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Livros infantis de Gertrude Stein ganham tradução

'O Mundo é Redondo' e 'Para Fazer: Um Livro de Alfabetos e Aniversários' incorporam traços bem típicos de sua escrita para adultos

Dirce Waltrick do Amarante*, Colaboração para o Estado de S. Paulo

18 Fevereiro 2017 | 16h00

Talvez a faceta menos conhecida de Gertrude Stein seja a de escritora de literatura infantil e juvenil; mas, em determinado momento de sua carreira, ela se dedicou a escrever para as crianças. Na verdade, fez dois livros: O Mundo é Redondo, escrito em 1938 e publicado em 1939, e Para Fazer: Um Livro de Alfabetos e Aniversários, de 1940.

Essa inserção no mundo da literatura infantil e juvenil parece ter sido recorrente entre os vanguardistas. O irlandês James Joyce deixou dois contos em cartas para o seu neto Stephen Joyce; o russo Daniil Kharms escreveu muitos contos que foram publicados em revistas para os pequenos leitores; o norte-americano E. E. Cummings escreveu alguns contos de fadas para a filha que ele veio a conhecer adulta; Eugène Ionesco escreveu cinco histórias absurdas também para a sua filha, Marie France. Muitos outros escritores engrossam essa lista e não pense o leitor que irá encontrar nessas obras para os pequenos um estilo muito diferente daquele de suas obras para os adultos. 

Vindos de Gertrude Stein, portanto, não se deve esperar que esses sejam livros convencionais. Isso não significa que as crianças não tenham condições de usufruí-los, ainda que exijam delas uma boa dose de imaginação e curiosidade, que elas têm de sobra. 

Muitas vezes, os críticos se perguntam se os mencionados livros de Stein seriam, de fato, para crianças, uma vez que a sua linguagem radical poderia afastar até os leitores mais experientes. Edith Thacher Hurd, no prefácio da edição americana de The World is Round (O Mundo é Redondo), conta que, aos 10 anos, quando leu o livro pela primeira vez, sentiu uma certa dificuldade em relação à linguagem, mas logo a dificuldade deu lugar ao seu poder encantatório.

Para compor Para Fazer: Um Livro de Alfabetos e Aniversários, Stein parece ter optado por um procedimento frequente e tradicional na literatura para crianças. Se a identificação é, provavelmente, imediata, a compreensão do texto de Stein exige do leitor, mirim ou não, um pouco mais, pois há passagens bastante intrincadas com ausência parcial de pontuação: “o raio e o trovão ficaram mais sonoros e mais sonoros ainda e o gato Nenhum estava morto era fato e os deliciosos biscoitos caseiros estavam longe, os passarinhos haviam levado os biscoitos e o que George podia fazer ou dizer, ele podia tirar uma foto por dia mas isso só não bastaria para pagar sua estadia, ele não podia pagar, pobre George pobre querido George magricelo pobre querido George magricelo e grisalho pobre George ele foi embora e não se pode dizer mais nada pobre George magricelo e grisalho ele era um menino magricelo e grisalho e ele não tinha nenhum brinquedo e não tinha nenhum” (tradução de Luci Collin e minha). 

O livro para crianças de Stein incorpora traços bem típicos de sua escrita para adultos; o estilo é altamente repetitivo, mas extremamente rítmico, entrelaçando e confundindo som e sentido. Além disso, há no texto justaposições de palavras e brincadeiras com a sintaxe. Outra característica da escrita de Stein é a de evitar tanto quanto possível a pontuação: vírgulas, pontos de interrogação (que ela abominava) etc., o que muitas vezes torna o texto ainda mais confuso ou ambíguo. 

Para entender Gertrude Stein e os textos de vanguarda de um modo geral, é preciso abandonar o conceito de leitura que nos impuseram ao longo dos anos em bancos escolares, ou seja, o de que o texto tem que ter, necessariamente, começo, meio e fim, e que, de preferência, carregue um claro ou dissimulado preceito moral. É preciso entender que a leitura pressupõe muito mais do que isso, pois é feita de música, de ritmos, de brincadeiras humoradas com a linguagem e, principalmente, de percepções subjetivas do próprio leitor. 

Por fim, diria que Para Fazer: Um Livro de Alfabetos e Aniversários segue também a tradição da literatura nonsense, que foi explorada em muitos sentidos na escrita vanguardista, em textos, por exemplo, dos absurdistas, surrealistas etc. 

No livro de Stein, o nonsense, à moda de Lewis Carroll e Edward Lear, é uma das muitas características de sua prosa múltipla. Em Para Fazer: Um Livro de Alfabetos e Aniversário, o nonsense se apresenta como a língua de uma experiência que não é considerada no discurso do bom senso.

Com os direitos autorais liberados, esses textos de Stein virão à tona e incitarão talvez novos estudos sobre esse aspecto ainda pouco conhecido de sua obra. E, acima de tudo, surpreenderão e divertirão adultos e crianças. 

*É autora, entre outros, de 'Cenas do Teatro Moderno e Contemporâneo', da editora Iluminuras

Para Fazer: um Livro de Alfabetos e Aniversários

Autora: Gertrude Stein

Tradução: Luci Collin e Dirce Waltrick do Amarante

Editora: Iluminuras

Nas livrarias em março

Mais conteúdo sobre:
Gertrude Stein James Joyce Lewis Carroll

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