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Livros discutem papel e vital importância das tradutoras

Hoje, as editoras têm formado conselhos editoriais mais heterogêneos e, não é raro, encabeçados por mulheres

Dirce Waltrick do Amarante, Especial para o Estadão

15 de janeiro de 2022 | 16h00

Em A Casa do Pai (Instante), da escritora espanhola Karmele Jaio, traduzido por Fabiane Secches, o leitor fica sabendo que a mulher do protagonista abandonou a escrita, mas é leitora e revisora dos textos do marido, esse sim o escritor. Depois de criar as filhas, começa a participar de um clube de leitura feminista, uma espécie de Blue Stockings Society dos dias atuais. Chama a atenção a seguinte passagem que narra a relação entre o casal: “Muitas vezes, sobretudo quando lê algum livro do clube de leitura, ela cita o nome da autora, e você nem se atreve a dizer que não conhece. Não quer começar a discussão de sempre, de que se você não está a par do que as mulheres estão escrevendo. É porque não lhes dá valor...”.

Nesses últimos anos, o Brasil viveu um boom de lançamentos de livros escritos por mulheres e traduzidos, na maior parte das vezes, por mulheres. Talvez esse fenômeno se dê porque, hoje, existem não só mais mulheres tradutoras como também as editoras têm formado conselhos editoriais mais heterogêneos e, não é raro, encabeçados por mulheres. 

As mulheres também têm dado atenção ao que as outras escrevem; isso não significa dizer que se criou um nicho ou um “grupinho”, do qual a literatura produzida por homens esteja excluída ou pelo qual seja desconsiderada. O que ocorre, parece-me, é algo natural: queremos nos ouvir também e queremos nos dar voz. Nesse sentido, a escolha, quando possível, do que se vai traduzir pode ser também uma escolha política. 

Diferentemente das confrarias masculinas, as confrarias femininas não são vistas, contudo, com bons olhos; basta pensar no termo bluestocking, que posteriormente passou a ser considerado um agrupamento de mulheres que falava de forma superficial sobre determinados assuntos, como, por exemplo, literatura.

A palavra gossip, fofoca em inglês, deriva de dois termos God (Deus) e sipp (aparentado), como lembra Silvia Federici, no livro Mulheres e Caça Às Bruxas, e significava originalmente padrinho ou madrinha. Nos séculos 15 e 16, canções descreviam como gossips mulheres que se uniam em tavernas para beber e se divertir. Não por acaso o termo se tornou pejorativo e, até hoje, dizem que “fofoca é coisa de mulher”. 

A propósito, o livro de Federici só se materializou graças a uma confraria de mulheres: a tradutora Heci Regina Candiani, a editora Ivana Jinkings (Boitempo), a revisora Sílvia Balderama Nara e Bianca Santana, que assina o prefácio da edição.

A respeito desse olhar para a produção feminina, que também é um olhar político, foram publicados, em tradução para o português, nestes últimos anos, livros assinados por escritoras, principalmente, hispano-americanas. Os livros tratam dos temas mais diversos, que vão desde o gótico, como o livro Gótico Mexicano, da mexicana Silvia Moreno-Garcia, em tradução de Marcia Heloisa e Nilsen Silva (Darkside Books), à ficção científica de Kentukis, da argentina Samanta Schweblin, em tradução de Livia Deorsola (Fósforo). 

Nesta onda de tradução de livros escritos por mulheres, o Oriente não ficou de fora e as vozes das suas escritoras também começaram a chegar em português. Esse é o caso de Dames da Lua, da escritora de Omã Jokha Alharthi, traduzido por Safra Jubran (Moinhos).

Nem todos os livros escritos por mulheres são traduzidos por mulheres, ou deveriam ser só traduzidos por mulheres. Pode-se traduzir autores de diferentes sexos e de diferentes cores; basta para tanto, a meu ver, que o tradutor ou a tradutora se dedique à obra a ser traduzida e à sua história. A respeito do feminismo, bell hooks afirma que ele “autoriza homens e mulheres, meninos e meninas, a participarem em condições iguais da luta revolucionária”. De modo que é preciso considerar os homens não só como potenciais opressores, mas também, e sobretudo, como potenciais camaradas na luta. 

Um dos grandes tradutores da feminista Virginia Woolf, no Brasil, é Tomaz Tadeu da Silva. Piotr Kilanowski traduziu, entre outras, a poeta polonesa Anna Swirszczyska. Já a poesia completa de Emily Dickinson foi traduzida por Adalberto Müller 

O tradutor ou a tradutora partilham de um mesmo desconforto, o de ser uma figura obscurecida. Seus nomes nem sempre constam da capa dos livros ou são mencionados em resenhas de jornal. 

No caso das premiações, é diferente; as tradutoras, pelo menos no Brasil, nem sempre constam da lista de finalistas ou são as vencedoras na categoria tradução.

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