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Kevin Lamarque/Reuters
Kevin Lamarque/Reuters

Livros de três intelectuais tentam desvendar a ficção por trás do populismo

Os historiadores norte-americanos Anne Applebaum e Timothy Snyder e o diplomata português Bruno Maçães se debruçam sobre o fenômeno político desencadeado pela eleição de Donald Trump em 2016

Martim Vasques da Cunha*, Especial para o Estado

23 de janeiro de 2021 | 16h00

Desde 2016, a existência tanto da presidência de Donald Trump como do fenômeno mundial chamado “populismo” irrita a casta de pensadores espalhados pelo globo terrestre. Isso se acentuou em 2020, quando tudo ficou ainda mais extremo e arriscado, não só com a campanha para a reeleição de Trump, mas sobretudo com o surgimento da pandemia do coronavírus. E foi justamente com o intento de entender ou reverter essa situação que três intelectuais cosmopolitas lançaram novos livros: os historiadores norte-americanos Anne Applebaum e Timothy Snyder, em seus respectivos Twilight of Democracy: the Seductive Lure of Authoritarism (a sair em breve com tradução nacional pela Record) e Our Malady: Lessons in Liberty from a Hospital Diary, e o diplomata português Bruno Maçães e o seu History Has Begun: The Birth of a New America, elogiadíssimo por ninguém menos que o filósofo inglês John Gray. Applebaum é dona de uma obra impecável sobre o totalitarismo soviético. Seu Gulag, de 2004, já se tornou um clássico para quem quiser saber o que aconteceu de fato naquele vasto e misterioso país. Em 2017, ela repetiria a dose com A Fome Vermelha, um assombroso relato de como Stalin invadiu a Ucrânia matando o seu povo de fome (literalmente). Enfim, sabe do riscado quando o assunto é a corrupção política. Por isso espanta-se que lance um livro tão fraco a respeito da temida presidência de Trump – e suas cópias internacionais, como Viktor Orban, na Hungria, e Bolsonaro, no Brasil. 

Applebaum parte de um início instigante: o relato de uma comemoração de final de ano ocorrida na Polônia, logo depois da queda da União Soviética, onde vários amigos seus seriam depois intelectuais aliados de governos autoritários e populistas que chegaram ao poder no Leste Europeu nos anos 2010. Ela foi a anfitriã do evento – passara a morar na Polônia ao casar-se com um político local – e sugere ao leitor que dará acesso a intimidades nunca antes divulgadas sobre seus convidados, a maioria envolvida nos meios conservadores por causa da oposição ao comunismo, em voga no final da Guerra Fria. Assim, temos algumas fofocas sobre Boris Johnson e Roger Scruton, e também sobre uma jornalista polonesa de grande sucesso naquelas bandas (Ania Bielecka) e outras inconfidências ao redor de Laura Ingraham, hoje âncora de um programa de grande audiência na rede de TV pró-Partido Republicano Fox News.

Todos esses nomes têm em comum, segundo Applebaum, o que Julian Benda chamou, em 1928, de “a traição dos intelectuais”. A expressão é chocante, sem dúvida; o problema é que a historiadora baseia toda a sua denúncia da “sedução do autoritarismo” num entendimento completamente equivocado da tese de Benda. Para Applebaum, a traição dos seus colegas intelectuais seria que eles trocaram uma visão de mundo liberal e progressista por outra que estimula a perseguição, a calúnia e a mentira, tudo isso em função da defesa da xenofobia e do nacionalismo. É certo que os pontos listados são abomináveis. Contudo, não foi o que Benda quis dizer por “traição”. O francês discorria sobre algo muito pior (por incrível que pareça): neste caso específico, os intelectuais, que deveriam almejar a contemplação do transcendente, resolveram partir pura e simplesmente para a ação política, sempre a favor de quem ocupará o comando do Estado. Ou seja: substituíram um Deus de verdade por um ídolo de barro.

Ao esquecer-se desse pequenino detalhe, Applebaum comete a mesma falha dos seus algozes, além de não apontar o dedo para si mesma. Neste tipo de atitude, ela está bem acompanhada. Timothy Snyder procede de modo semelhante à sua colega de ofício: conta uma experiência tremendamente pessoal. Contudo, se Applebaum fez uma “busca do tempo perdido” por meio de uma festa com amigos que se transformaram em inimigos, já ele narra algo muito mais brutal: a sua passagem por hospitais americanos, no auge da pandemia de coronavírus, onde quase morreu por causa de uma apendicite malcuidada e um fígado perfurado. 

Em Our Malady, Snyder faz paralelos com a sua doença particular e com a enfermidade coletiva que ataca o sistema democrático americano, já descrita em Sobre a Tirania e Na Contramão da Liberdade, suas obras anteriores. O argumento é comovente: não se pode ter liberdade se ninguém tem direito a saúde. Somos livres somente se nossos corpos estiverem bem cuidados. Não há como discordar dessa afirmação, especialmente quem já passou por algum leito de UTI ou alguma consulta no SUS. Mas logo depois ele põe a culpa absoluta e exclusiva em Donald Trump, que, sem dúvida, fez um papel vexaminoso no modo de conduzir o combate contra a peste da covid-19, ainda que tenha herdado um problema estrutural que já existia há tempos, muito antes do seu governo (Jimmy Carter e Ronald Reagan entre eles).

Este descuido com as teorias dos outros e com os fatos, algo imperdoável para dois historiadores que vivem da exatidão do que relatam, nos faz perguntar se, no fundo, tanto Applebaum como Snyder não vivem suas respectivas ficções políticas. Sem tê-los em mente, eis o ponto central do livro de Bruno Maçães, History Has Begun: de acordo com o diplomata português, a base existencial dos Estados Unidos sempre foi a preferência por viver em um mundo repleto de ilusões. Em uma espécie de ensaio comparativo com a cultura europeia, ele mostra como a América, apesar de ser considerada uma filha do Velho Continente, desgarrou-se das suas origens e criou um universo autossuficiente que, no fim, contagiou a sua própria origem, ao alterar também o modo dela de fazer política. No fim, vale o princípio da irrealidade: “tudo é possível, mas nada é verdadeiro”.

Ao contrário do que se pode pensar, Maçães não vê isso como um defeito e sim como uma “grande virtude política”. Quanto mais um país acredita que vive na sua própria ficção, mais forte é a crença de que dobrará a estrutura do mundo. Temos aqui um recomeço do curso providencial americano porque, finalmente, os EUA cumpririam a sua vocação: a de ser uma espécie de “paraíso perdido”, capaz de ser reconstruído conforme o confronto com a aspereza dos fatos. Porém, há uma lacuna no brilhante raciocínio de Maçães – um erro grave para quem ousa revelar ao leitor o que seria a essência norte-americana: não há uma análise mais detida da Guerra de Secessão, que praticamente fundou a nação de Lincoln e Roosevelt como a conhecemos em nossos sonhos coletivos, por meio de produtos de marketing e inúmeros filmes. Há apenas uma linha ali e acolá sobre esse evento, e tudo descrito de maneira bem superficial. É de se pensar se, ao negar uma sangrenta guerra civil, que opôs irmão contra irmão, não deixa de ser mais uma ficção nesta fila de enigmas insolúveis.

Essas três perspectivas deveriam, cada uma a seu modo, ajudar o pobre leitor a entender o que se passava no universo segundo Donald Trump, o governante que chocou a todos ao provar que a democracia era uma “ilusão cognitiva”. Mas quem resolveu esse nó górdio não foram esses intelectuais. Foi a própria realidade – e por meio de um instrumento muito simples: o voto. Como bem descreveu Noah Rothman, na revista Commentary, no dia 3 de novembro de 2020, quando ocorreu a eleição americana, “todos foram punidos”. Dos democratas que torceram por uma “onda azul” inexistente que destruiria Trump ao próprio residente da Casa Branca que, por causa da sua trapalhada ao negar o coronavírus, perdeu a margem definitiva para a sua reeleição, passando pelos experts da mídia que levaram as pesquisas a sério demais e não perceberam que, numa jornada acidentada, jamais se deve confundir o mapa com o território – toda a elite política foi vítima de um ataque cirúrgico feito pelo cidadão comum.

Numa ironia gigantesca (e ainda não adequadamente compreendida por seus pares), Applebaum, Snyder e Maçães ficaram reféns da mesma alucinação coletiva que Trump pensou controlar e manipular à vontade na hora de seduzir seus acólitos. Não foi por acaso que o ex-presidente americano, incapaz de assumir a derrota, resolveu incitar uma insana invasão no Capitólio em Washington no dia 6 de janeiro, por meio de uma militância composta de “feios, sujos e malvados”. Afinal, tanto Trump como os nossos iluminados do pensamento se esqueceram que, se a tal da democracia realmente existe, a sua resposta efetiva nunca virá dos “melhores e dos mais brilhantes” de qualquer geração ou dos “tiranos” que imaginam sentir o pulso do povo. Ela surgirá daqueles “homens ilustres” os quais não são elogiados por ninguém, os mesmos sobre quem a inscrição da Estátua da Liberdade afirma serem “os pobres, os exaustos e os confusos que anseiam por liberdade”. Pois, de ficção em ficção, esta é a única verdade que resta em qualquer tipo de política.

*MARTIM VASQUES DA CUNHA É AUTOR DE ‘A TIRANIA DOS ESPECIALISTAS (CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA, 2019) E ‘O CONTÁGIO DA MENTIRA’ (ÂYINÉ, 2020)

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