estrutura narrativa e dos temas dramáticos abordados. 

No Brasil, é muito raro ver alguém como Soriano abordar com maturidade uma reflexão mais sombria sobre a precariedade humana. Talvez os únicos escritores contemporâneos com quem ele consiga dialogar sejam o André De Leones de Abaixo do Paraíso (2016), o Joca Reiners Terron de Noite Dentro da Noite (2017) e o Juliano Garcia Pessanha de Recusa do Não-Lugar (2018). Em todos eles, percebemos um ritmo implacável que orienta o leitor nas suas (e, portanto, nossas) inquietações, costurado em tramas que parecem ser frágeis, mas que revelam, de forma cifrada, o que acontece com quem tenta resistir em um mundo que se despede a cada instante diante dos nossos olhos.

A solução, se há alguma, articulada tanto nas novelas irônicas de Vélez como no romance árido de Soriano, não é apenas dar um adeus a tudo que nos rodeia, e sim nos desapegar de todas as coisas transitórias que aparentemente nos sustentam, até alcançarmos a única medida fundamental: a do amor que nos ensina a futilidade do orgulho intelectual, psíquico, erótico e – por que não? – social.

Apesar da distância geográfica, Soriano e Vélez estão unidos na busca de praticar a grande literatura que, no fim, nos ensina que todas as coisas precisam passar para que possamos ser um pouco mais humanos – e um pouco mais permanentes.

*MARTIM VASQUES DA CUNHA É AUTOR DE ‘A TIRANIA DOS ESPECIALISTAS’ (CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA, 2019)

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